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O Lado B da Literatura

O homem que disse não a Machado de Assis e reinventou o passado

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Divulgação

O retratado de hoje em O Lado B da Literatura é o historiador João Capistrano Honório de Abreu. Para dar conta desse cearense invocado, eu, Eduardo Cesario-Martínez, tomei emprestada a pena do meu amigo e parceiro de editoria no Café Literário, o escritor Daniel Marchi. Nascido em Maranguape (terra do mestre Chico Anysio) em 1853, Capistrano foi o historiador autodidata que redesenhou nossa memória coletiva. Ele faleceu no Rio de Janeiro em 1927, mas deixou como legado uma revolução: trocou a história política tradicional de Varnhagen pela investigação rigorosa das fontes e pela “história íntima” da nossa sociedade.

Nascido naquele chão quente de Maranguape em 23 de outubro de 1853, o menino João parecia carregar o destino dos que não se acomodam. Teve uma infância de passagens rápidas por várias escolas, o tipo de estudante que aprende mais olhando pela janela do que fixo no quadro-negro. Em 1869, com a mala cheia de sonhos e quase nenhum dinheiro, viajou para o Recife para cursar Humanidades. Ensaiou entrar na faculdade de Direito, mas o destino — esse editor soberano das nossas biografias — fez o rapaz reprovar nos exames jurídicos, empurrando-o definitivamente para os braços da História.

De volta ao Ceará, Capistrano não era homem de ficar estanque vendo o tempo passar na calçada. Em Fortaleza, juntou-se a uma mocidade que adorava uma polêmica e fundou a Academia Francesa. Esqueça as formalidades acadêmicas que conhecemos hoje: aquele órgão de cultura e debates, que funcionou entre 1872 e 1875, era declaradamente progressista e anticlerical. O jovem historiador, que não tinha nascido com cadeado nos lábios, usava o espaço para questionar as verdades oficiais e chocar os bem-pensantes da província.

Mas o Brasil da época insistia em ter o Rio de Janeiro como o seu centro de gravidade intelectual. Em 1875, Capistrano arrumou os baús de livros e mudou-se para a corte, fixando residência em um sobrado no bairro de Botafogo. Por essas ironias póstumas que dão um sabor especial à vida, a rua onde ele morou hoje ostenta o seu próprio nome nas placas de identificação. Para garantir o feijão com arroz e os maços de cigarro, o cearense empregou-se na tradicional Editora Garnier, respirando o cheiro de tinta fresca das novidades literárias.

A grande virada de mestre aconteceu quando o erudito Ramiz Galvão geria a Biblioteca Nacional. Capistrano prestou concurso público, carimbou sua aprovação e, em 1879, foi nomeado oficial da instituição. Para um pesquisador obsessivo, ter a chave daquela imensidão de papéis velhos era o equivalente a dar o mapa da mina de ouro a um garimpeiro. Ali, debruçado sobre pergaminhos e relatórios mofados, ele começou a praticar uma rigorosa investigação das fontes que mudaria o rumo da nossa historiografia.

O homem era genial, mas também tinha suas teimosias teóricas

O homem era genial, mas também tinha suas teimosias teóricas. Ao se dedicar ao estudo do Brasil colonial, elaborou uma teoria da literatura nacional baseada na tríade do clima, da terra e da raça. Embora suas ideias reproduzissem alguns clichês do colonialismo europeu sobre os trópicos, Capistrano teve a audácia de inverter o mito pré-romântico do “bom selvagem”. Ele argumentava, com a precisão de quem conhece o relevo, que a nossa geografia litorânea e acidentada funcionou como uma barreira que dificultou o avanço inicial do povoamento rumo ao interior.

Como o conhecimento pede passagem, Capistrano resolveu disputar uma vaga de professor no renomado Colégio Pedro II. Inscreveu-se no concurso público defendendo uma tese de impacto: O descobrimento do Brasil e o seu desenvolvimento no século XVI. Foi aprovado com louvor e passou a lecionar Corografia e História do Brasil. Poliglota autodidata, o mestre lia fluentemente em francês e alemão, trazendo para as salas de aula cariocas uma erudição que assustava e encantava os alunos.

