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Vozes da Literatura

O fazer literário de Francisco Wagner Evangelista da Silva

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A voz de um escritor nunca nasce no isolamento; ela é esculpida no diálogo silencioso com os mestres do passado e no olhar atento sobre as fraturas do presente. Nesta edição da coluna Vozes da Literatura, conversamos com o ficcionista Francisco Wagner Evangelista da Silva, que nos conduz pelos bastidores de um fazer literário profundamente marcado por sua bagagem como historiador e leitor crítico. Transitando entre a crônica urbana e o conto, o autor reflete sobre os desafios de buscar a autenticidade em uma era saturada de narrativas rápidas, onde a literatura assume o papel urgente de refúgio e espelho das nossas próprias angústias existenciais.

Ao longo desta entrevista, Silva desconstrói o mito do gênio isolado e defende o poder do coletivo e das redes de apoio mútuo como o verdadeiro motor do mercado editorial independente nacional. Das lições práticas do Estoicismo às reflexões contemporâneas sobre a Sociedade do Cansaço, o escritor compartilha como equilibra o rigor técnico com a liberdade da invenção criativa. Trata-se de um mergulho sem filtros na mente de um autor que assume com orgulho o “lugar de fala” do humano comum, provando que a literatura de qualidade resiste e se renova no cotidiano.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Confesso que sempre encarei os clássicos com passividade. Bastava absorver cada ideia, cada construção de frase, a criatividade por trás da obra e concluir que eu não tinha a menor capacidade de fazer algo parecido. Mas algo aprendido nesse caminho é que todos os grandes mestres têm algo em comum: eles escreveram com autenticidade. Mais que isso, essa autenticidade foi exposta de modo que eles pudessem ser compreendidos. Isso é uma lição valiosa pra qualquer autor. Por outro lado, quanto mais você amplia seu repertório, maior é o desafio de inovar. A impressão que fica, parafraseando o quadrinista André Dahmer, é que em matéria de texto literário tudo já foi feito.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Sempre gostei bastante do Estoicismo. Aí as pessoas passaram a encarar essa corrente filosófica como um tutorial de que o sentido da vida é apatia. Minha mulher gosta muito do Byung-Chul Han e eu acho que suas ideias abarcam muito bem o momento que vivemos, sobretudo o que ele trata em Sociedade do Cansaço.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

A crônica é atemporal. Ela serve de veículo crítico pra esse contexto contemporâneo de consumismo, informação rasa e conteúdo gerado artificialmente. Mas ela também serve como espaço alternativo pra ver o lado bom da vida, entende? Tratar com bom humor o lado ruim da existência ou simplesmente colocar em evidência algo que todo mundo vê todos os dias, mas não observa. Isso não tem época, não tem lugar, não tem classe social. É sempre necessário.

“Eu quero ser dono da mentira boa, a mentira que não prejudica”

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Minha primeira área de formação acadêmica é a História. O principal diferencial entre História e Literatura, como diz o professor Júlio Pimentel, é que o compromisso do ficcionista é com a imaginação, já o compromisso do historiador é com a verdade. Então é uma questão da persona assumida no momento da escrita. O fato tá aí pra ser deturpado pela criatividade. O que não falta é quem queira ser dono da verdade. Eu quero ser dono da mentira, mas a mentira boa que não tem intenção de prejudicar ou difamar o outro. Assim é mais divertido.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana
ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

A pior parte de nossa era é que vivemos num momento de bolhas. Não é mais só uma questão de se identificar com uma vertente, um grupo, um pensamento ou partido. Mas também do desconhecimento absoluto do que está do lado oposto. Talvez esse seja o maior desafio. Quantas verdades (sim, temos que colocar no plural) ainda temos que são universais ou, na medida do possível, aceitas pela maioria das pessoas? Inevitavelmente nossa narrativa acaba distorcida. Torcemos para que seja pelo menor número de pessoas possível.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

No autor profissional elas sempre coexistem. Imagina dois ilustradores que dividem o mesmo quarto. Um deles está cursando Artes Visuais na faculdade de Belas Artes de SP e passa seus dias mergulhado no estudo. Anatomia, História da Arte, Filosofia da Arte, esboço, arte digital, pintura… Sua preocupação com a técnica é tanta, tão minuciosa, tão primordial, que ele não cria nada original. Nem sobra tempo pra isso. Agora o outro fervilha de ideias. O problema é que, na hora da execução, ele não sabe por onde começar. Mesmo que soubesse, a mão não acompanha o que é imaginado na cabeça. No fim, os dois são expulsos de onde moram porque não conseguem comissão pra pagar o aluguel.

