Curta nossa página


Via de mão única

O melhor tempo é aquele que nos reserva as boas histórias para contar

Publicado

Autor/Imagem:
Sonja Tavares - Foto de Arquivo/ABr

Sou de um tempo em que o tempo não perdoava a perda de tempo. Com o passar dos anos, descobri que o tempo realmente é uma via de mão única. A gente não pode recuperá-lo, mas pode gastá-lo com o que importa. Hoje eu não tenho mais pressa. Por outro lado, não perco um minuto do meu precioso tempo. Como ele passa rápido, me cabe viver intensamente. É o que faço diariamente. Como sei que o tempo não tem replay e nem se auto rebobina, aproveito cada momento para contar histórias sobre ele. Coisas boas se vão para que outras melhores possam vir.

Tive certeza disso no dia em que joguei a caixa fora com medo de pensar fora dela. Fiz isso com a certeza de que meus dias melhores já chegaram. Por exemplo, os heróis que não morreram de overdose, mantêm a ojeriza a mitos, continuam voando, mas, graças ao avanço da tecnologia, deixaram de usar a cueca sobre a roupa. A pedido de Chico Buarque, vivia atrás da Geni sem qualquer preocupação com a banda que passava. Sequer tinha tempo de pensar no futuro. Tinha pouco, mas eram tantas as emoções que sempre me imaginei com tudo.

Nos embargos auriculares com meus botões, pergunto como consegui sobreviver sem terapia de grupo, sem remédio controlado e sem McDonald’s. Como? Sinceramente, prefiro não saber. Melhor lembrar que meu pão com ovo da merenda escolar era embrulhado em papel de pão. Hoje, a variedade de lanche tem de ir em marmita térmica com gelinho. Se não for, o menino não come. Meu pão era cortado com a mesma faca usada para passar a manteiga, picar os ovos e, mais tarde, descascar as batatas, as cebolas e cortar o frango.

Apesar disso, nunca fui interpelada por uma bactéria e jamais tive uma intoxicação alimentar. Antes do kichute, o tênis do tipo conga do dia a dia escolar era o mesmo utilizado nas aulas de educação física. O amortecedor era somente uma peça automotiva. Caía, me levantava e tudo virava história. Não tinha carro, lambreta, mas me contentava em abrir a porta da Romi Isetta do vizinho, cuja mulher bastava espirrar dentro do vestido e estava consolidada a perdição da meninada.

Na verdade, ela se perdeu e fez a maioria da molecada se encontrar nas profundezas do prazer. A única exigência da madame era com o respeito às regras da família e à honra dos mais velhos. A isso dávamos o nome de disciplina. Além da alegria, da simplicidade e do romantismo da pobreza, a vida verdadeira era o que realmente me importava. Chamava o resto de perfumaria. Embora não fosse mestre em matemática, a tabuada eu sabia de cor. Craque na língua, fazia o dever de casa na mesa da cozinha e, desde menina, já escrevia cartas sem erro de português.

Dia e noite, noite e dia, a angústia se limitava à espera do verão, do Carnaval, da Páscoa, das festas juninas e dos festejos natalinos. Coisa rara, o presente era a preciosidade da família reunida. E hoje? É o vale tudo. É a paixão que queima, o amor que enlouquece e o desejo que trai. Tudo em nome do prazer real. Hoje, muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, decorador de interiores e estivador. Nada contra, mas que saudade do tempo em que os tristes achavam que o vento gemia, enquanto os alegres juravam que ele cantava.

……

Sonja Tavares é Editora Política de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.