Antes de Capistrano entrar em cena, os estudos históricos do país eram dominados pela sombra monumental de Francisco Adolfo de Varnhagen. Enquanto a geração anterior focava quase exclusivamente na formação do Estado, nas grandes batalhas e nas figuras políticas ligadas à Independência, o cearense propôs um contraponto radical. Ele mudou a problemática do jogo: interessava-lhe investigar a “história íntima” da sociedade brasileira, sua formação étnica, seus costumes cotidianos e os distintos núcleos regionais.

Sua produção foi vasta e certeira, tocando também nos campos da etnografia e da linguística. Deixou marcas na crítica com estudos sobre Raimundo da Rocha Lima e José de Alencar em 1878, além de publicar A Língua dos Bacaeris em 1897. Mas a sua grande obra-prima veio a lume em 1907: os Capítulos de História Colonial, livro considerado a semente interpretativa para todos os grandes intelectuais que vieram depois. Escrevia pouco para o grande público, mas cada linha sua tinha o peso de uma bigorna.

E agora é que vem a grande sacada sobre a personalidade desse autêntico bicho do mato das letras. Sabendo do seu gigantismo, o bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, estendeu-lhe o convite para ingressar na Academia Brasileira de Letras. Qualquer mortal teria aceitado de joelhos, com o ego inflado. Capistrano de Abreu, demonstrando uma independência quase ranzinza, recusou o convite e nunca tomou posse na ilustre casa. Preferia o silêncio do seu sobrado ao fardão dourado da vaidade humana.

A morte o alcançou no Rio de Janeiro, aos 73 anos, em 13 de agosto de 1927. Mas o fim biográfico foi apenas o começo de sua jornada póstuma nas livrarias. Seus arquivos e gavetas continuaram alimentando o mercado editorial por décadas, rendendo publicações fundamentais como Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil em 1930 e ricas coletâneas de suas correspondências. Capistrano continuava falando com o país mesmo depois de ter descido à sepultura.

Os Correios emitiram selos comemorativos no centenário de Capistrano em 1953

O reconhecimento ao mestre atravessou gerações e se espalhou pelo território nacional em forma de reverência. Ele foi escolhido como patrono da cadeira número 15 da Academia Cearense de Letras e da cadeira número 23 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, unindo a erudição clássica ao gênio popular. Os Correios também fizeram sua parte para carimbar sua memória na nossa rotina: emitiram selos comemorativos no seu centenário, em 1953, e nos seus 150 anos de nascimento, em 2003.

Se você andar pelo Brasil de hoje, fatalmente esbarrará em uma homenagem ao velho historiador. Há ruas e praças com seu nome em Fortaleza, uma escola em sua terra natal de Maranguape e outra na imensidão cinzenta de São Paulo. A maior de todas as honrarias geográficas, contudo, ficou registrada no próprio mapa do Ceará, onde uma cidade inteira foi batizada simplesmente como Capistrano, eternizando o cidadão que soube ler o país nas entrelinhas.

Recentemente, a própria Academia Brasileira de Letras dedicou conferências ao seu legado, sob a coordenação de intelectuais como Arno Wehling. Os especialistas apontam que o pensamento de Capistrano teve duas fases nítidas: uma inicial, cientificista e influenciada pelo positivismo do século XIX, e outra posterior, historicista e hermenêutica, onde ele transcendeu o determinismo e adotou uma visão muito mais crítica e interpretativa da nossa formação social.

No fundo, penso que Capistrano de Abreu tinha a alma parecida com a daqueles escritores que dão as mãos às humanidades e um adeus às fomalidades. Era um sujeito que preferia observar o mundo de viés, prestando atenção na vida comum que acontecia longe dos palácios governamentais. Ele transformou a história do Brasil em uma grande narrativa de costumes. E eu, na minha insônia habitual, fico pensando que ler Capistrano é o melhor remédio para entender por que este país teima em andar de lado.

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Daniel Marchi estará de volta ao comando de O Lado B da Literatura na semana que vem. Não percam!

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