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O dono do prédio

O homem sem reflexo

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Laerte, tipo de idade incerta, provavelmente ronda os 70, apesar de haver quem jurasse que o homem tinha chegado há pouco aos 60. O problema, diziam, era a carcaça, deveras gasta por atritos desnecessários.

— Aquele ali pensa que é o dono do prédio.

— E não é? Ontem mesmo estava mandando e desmandando, como se alguém ligasse. Pois sim!

— Pois não é que tem gente que ainda dá bola?

— Não acredito, dona Ludmila.

— Pois acredite, Pedro. Mas sabe o que é pior?

— O quê?

— Parece que o sujeito é metido com coisa errada.

— Sério?

— Não estou te falando?

— É ladrão?

— Não. Pior.

— Assassino?

— Não. Pior.

— Pior?

— Ih! Muito pior!

— E o que é?

— Chatice, meu jovem. Chatice! O Laerte nasceu com a chatice entranhada na alma. Ninguém aguenta. De tão chato, o metido não tem reflexo.

— Como é que é?

— Tá vendo esse espelho?

— Hum.

— Pois preste atenção quando ele passar aqui na portaria. É estranho, eu sei, mas é o que é. Não há espelho que resista. O homem não tem reflexo.

Mal essas últimas palavras escapuliram, eis que surgiu o Laerte vindo da rua. A carranca costumeira, bufando de raiva por ninharia. O Rabugento se dirigiu ao Jorge, o porteiro que estava separando a correspondência dos moradores.

— Jorge, o que tu tá fazendo? Largue isso e veja lá o que fizeram na calçada.

O funcionário nem titubeou, tratou de se inteirar do que estaria acontecendo. Cinco minutos depois, retornou.

— Seu Laerte, é o pessoal da companhia de esgoto. Parece que tem vazamento na rua.

— Ai, ai, ai, ai, ai! Só me faltava essa pra resolver. Tudo eu! Nem sei por que te contrataram, Jorge. Tu não consegue resolver nada.

Laerte, em seguida, virou as costas, pegou o elevador e foi repousar para se abastecer de mais mau humor. Assim que se viram livres do ranzinza, dona Ludmila, Pedro e Jorge se entreolharam.

— Não te falei, Pedro?

— É, dona Ludmila, o homem é chato pra caramba.

— Não estou falando disso. Prestou atenção no espelho?

— Ih, me esqueci.

— Pois eu vi. Melhor, meu filho, não vi. Não há espelho que resista àquele chatonildo agudo.

Pedro, incrédulo, arregalou os olhos. Jorge, que parecia saber das coisas, apenas sorriu.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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