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Culpa

O estranho hábito de pedir desculpas por existir

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Há pessoas que pedem desculpas por ocupar espaço.

“Desculpa incomodar.”

“Desculpa mandar mensagem.”

“Desculpa perguntar.”

“Desculpa falar.”

“Desculpa precisar.”

É curioso.

Desde cedo aprendemos que ocupar espaço é uma espécie de privilégio que precisa ser negociado.

Meninas aprendem a falar mais baixo.

Mulheres aprendem a não parecer excessivas.

Trabalhadores aprendem a agradecer até quando recebem aquilo que lhes é devido.

E todos nós, em algum momento, aprendemos a transformar necessidades legítimas em pedidos de desculpas.

Foucault provavelmente teria muito a dizer sobre isso.

O poder mais eficiente não é aquele que precisa gritar.

É aquele que conseguimos reproduzir dentro de nós mesmos.

Quando começamos a nos vigiar antes que alguém nos vigie, o controle já não precisa de um fiscal.

E talvez seja por isso que algumas pessoas tenham tanta dificuldade em dizer “não”.

Foram ensinadas a ser úteis antes de aprenderem a ser livres.

A questão não é tornar-se indiferente ao outro.

Empatia continua sendo necessária.

Mas existe uma diferença entre consideração e apagamento.

Ser gentil não significa desaparecer.

Ser generoso não significa estar permanentemente disponível.

Cuidar não significa carregar o mundo inteiro nas costas.

Talvez algumas pessoas precisem substituir o “desculpa incomodar” por “obrigada por me ouvir”.

Parece uma mudança pequena.

Mas palavras também organizam relações.

E, às vezes, mudar uma palavra é o primeiro passo para mudar a posição que ocupamos dentro da própria vida.

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