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Chuva artificial

O homem que não sabia nadar

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Chove chuva / Chove sem parar…”
(CHOVE CHUVA, de Jorge Benjor, artista brasileiro)

1.
Saiu de casa por falta d´água. Jamais voltou após o temporal. Apesar de acreditar em meteorologia, o homem não pegou nem o guarda-chuva e nem as botas de plástico. Também não lembrou que não sabia nadar. Morreu afogado no bueiro da esquina.

2.
Valia tudo: esportes, variedades, economia, horóscopo, quadrinhos, coluna social e até política. Tudo!…tudo menos as notícias sobre enchentes, vendavais e maremotos. Mas, porque o homem não estava de guarda-chuva? Nem mesmo uma capa, uma boia talvez? É inadmissível a insanidade de sair de casa em meio a um dilúvio sem nenhuma proteção. A vida não respeita desleixos. “O anjo da morte está com a espada sempre pronta para a justiça dos céus”, lera em um almanaque pego na farmácia do Mendes. Tudo ou nada, não o mais ou o menos. Naquela época, o homem tinha verdadeira compulsão por notícias nas redes sociais. Mas como esquecer aquelas perguntas:

“E se não estourara nenhuma adutora”?… “E se não rompera nenhum tubo de interligação com esse lado esquecido da cidade?… “E se não houvera nenhum anúncio -mesmo que fake- explodindo no celular/palma da mão?… “E se não bastara a solidão de estar ilhado na própria casa por anos e anos naquela espera hipnótica?”

Compulsão por notícias nas redes sociais e fissura pelo inseparável celular smartphone sempre nas mãos ou dependurado no pescoço.

3.
– Podes sair, imprestável! Afinal, chegou o dia de enfrentares a rua. – gritaria a mulher, após vinte e um anos de casados no civil e no religioso.

– Só tenho pai pra isso mesmo! Pra ficar trancado no quartinho de cima com o celular na mão fissurado em notícia e besteiras na internet…cara porco…nem banho toma há meses…abre aí pai!-, gritaria o filho único, após vinte e um minutos de fortes pancadas na porta intransponível do sótão. O homem pendurou o celular no pescoço e levantou do vaso sanitário decidido. Era o sinal decisivo.

4.
Encontrou o molho de chaves e, trêmulo, escolheu aquela que me levaria ao imponderável. Naquela época, como já informei, ele tinha verdadeira compulsão por notícias na internet, mas também horror por histórias de náufragos, ilhados e afogados. Apesar de tudo, a compulsão por histórias e desejo de aprender a nadar o lançariam rumo ao mergulho final. Abriu a porta e encarou a rua e o vendaval.

5.
No final do dia encontraram o o corpo do homem com o celular pendurado no pescoço. Abriram e a mensagem ainda estava lá em seu WhatsApp:

“Minha eterna gratidão àquele bombeiro que retirou meu corpo das águas libertadoras, pois ele será um cúmplice fiel de meu banho final há vinte e um anos interrompido”.

Como já é de conhecimento geral, naquela época, o homem que não sabia nadar tinha verdadeira compulsão por notícias nas redes sociais. Na manhã seguinte, emplacaria em todas as mídias virtuais com a fake news recordista de likes na www. Hoje, já não tem compulsões por quase nada.

……………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e cobriu as enchentes de Blumenau/Vale do Itajaí SC em 1983/84; e sobreviveu. Vive na Guarda do Embaú, vilazinha de pescadores no litoral de SC.

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