“Meu lugar de fala é o humano comum”

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Meu lugar de fala é o humano comum. Daí o nome autoral ser Silva. Tem inúmeros Silvas por aí, vivendo o que se espera das classes sociais mais baixas: trabalhar desde novo, conciliar serviço e estudo, sobreviver como dá fazendo o que aparece… Já perdi as contas de quantas vezes ouvi que sou pobre e aí escolhi cursar licenciatura e ser artista. Meus textos tentam transmitir isso. Somos parte dessa massa de gente teimosa que deveria tá fazendo serviço braçal mas quer se meter com arte, cultura, educação e outras coisas sem utilidade…

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em detrimento de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Com certeza. Se tem algo que minha recente trajetória no mercado literário tem revelado é que o êxito nesse processo depende da participação coletiva. Foi nas antologias que encontrei meu primeiro espaço de publicação. É nas campanhas de financiamento superadas que se evidencia a força da comunidade. Cada curtida, cada comentário, cada post, tudo isso são formas de demonstrar apoio que, no fim, não fortalecem apenas um autor, mas o desenvolvimento da literatura nacional.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

São outras vidas completamente diferentes da nossa que se manifestam nesses espaços. Além dos diferentes estilos e preferências de gênero, esses autores são profissionais das mais diversas áreas. Isso enriquece nosso trabalho. Do advogado que orienta como acontece um julgamento ao taxista que conta um causo de um passageiro bêbado, tudo são auxílios que enriquecem a narrativa.

“A tecnologia dá cada vez mais voz, olhos e ouvidos pras pessoas”

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Sem dúvidas, é a primeira vez que leio algo assim. O que ouço frequentemente é que a gente tá cada vez pior. Lendo menos, estudando menos, ganhando menos, interagindo menos, com QI menor, renda menor, menos alegria, menos amor, menos ética… A visão de Eduardo não é só otimista, é motivadora. E a essência é isso mesmo. A tecnologia dá cada vez mais voz, olhos e ouvidos pras pessoas. Vale ressaltar, isso só acontece se utilizarmos a tecnologia como ferramenta e não como substituto.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

No fundo todo autor é alguém que tem a necessidade vital de falar o que pensa mas tem vergonha de subir num banco da pracinha e começar a gritar. Meu primeiro conto publicado foi Macarrão e muita coisa. Era pra ser uma crônica sobre opiniões polarizadas mas acabou virando um conto em duas partes: na primeira, que foi publicada na edição de outubro de 2022 do Jornal RelevO, especulo sobre uma guerra civil por conta da adoção do termo “macarrotudo” ao invés de macarronada. Na segunda parte, a pessoa que teve a brilhante ideia de irritar os italianos, está agachada numa trincheira amarrando a bandeira branca na ponta do seu rifle. De onde veio isso? Nem eu sei.

“Toda experiência vivida inevitavelmente enriquece nosso texto”

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Toda experiência vivida inevitavelmente enriquece nosso texto. Nos últimos tempos, o lado profissional tem empurrado o lado criativo para o segundo plano. Criar demanda tempo. É frustrante quando a necessidade de sobrevivência fala mais alto, entende?

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença
digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Infelizmente, o que sai nas minhas redes sociais na maioria das vezes não é visto. Eu não tenho o menor engajamento, nem respeito pelo algoritmo. Produzo no meu tempo. E ainda mais agora que 99% das plataformas virtuais tem muito mais impulsionamento em dólar, conta premium e selo por assinatura.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Esses espaços são fundamentais pro autor independente. É através disso que a gente é visto e lembrado. Se estabelece uma relação benéfica mútua entre esses canais e o autor. Encontramos outros parceiros nesses meios. Todo mundo ganha.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Vai uma reflexão. Durante um simpósio temático sobre História e Arte, juntamente com minha companheira de vida, apresentamos uma fala sobre possibilidades de usos da distopia na análise histórico-literária. E uma das questões que surgiram por um dos ouvintes é se não seria desmotivador usar textos distópicos quando percebemos que o mundo caminha cada vez mais nessa direção. Pra que produzir se caminhamos para o caos?

Deixo aqui a mesma resposta que me veio naquela ocasião:

Caminhamos? Antes mesmo que o termo “distopia” sequer fosse elaborado, as pessoas já especulavam que o futuro seria pior. Muitas dessas desgraças se concretizaram, mas cá estamos nós. O que mostra que, por mais que percebamos a aproximação do caos (aparentemente inevitável), a existência ainda pode ser tolerável. Até boa. Essencialmente, é pra isso que serve a literatura.

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Compre aqui o livro Macarrão e muita coisa, do escritor Francisco Wagner Evangelista da Silva: https://editoraurutau.com/titulo/macarrao-e-muita-coisa

Instagram do autor:

@fwedsilva 

https://www.instagram.com/fwedsilva

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