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Morte em Veneza

O garoto mais bonito do mundo

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Reprodução

“A solidão mostra o original, a beleza e a poesia.
Mas também o avesso, o absurdo e o ilícito”
(Thomas Mann, livro A Morte em Veneza)

INFÂNCIA TRÁGICA

Björn Andrésen nasceu na Suécia, em 1955. Ele nunca conheceu seu pai biológico e sua mãe, Barbro Andrésen, era uma mulher de espírito artístico e boêmio. Quando ele tinha apenas dez anos, sua mãe desapareceu sem deixar rastros. Meses depois, seu corpo foi encontrado em uma floresta, deixando o menino à mercê de uma solidão absoluta e de uma tristeza que nenhuma criança deveria carregar.

Nesse vácuo de afeto, surgiu a figura de sua avó, uma mulher movida por uma ambição gélida. Ignorando a paixão de Björn pelo piano e sua natureza introspectiva e tímida, ela o arrastou para testes de elenco (para atuar como ator), decidida a usar o garoto para ganhar dinheiro.

VISCONTI E O CINEMA

Foi essa ganância que o entregou às mãos de Luchino Visconti, o renomado diretor italiano que percorria a Europa em uma busca obsessiva pelo “ideal de beleza absoluta” para estrelar o seu filme “Morte em Veneza”.

O encontro entre o diretor e o jovem de 15 anos foi predatório. No set de testes, Visconti ordenou que o menino se despisse, ficasse apenas de cueca e sorrisse para a câmera. Björn, visivelmente desconfortável e trêmulo deixou de ser um adolescente para se tornar o personagem Tadzio.

Björn tinha apenas 15 anos. Nunca sequer tinha beijado ninguém. Não sabia o que significava ser desejado. Era um adolescente profundamente inocente, completamente alheio ao peso e à complexidade do olhar adulto.

MORTE EM VENEZA, O LIVRO

Publicado em 1912, A Morte em Veneza, de Thomas Mann, narra a história do escritor de meia idade Gustav Aschenbach que, movido pelo desejo de viajante chegando a Veneza, apaixona-se por um belo adolescente. Este é o gancho central, mas a obra universal é muito mais do que isto. A obra explora em narrativa brilhante e poética a decadência física e moral do personagem Gustav em meio a um cenário veneziano assolado pela cólera e pela beleza inatingível do jovem Tadzo. Mann levou o prêmio Nobel. O livro explora temas como o desejo proibido, a solidão, a arte e a fragilidade humana diante da morte.

MORTE EM VENEZA, O FILME

O filme “Morte em Veneza” foi gravado em 1970, e se tornou um sucesso avassalador quando foi lançado no Festival de Cannes de 1971. Ali, Visconti selou o destino do jovem ao batizá-lo publicamente como “o garoto mais bonito do mundo”. Essa frase foi a grade de sua jaula dourada.

Durante a divulgação do filme pela Europa, Björn, que tinha acabado de completar 16 anos, foi arrastado por Visconti para boates gays exclusivas, ambientes onde ele era a única criança cercada por uma elite de homens ricos e poderosos que o tratavam como um objeto. Ele recorda com amargura o horror de ser exibido como um troféu.

O TRAUMA JUVENIL

Em uma dessas noites, a vulnerabilidade se tornou trauma: ele recebeu uma bebida que o mergulhou em um estado de confusão mental e entorpecimento absoluto. Björn sentia que sua mente flutuava para longe enquanto seu corpo era tocado e manipulado por estranhos.

Naquele mundo de adultos influentes, onde sua imagem já havia sido transformada em símbolo e mercadoria, a possibilidade de dizer “não” parecia não existir. Decidiram por ele quem ele era, o que representava e a quem pertencia. E o preço dessa decisão foi pago em silêncio.

O adolescente passou a despertar fascínio em diferentes países, tornando-se alvo de curiosidade, desejo e expectativa. Mas, por trás do encantamento coletivo, existia uma engrenagem impiedosa: dias intermináveis de filmagens, agendas lotadas de programas de TV, entrevistas repetitivas, sessões de fotos e uma exposição constante que não lhe permitia pausa, nem o direito de simplesmente viver a própria juventude.

Para dar conta desse ritmo, recorriam às chamadas “pílulas laranja”, estimulantes que o mantinham desperto, produtivo e impecável diante das câmeras. Por fora, o sorriso permanecia; por dentro, o desgaste avançava. O corpo respondia à química, mas a mente acumulava exaustão. A imagem seguia perfeita, sustentada artificialmente, enquanto sua estabilidade emocional se fragilizava em silêncio.

ADULTO E INFELIZ PARA SEMPRE

Já adulto Björn tentou desesperadamente reconstruir os cacos de sua identidade. Casou-se com a poeta Suzanna Roman e teve dois filhos, buscando na paternidade a família que nunca teve. Porém, a tragédia o perseguiu implacavelmente. Em 1986, seu filho bebê, Elvin, morreu de morte súbita enquanto Björn estava em estado de embriaguez, uma fuga que ele usava para esquecer o passado.

A culpa o esmagou, ele mergulhou em uma depressão profunda e no alcoolismo, sentindo que tinha falhado como pai da mesma forma que o mundo tinha falhado com ele. O casamento acabou, e ele passou anos vivendo em condições precárias, em um apartamento cercado por fantasmas do passado.

O “GAROTO” HOJE

Em 2021, foi lançado o documentário “O Garoto Mais Bonito do Mundo”, que teve estreia no Festival de Sundance, EUA. Já idoso, Björn Andrésen aparece diante das câmeras revisitando os episódios que marcaram sua juventude, com voz por vezes cansada.

No documentário, ele afirma que o título de “o garoto mais bonito do mundo” nunca foi um elogio para ele, mas um fardo que o aprisionou.

Björn Andrésen faleceu em outubro de 2025, aos 70 anos. Ele viveu seus últimos anos com cabelos longos e barba grisalha, tentando desesperadamente destruir a imagem do “menino bonito” para que pudesse, finalmente, ser visto como o homem que sobreviveu à própria perfeição.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador com foco em literatura, cinema, música, rádio/TV e redes sociais. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo do litoral Sul de SC.

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