Preço psicológico
O Medo Não É do Casamento. É da Mentira
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Nós dizemos que o casamento assusta, mas quase nunca nomeamos o que realmente causa esse temor. Não é o compromisso. Não é a convivência. Não é o “para sempre” enquanto projeto. O que nos assusta é a dissociação entre discurso e prática viver ao lado de alguém que diz “eu te amo” à noite e desfaz esse amor durante o dia, como se afeto fosse algo compartimentalizado, sem consequência ética.
Nós já aprendemos, na experiência, que a traição não é apenas um ato íntimo. Ela é um rompimento simbólico. É quando a palavra perde valor, quando o beijo vira gesto automático e a casa deixa de ser abrigo para se tornar cenário. Como diria Zygmunt Bauman, vivemos tempos de vínculos líquidos, onde promessas são feitas com facilidade e desfeitas com a mesma leveza, mas o impacto nunca é leve para quem acreditou.
O medo, então, não nasce do casamento em si, mas da memória.
Nós carregamos no corpo a lembrança de ter confiado. De ter dividido rotina, sonhos, horários, silêncios. E de descobrir que a intimidade pode coexistir com a mentira. Hannah Arendt nos ajuda a entender que a banalidade do mal não está apenas nos grandes crimes, mas também nos gestos cotidianos que naturalizam a quebra da responsabilidade com o outro.
Nós não temos medo de amar. Temos medo de amar sozinhas dentro de uma relação.
Há algo profundamente violento em perceber que o “eu te amo” não era um pacto, mas um hábito; não era escolha, mas conveniência. Simone de Beauvoir já apontava que muitas estruturas afetivas foram construídas para garantir estabilidade social, não necessariamente verdade emocional. E quando essa verdade cai, somos nós que pagamos o preço psicológico.
Por isso, quando dizemos que casamento assusta, estamos dizendo outra coisa: assusta repetir o erro, assusta não perceber os sinais, assusta duvidar de nós mesmas outra vez. Assusta investir tempo, cuidado e projeto em alguém que vive uma moral dupla, uma para o lar, outra para o mundo.
Mas há algo que precisamos lembrar, juntas: o problema nunca foi a nossa capacidade de amar ou confiar. O problema foi a escolha de quem não soube sustentar aquilo que prometeu. Não foi ingenuidade; foi entrega. E entrega não é defeito, é risco.
Se esse medo existe hoje, ele não é fraqueza. É aprendizado.
Nós não estamos fechadas para o amor; estamos mais exigentes com a verdade. E isso não nos endurece, nos torna mais lúcidas.
Que esse texto sirva para quem carrega o mesmo receio: não precisamos correr para provar maturidade emocional aceitando qualquer coisa.
O amor que vale a pena não exige que desconfiemos todos os dias.
Nós seguimos acreditando, mas agora, acreditamos também em nós.