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TEMPO MORTO

O INFERNO É UM CÔMODO QUE TE SEGUE

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filipino

Passei mais de quatro anos da minha vida naquele apartamento. Detestava a vizinhança, que pouco via, e desejava sair dali o mais rápido possível, mas o dinheiro nunca dava. Eram dois lances de escada e, ao abrir a porta do hall comum, vinha, de algum lugar, um cheiro indescritível que eu não suportava. Era horrível, parecia enviado de algum tempo passado para me advertir da fugacidade da vida e de seus dramas. A luz amarela, que iluminava a passagem, me fazia doer os olhos quando eu chegava dos plantões noturnos. Subia rápido as escadas, abria a porta que dava para a minúscula sala em forma de “L” e, em vez de encontrar conforto, lembrava de tudo o que me dava asco. Não podia abrir a janela, pois ela esbarrava no galho da árvore defronte ao prédio, e pelos galhos subiam ratos que, mais de uma vez, surpreendi tentando invadir onde eu habitava. E as baratas, ai as baratas, que vinham voando, desorientadas, sala adentro, essas criaturas do diabo.

O banheiro minúsculo, com azulejos cafonas e o chuveiro sem pressão, aumentava o meu suplício. Por mais que eu o limpasse, era estranho: eu o sentia sempre sujo, tão sujo quanto o de um botequim qualquer. A pia velha, de louça azul com microfissuras, presa à parede por mãos-francesas frouxas, e a maldita cortina de plástico, tão leve, pendurada num bastão, que, ao menor vento, mexia-se e grudava no meu corpo molhado enquanto eu me banhava. A cozinha, com seus ridículos armários de fórmica, completava o cenário tétrico dos meus dias. Sem falar no quarto que, com umidade na parede que dava para a rua, coroava o ridículo em que eu me enfurnara, roubando, às vezes, qualquer esperança, por menor que fosse, de mudar de ares.

Vinha da rua a incômoda sonoridade dos ônibus, das ambulâncias do hospital na esquina, dos bêbados do botequim próximo e a fumaça constante da dark kitchen colada à parede do edifício. Nem sei como suportei tanto tempo. Em verdade, sei sim: o dinheiro, sempre ele. Eu precisava reunir algum para a mudança, para pagar as cotas de condomínio vencidas, resultado daquele tempo de aperto que passei logo após a separação. E, trabalhando do jeito que eu trabalhava, era complicado arrumar tempo para achar outro apartamento, providenciar os documentos necessários para o contrato de locação e fazer a mudança. Na hora do aperto, quem eu encontrava para me ajudar? Havia amigos para a farra, amigos para as viagens, amigos para as fofocas. Mas para carregar peso, todos fugiam.

Passei a pegar todos os plantões que podia, e trabalhar o que coubesse nas vinte e quatro horas do dia. Não suportava a ideia de voltar para aquela pocilga. A síndica, uma mulher horrenda, viera me cobrar as cotas de condomínio em atraso. Aproveitou que eu passava pelo hall para pôr o lixo para fora e me interpelou. Mal pude entender o que ela dizia. Olhava apenas aqueles olhos cruéis, o cabelo sujo em desalinho, as unhas ridiculamente pintadas de uma cor indizível, aquele hálito horrível… Nem lembro o que respondi, apenas passei o recado de que não estava para conversa encurtando aquela intromissão impertinente no meu cotidiano e fechando a porta do apartamento com toda a força, para que fizesse um estrondo. E a força foi tão grande, que arrancou um pedacinho de reboco sobre o portal. Podridão.

Ao cabo de um longo período, em que me questionei como homem e como profissional reconhecido na minha área, já cansado de fazer contas que nunca fechavam, resolvi que eu me mudaria a qualquer custo, pois ficar naquele apartamento seria a morte. E não adiantava só mudar de apartamento. Queria mudar, também, de vizinhança, de rua, de bairro… Só não conseguiria mudar de cidade. Pesquisei dias seguidos, em todo tempo que me sobrava, e achei uma casa para alugar que era um sonho. Fui conhecê-la numa tarde amuada, que poderia representar minha libertação daquele pesadelo atroz. Ficava num bairro diferente, não contíguo ao em que estava morando, numa rua residencial, tranquila, perto de uma praça linda. A casa era térrea, com uma grande varanda na frente, no centro do terreno. Em frente, havia um jardim com alguns canteiros de alvenaria traçando linhas sinuosas, um pequeno banco de pedra, tudo calçado por um piso antigo, de cerâmica vermelha. Havia garagem do lado direito, onde bem cabiam uns três carros. Entrando-se pela sala, de pé-direito alto, teto guarnecido de rica sanca de gesso, acessava-se uma outra, um pouco menor, onde bem poderia fazer uma bela biblioteca. Dali partia um corredor que levava a três amplos dormitórios, todos arejados e iluminados. Banheiro havia três, modernos, bonitos, e eu ficara feliz em ver que todos eram guarnecidos de box revestido de vidro. Nada mais daquela infame cortininha de plástico.

