RITO ÍNTIMO
O LENÇOL DA MATERNIDADE SOB A CHUVA
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Bárbara desceu do carro e chegou até a ponta do Mirante, apreciando os últimos raios de Sol que chegavam com dificuldade àquelas alturas. Seu amor desligou o motor, retirou as pás e a muda de árvore do porta-malas e foi sentar-se ao seu lado. Estava quente e havia previsão de chuvas para o anoitecer.
Depois de alguns minutos, Bárbara levantou-se e começou a se despir, abrindo o zíper de seu vestido de pano fino que caiu sobre a grama rasa. Não usava sutiã. Tirou a calcinha e, juntando as duas peças, jogou-as no banco de trás do veículo. Voltou ao ponto em que estava e ficou de pé, maravilhando-se com os pontos de luz, que surgiam lá embaixo, na distância da cidade. Pareciam – pensava ela – pisca-piscas de supérfluas esperanças, pousadas em árvores artificiais nas salas das casas.
Retornou à realidade quando sentiu seus seios sendo enlaçados pelas mãos que chegavam pelas suas costas e pelo corpo, também nu, que se aconchegava ao seu. Ficaram assim por alguns instantes, até sentirem os primeiros pingos. Bárbara tombou a cabeça para trás e disse baixinho:
– Vamos começar?
– Sim, vamos. – respondeu Amélia, com os olhos semicerrados.
A chuva caía com vontade quando as duas, exaustas, terminaram o buraco que tinham se proposto a fazer. O pequeno pinheiro, envolto em plástico, foi colocado junto aos outros quatro já crescidos e enfileirados ao lado da cova. Este era o quinto ano que cumpriam o ritual com a mesma dignidade e dúvidas. A água escorria forte por todo o corpo das duas, servindo para encobrir as lágrimas da emoção.
Enquanto Bárbara liberava as raízes do arbusto, Amélia foi até o porta-malas e retornou com o pequeno corpo envolto no lençol da maternidade. Sem orações, colocaram-no no buraco e cobriram com duas camadas de terra. Depois, vieram com o arbusto e completaram a cobertura. Compactaram com as pás e se deixaram lavar com as mãos erguidas ao céu.
Ainda nuas, entraram no carro para retornarem à cidade, carregando a dúvida se haveria um próximo ano. Como de costume, não olharam para trás. Era Natal.
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Jorge Lenzi é poeta e contista, nascido na cidade de Juiz de Fora – MG. Seu mais recente livro é Serurbano, Ed. Paratexto.