Curta nossa página


De quatro em quatro anos

O futebol que me faz acreditar nas pessoas

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Estou naquela fase do ciclo de quatro em quatro anos em que vou dormir pensando em Copa do Mundo e acordo pensando em Copa do Mundo. Não há muito o que fazer. É mais forte do que eu. Basta a competição se aproximar para que eu comece a assistir a gols antigos, defesas impossíveis, narrações históricas e vídeos que o algoritmo entende, antes mesmo de mim, que vão me emocionar.

Sempre dizem que futebol é só um jogo.

Nunca foi.

Enquanto passava por esses vídeos, encontrei uma cena que me fez parar. Um menino com síndrome de Down pediu para cobrar um pênalti pelo seu time. Do outro lado, o goleiro adversário, Kevin Dawson, aceitou entrar na brincadeira. O menino bateu. A bola entrou. O estádio inteiro levantou para aplaudir. O árbitro sorriu antes de confirmar o gol. Os jogadores comemoraram juntos.

Naquele instante, ninguém perguntou quem venceria a partida.

Ninguém discutiu estatísticas, posse de bola ou tática.

Durante alguns segundos, o futebol deixou de ser competição para voltar a ser aquilo que talvez sempre devesse ser: encontro.

O sociólogo Norbert Elias dizia que o esporte é uma das formas mais sofisticadas de civilizar nossos conflitos. Competimos, disputamos, sofremos e comemoramos, mas dentro de regras que nos lembram que o adversário nunca deveria ser um inimigo. Talvez por isso o futebol seja tão fascinante. Ele revela o melhor e o pior da condição humana no intervalo de noventa minutos.

O antropólogo Roberto DaMatta escreveu que o futebol é uma poderosa metáfora da sociedade brasileira. Eu ousaria dizer que ele também é uma metáfora da humanidade. Porque há partidas que terminam em gols, outras em derrotas, algumas em injustiças. Mas existem jogos que terminam nos lembrando quem ainda podemos ser.

Vivemos tempos em que a competição parece invadir tudo. Disputa-se atenção, curtidas, espaço, poder e até quem sofre mais. Esquecemos que algumas vitórias não cabem em um placar.

Naquele pênalti, quem ganhou não foi um time.

Ganhou a infância.

Ganhou o respeito.

Ganhou a inclusão.

Ganhou a capacidade de olhar para o outro e entender que existem momentos em que ser humano vale muito mais do que ser campeão.

Talvez seja por isso que eu nunca consiga responder quando alguém pergunta como é possível gostar tanto de futebol.

Eu gosto, sim, dos dribles, dos títulos, das Copas e da emoção de um gol aos quarenta e cinco do segundo tempo.

Mas gosto, sobretudo, desse futebol raro.

O futebol que interrompe a pressa para aplaudir uma criança.

O futebol que entende que a maior vitória não é levantar uma taça, mas levantar alguém.

Porque troféus ocupam prateleiras.

Humanidade ocupa a memória.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.