Ao fundo, uma cozinha imensa, clara, onde certamente daria gosto cozinhar algo num dia de folga, talvez rodeado de amigos. Até pensei em chamar gente da família para a inauguração. Meus pais, minha tia Zelina, o Teuto e o Bodão, meus primos. Meus filhos certamente não poderiam ir. Estavam sendo convencidos pela mãe deles que eu era um péssimo pai, um mau exemplo, que estava devendo dinheiro de pensão alimentícia. Era mentira, Carla procurava fazer alienação parental – conhecia a expressão desde que, alguns dias antes, consultara um advogado no centro da cidade. O advogado não me inspirou tanta confiança, era impaciente no explicar, não me olhava nos olhos, mas havia um lindo relógio de pêndulo no escritório. Ele bem ficaria bonito na sala de minha casa nova, ecoando seu ruído hipnótico pelos cômodos, amplificando o ritmo certo de seu trabalho pela escuridão da noite.

Sem pensar muito, disse ao corretor que queria alugar aquela casa, e que não me importava a garantia. Depósito-caução? Claro! Fiador? Arrumava-se. Seguro-fiança? Não tem problema, vamos em frente. Havia, afinal, me preparado para aquilo durante todo o tempo em que estivera no inferno do pequeno apartamento e seus cheiros medíocres.

Arrumei, com meus contatos, um atestado médico de uma semana para poder cuidar da mudança. E como deu trabalho. Não imaginava que poucos anos num apartamento minúsculo rendesse tanta coisa para empacotar. Ao fim, resolvi levar o essencial, e joguei fora praticamente todos os móveis que usara naquele período, mais um tanto de roupas, livros e outros objetos. Iria começar vida nova, precisava de coisas novas, ambiente novo, energia nova… Agora havia dinheiro. Dei-me ao luxo de comprar geladeira, fogão, mesa, um sofá magnífico, uma TV enorme, uma cama exageradamente grande, dentre várias outras coisas. A cereja do bolo foi o relógio. Garimpei num antiquário da cidade, e paguei uma pequena fortuna, por um relógio de pêndulo dourado igualzinho àquele que vi no escritório do advogado. Pendurei-o bem no centro da parede da sala. E obtive mais um atestado médico de sete dias para esperar aquilo tudo ser entregue e montado.

Afinal, estava instalado no novo endereço. Percebi que, de manhã, o som remoto de crianças indo para a escola chegava ao meu quarto. Era nada em comparação com as ambulâncias e os bêbados no último endereço. De noite, ouvia o barulho do trem que passava a algumas quadras dali. O tique-taque do relógio antigo, que ainda tocava as meias horas e as horas cheias, preenchia o cenário com um toque idílico. Começava, ali, a mudança na minha vida. Eu seria feliz, completo, entusiasmado.

Esse idílio, no entanto, durou pouco. Tão pouco que nem entendi direito o processo. Diria que não chegou a durar até o tempo em que pretendia fazer a festa de inauguração da casa nova e chamar meus pais, minha tia Zelina, o Teuto e o Bodão, meus primos.

Em dias, que não foram muitos, pensava nas mil formas de aniquilar as ridículas crianças e a algazarra matinal que aprontavam. A casa começou a dar muito trabalho. Era enorme para um homem solitário como eu. E para quê três banheiros?! O chão da cozinha vivia repleto de pó e sujeira, pois o piso claro amplificava o problema e o tempo era insuficiente para ficar limpando. O jardim se transformaria, certamente, numa selva escura, pois não havia um funcionário de condomínio para cuidar, eu estava ali só.

A casa era tão grande que chegava a dar eco. Uma sensação de frio, de abandono. Não sei bem explicar. O relógio de pêndulo, com o tique-taque amplificado madrugada adentro, começou a me irritar profundamente, e cogitava parar de dar-lhe corda, apesar do pavor que tinha por relógios parados. De dia, nem tanto, mas à noite ele me ofendia os ouvidos em sua cadência indiferente e cruel. Certa vez surpreendi-me parado em frente a ele, como hipnotizado, e comecei a sentir um cheiro estranho. Vinha de algum lugar. Fui até a janela próxima, apurei os sentidos, puxei uma inspiração funda, e não era dali. Circulei, ainda, pela sala, farejando como um cachorro de caça, mas não achei a origem. Lembrava muito o cheiro insuportável do hall do antigo prédio. Aquilo me angustiou.

O cheiro passou a me acompanhar. E não era só ele. Dos três banheiros da casa, escolhi um para usar, pois a limpeza periódica ficaria mais fácil. E, em todos eles, não importava o que fizesse, um odor de botequim fedorento permanecia, resistindo a litros de água sanitária e desinfetante, impregnando até as minhas toalhas.

Numa madrugada, cheguei do plantão e, ao passar pelo relógio, lá estava ele, preciso, enumerando as horas que eram marcadas para ninguém. Com uma atitude impensada, agarrei sua caixa com as duas mãos e forcei-a em direção a mim. O gancho que o sustentava na parede deslocou-se facilmente e o relógio foi ao chão, com um estrondo de vidro quebrado e molas se soltando. Atrás dele, na parede, um ponto de umidade. Esquisito, talvez nenhum cano passasse por ali. Havia uma mancha escura, úmida, com reboco fofo, como ferida. Passei o dedo e ele afundou. Cheirei por instinto e senti, com precisão, o hall do outro prédio, os dois lances de escada, a luz amarela, a dor nos olhos. Podridão.

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Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor-executivo de Notibras, poeta, advogado e professor. Autor dos livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho”.

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