Mistérios da existência
O Livro dos Mortos na Magia Egípcia
Publicado
em
O Livro dos Mortos do Antigo Egito configura-se como uma das mais complexas sínteses religiosas da Antiguidade, envolvida sob o véu da magia e dos mistérios da existência humana. Redigido em hieróglifos sobre painéis, sarcófagos e papiros depositados nas tumbas, o texto reúne fórmulas mágicas, hinos e instruções destinadas a orientar o falecido na travessia do além. Conforme observa o arqueólogo E. A. Wallis Budge, curador do Museu Britânico, trata-se de “uma coleção de encantamentos para garantir ao morto domínio sobre as forças invisíveis”.
Datado de 5.500 anos antes do presente, assim com a Bíblia Sagrada, o Livro dos Mortos não é homogêneo; pois sofreu mudanças e adaptações ao longo do Império Novo (c. 1550–1070 a.C.). Através de gerações, o texto era copiado artesanalmente por milhares de escribas. No livro, a centralidade da magia é inequívoca, visto que cada capítulo (rúbrica) corresponde a um hekau, palavra de poder. No pensamento egípcio, o verbo cria realidade, pois possui força divina; nomear é fazer existir. A magia (heka) não é superstição, mas ciência sagrada de eficácia comprovada.
Entre os episódios mais conhecidos registrados no Livro dos Mortos, encontra-se a psicostasia; ou seja, o julgamento da alma perante Osíris, Deus da vida, da morte e da ressurreição. Na cerimônia fúnebre dos antigos egípcios, o coração (ib), após ser retirado do corpo a ser embalsamado, era pesado na balança contra a pena de Maat, deusa da Verdade e da Ordem. Anúbis, o Deus da Mumificação, conduzia o rito, enquanto Thoth, Deus da Sabedoria e escriba divino, registrava o veredito. Caso o coração fosse mais pesado que a pena, seria devorado por Ammit, selando a aniquilação espiritual. Ammit (Devoradora de Mortos) é uma deidade temida na mitologia egípcia, representada como um híbrido com cabeça de crocodilo, busto de leão e corpo de hipopótamo Essa cena dramatiza uma ética cósmica: viver corretamente é preparar-se para a eternidade. Assim, a salvação não depende apenas de fórmulas mágicas, mas de conformidade com Maat, a justiça divina.
Na vida após a morte o ser humano compõe-se de múltiplos princípios: ka (força vital), ba (individualidade móvel), akh (espírito luminoso). O Livro dos Mortos oferece instruções para recompor essas dimensões no além, assegurando ao falecido a possibilidade de “sair ao dia”, isto é, participar da luz solar com Rá. A morte, portanto, não é fim, mas transição iniciática.
Sob perspectiva mágica, cada fórmula gravada no Livro dos Mortos funciona como amuleto verbal, e a escrita hieroglífica sagrada possui um poder intrínseco e incomensurável. Portanto, o texto descreve o além; sendo simultaneamente guia e talismã.
É relevante notar que o acesso ao Livro dos Mortos restringia-se apenas à elite egípcia, mas progressivamente democratizou-se. Esse processo indica transformação social na compreensão da salvação e a imortalidade deixou de ser privilégio exclusivo do faraó. A eternidade tornou-se horizonte aspiracional mais amplo, incluindo os pobres mortais.
A magia egípcia, longe de oposição à religião, constitui seu núcleo operativo. O sacerdote-mago domina palavras e gestos que mantêm a ordem cósmica. A tumba é microcosmo do universo; os rituais funerários reproduzem a vitória de Osíris sobre a morte. Assim, cada falecido reencena o mito primordial.
A permanência histórica do Livro dos Mortos atesta sua potência simbólica. Ele não é apenas documento arqueológico, mas testemunho de uma civilização que fez da morte objeto de elaboração estética e metafísica. Sua leitura contemporânea revela uma cultura que concebia a justiça como princípio universal e a magia como tecnologia espiritual. Nessa seara, a justiça dos homens, tal qual nós conhecemos, pesa na balança da justiça divina, lançando os corações dos “justiceiros” à voracidade de Maat.
Em síntese, o Livro dos Mortos articula três dimensões inseparáveis: magia eficaz, ética cósmica e esperança de imortalidade. A vida terrena é preparação; o além, realização. A travessia exige conhecimento, pureza e palavra correta. Ademais, o homem egípcio não temia a morte, mas a ignorância das fórmulas necessárias para vencê-la.
A obra constitui verdadeiro tratado iniciático da Antiguidade, prevendo a ressurreição mais de 3000 anos antes de Cristo. Sua cosmologia revela confiança radical na ordem do universo e na possibilidade de continuidade da consciência. A magia egípcia, nesse contexto, é linguagem da eternidade.
…….
Giovanni Seabra
Grão-Mestre do Colégio dos Magos e Sacerdotisas
@giovanniseabra.esoterico
@colegiodosmagosesacerdotisas
………..
O Colégio dos Magos e Sacerdotisas oferece cursos e mentorias sobre a Magia Egípcia, e consultas ao Tarot Egípcio. Contatos pelo whatsapp: 81 9730-2139.