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Misoginia

O homem-avestruz

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e foto

Na fauna do macho, o homem-avestruz acorda para mais um dia.

Sacode o rabo de penacho, alonga as pernas e finalmente tira a cabeça para fora da areia onde vive enterrada.

O macho-alfa não quer ver o que se passa.

Para ele “o que eu acho e determino” basta.

O homem-bosta.

Pasta.

MISOGINIA É CONSTRUÇÃO SOCIAL

Escrevo aqui uma crônica e não um ensaio acadêmico. Mas se faz necessário algumas referências históricas.

Misoginia não é natural nem espontâneo.

É construção social e, de certa forma, TODOS nós seres planetários temos alguma participação nesta aberração.

Chocados?

Calma; vamos refletir juntos:

A misoginia é ódio contra as mulheres e a raiz de uma sociedade em que homens são valorizados e mulheres são humilhadas, e desvalorizadas.

Os resultados milenares são terríveis:

-feminicídios/assassinatos de mulheres,

-escárnio,

-violência física e simbólica,

-objetificação, entre outros crimes.

O psicólogo Contardo Caligaris, em suas análises, descreve a misoginia como “ódio estrutural construído ao longo de milênios, enraizado na cultura e não natural. O rancor/ódio às mulheres reflete o medo masculino do próprio desejo e da fragilidade, com o feminino sendo historicamente demonizado e responsabilizado pelas frustrações masculinas”.

Percebem?

É a imposição do mito judaico-cristão de Eva; sim, “aquela que conversa e domar a serpente e pela víbora é domada. O primeiro pecado, queda fundamental”.

A civilização foi construída há cerca de 3 mil anos sobre o ódio masculino (de homens e por incrível que pareça, também de algumas mulheres-avestruz!).

Violência e Honra.

Para o criminoso misógino (bilhões que acordam todas as manhãs e vão para o trabalho, caminham pelas ruas e fingem conviver em família e sociedade), a violência, agressões físicas e mentais e assassinatos contra as mulheres são frequentemente justificados pela manutenção de um ego masculino e uma honra ferida, disfarçando a misoginia como reação a traição ou desentendimentos.

Pronto, o caldeirão da sopa misógina criminosa do homem-avestruz está “no ponto exato”; e é servida todos os minutos transformando as mulheres em coisas, em avestruzes, baratas, lacraias que precisam e MERECEM serem pisadas, exterminadas.

DONA DE SEU CORPO, DA MENTE E DOS DESEJOS

Educação/conhecimento, independência profissional e financeira é a base de todas as outras independências femininas.

Ela garante escolha, voz e saída segura.

Homem que teme mulher independente não quer parceria.

Quer alguém menor para se sentir maior.

A misoginia é o resultado de séculos e séculos de uma construção social injusta, podre, canalha e criminosa: a base da falta de caráter do homem-avestruz.

O homem-avestruz termina o expediente de mais um dia sem sentido no grande escritório ou mesmo no Bar do Mané, na subida do morro. Ele volta para a casa (os que ainda a tem e a algum núcleo parecido com aquilo a que entendemos como família) e grita:

“Querida: cheguei. Te lava bem que hoje eu vou te usar”.

A noite termina com gritos, baforadas, chutes e tapas na puta da cara. E os filhos pequenos chorando apavorados correndo para a casa dos vizinhos. Tudo “normal” e sem Boletim de Ocorrência (BO), afinal, TODAS estão pagando pela “queda inicial” da tal da Eva.

E La nave vá…

SQN… *(Só que não)

………………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e vive na Guarda do Embaú, vilazinha de pescadores no litoral de SC.

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