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O anel da traição

O homem que enganou a esposa e a amante

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

A matriz da empresa em que Saulo trabalhava ficava em São Paulo. Ele, engenheiro sênior da filial do Rio de Janeiro, fora encarregado de ministrar um pequeno curso telepresencial aos novos contratados na matriz. Sua base, no Rio, providenciara tudo o que era necessário para que o evento ocorresse.

No dia designado, palestrou online para seis profissionais, bem mais jovens que ele, entre os quais ficou fascinado por Mônica.

Quase fraquejou ao mandar seu recado por conta da visão daquele rosto encantador, dos cabelos cacheados, meio louros, em leve desalinho, do queixo delicado, do nariz perfeito, do olho esquerdo ligeiramente estrábico. Mas era, para ele, a síntese de toda perfeição.

E que voz ela tinha!

O sotaque paulista, que nos outros ele detestava, dava-lhe um charme especial. Pode ser até que outros não notassem na moça a mesma beleza, mas, para Saulo, ela era óbvia, absoluta, total, surpreendente.

Ao fim do curso, fizeram um grupo no WhatsApp. O time paulista viria à Cidade Maravilhosa dali a algumas semanas para conhecer as atividades da empresa na capital fluminense, voltadas a operações industriais, diferentemente da matriz paulista, dedicada a projetos de base.

Do grupo no celular para o desenvolvimento de uma conversa a dois entre Mônica e Saulo foi um pulo, embora ele ainda tivesse dúvidas sobre se o interesse era correspondido.

Havia uma possibilidade.

Fazia tempo que Saulo não era tratado por uma mulher com tanta atenção e carinho, ainda que isso ocorresse virtualmente. A conversa entre os dois se intensificava e, em poucos dias, ele sentia como se fossem velhos conhecidos, confidentes, amigos…

Os papos, até altas horas, oscilavam entre experiências pessoais e gostos por música e literatura. Comidas, viagens e sonhos.

Saulo não conseguia mais esconder de si mesmo: estava perdidamente apaixonado por uma moça quinze anos mais jovem que jamais vira pessoalmente.

Mônica era seu pensamento mais frequente, se não o único, desde a hora em que acordava até quando se deitava.

E ainda sonhava com ela.

O casamento de Saulo balançava havia muitos meses. Sua mulher, Natália, tornara-se indiferente a ele por vários motivos, razões e mágoas jamais conversadas e nunca resolvidas. Moravam ainda sob o mesmo teto, tinham filhos em idade escolar, mas não formavam mais um casal. A comunicação entre ambos restringia-se ao essencial na gestão de uma família.

No entanto, repugnava-lhe a ideia de ser infiel a Natália. Afinal, tinha por ela carinho e respeito por tudo o que haviam passado juntos na vida.

Mas a força do que sentia por Mônica parecia fatal. Impelia-o para longe do lar, para longe dos votos que um dia fizera no altar.

Não teve coragem de dizer a Mônica que era casado, nem que tinha filhos.

Sentia-se anos mais jovem. Sorria pensando nela e nas possibilidades que se descortinavam em sua vida.

Até que chegou o tão esperado dia de encontrar a moça.

Ele se lembrou de tirar a aliança. Mas ficara uma marca forte no dedo anelar esquerdo. Foi a uma loja de bijuterias finas próxima do trabalho e comprou um anel com São Jorge estampado. No momento do encontro, colocaria o anel do santo no dedo, cobrindo o lugar da outra aliança, dourada e benta, que denunciava sua condição.

Passou o dia com o time de engenheiros de São Paulo e mais alguns diretores da empresa, tanto da matriz quanto da filial, sendo o mais profissional possível. Ao longo do expediente, porém, já entendera que era correspondido e trocara mensagens com Mônica de interesse mútuo cada vez mais escancarado:

— Doido para isso aqui acabar e ter você só pra mim.

— Eu também não vejo a hora. Vamos fazer algo mais tarde?

Ao fim do expediente, ambos recusaram participar de um jantar em um belo restaurante da orla da Barra da Tijuca e ficaram juntos.

Amaram-se intensamente e despediram-se na manhã seguinte, antes que Mônica fosse para o aeroporto pegar o avião de volta para São Paulo.

Saulo foi para casa pensando na desculpa que daria por ter passado a noite fora, com o celular desligado. Talvez aquilo tivesse desesperado sua mulher e seus filhos.

Para sua surpresa, Natália não esboçou qualquer reação ao vê-lo entrar pela porta da cozinha do apartamento antes das sete horas da manhã.

O clima, que já era pesado, tornou-se ainda mais frio.

Natália não era tola. Saulo dera sinais suficientes.

Não houve necessidade de grandes explicações. Apenas estabeleceram que precisavam conversar seriamente. E assim fizeram, ainda naquela semana, quando decidiram pelo divórcio consensual após vinte e dois anos juntos.

Naquele mesmo fim de semana, Saulo pegou uma ponte aérea e foi atrás de Mônica em São Paulo, sem sequer saber ainda o endereço dela.

Ao chegar, telefonou.

Encontraram-se em um shopping próximo ao aeroporto, onde jantaram. Depois, foram para o apartamento dela e, mais uma vez, se amaram.

Durante todo o tempo, Saulo ensaiava mentalmente a maneira de explicar sua situação: era um homem casado, mas prestes a se divorciar. Queria propor a Mônica que ficassem juntos tão logo tudo estivesse resolvido.

A certa altura, ela o surpreendeu:

— Por que você não está sendo totalmente sincero comigo?

Antes que balbuciasse uma resposta, Saulo percebeu.

Passara o tempo todo com a aliança devidamente instalada no dedo anelar esquerdo. A mesma pela qual havia substituído o anel de São Jorge, agora guardado no porta-luvas do carro, assim que se despedira de Mônica na saída do motel, poucos dias antes, no Rio.

Muito envergonhado, abriu o jogo com sua jovem enamorada.

Mônica recusou terminantemente a proposta de ficarem juntos. Disse que não se sentia preparada para uma relação de longo prazo e que sequer gostaria que Saulo continuasse a ir vê-la em São Paulo.

Saulo perdeu Mônica.

E divorciou-se de Natália sem conservar o respeito ou a amizade de nenhuma das duas.

O anel de São Jorge jaz hoje nas profundezas lodosas de um rio.

Saulo o lançou do alto de uma ponte, na estrada, no dia em que saiu do Rio de Janeiro de carro para passear sem destino, tentando amenizar o remorso e a tristeza por ter feito o péssimo papel de homem que conseguiu enganar, de uma só vez, a esposa e a amante.

 

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava. Autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi.

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