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Rio de Janeiro

O menino carioca

Publicado

Autor/Imagem:
Gil DePaula - Foto Francisco Filipino

O Rio de Janeiro ensinou o menino a olhar para o alto. Não porque morasse num lugar onde as coisas fossem fáceis, mas porque, do barraco onde vivia, bastava levantar a cabeça para enxergar o Cristo Redentor de braços abertos sobre a cidade.

Lá de cima, o Cristo parecia abraçar todo mundo. Os ricos que moravam em apartamentos de frente para o mar. Os pobres dos barracos espremidos nos morros. Os turistas que chegavam encantados. Os trabalhadores que saíam cedo e voltavam tarde. Até os abandonados da sorte pareciam caber naquele abraço.

O menino morava com a mãe e a avó numa casinha apertada, numa favela encravada no morro. A rua era estreita, as paredes tinham histórias de muitas mãos e as crianças jogavam bola onde encontrassem um pedaço de chão.

Bola, aliás, era coisa séria.

— Vai, Duda! Toca essa merda!

— Tô livre, pô!

— Livre nada, tu tá marcado!

O menino ria e corria. Naquele campo improvisado bastava saber jogar. Quando fazia um gol, abria os braços como se fosse O Cristo Redentor ou o dono do Maracanã.

Seu sonho era jogar futebol. Não precisava ser famoso. Queria apenas vestir uma camisa, entrar num estádio cheio e ouvir uma multidão gritar seu nome: “Duda! Duda! Duda!

Mas o Rio ensinava cedo que sonho bonito também precisava aprender a sobreviver. Havia noites em que os fogos não anunciavam festa.

A mãe mandava:

— Entra pra dentro, meu filho.

— Mas, mãe…

— Agora!

Ele sabia. Quando os tiros começavam, o futebol acabava. A bola ficava abandonada no meio da rua. As crianças desapareciam pelas portas. Os adultos baixavam a voz.

E o menino descobria que havia sons que nenhuma criança deveria aprender a reconhecer.

Certa manhã, um caminhão estourou a bola. Ele ficou olhando para ela durante um tempo.

A avó, sentada na porta, percebeu a tristeza.

— Não fica assim, menino.

Mas o menino veio com outra história:

— Vó, por que tem gente que quer machucar os outros?

A velha respirou fundo.

— Porque tem gente que esquece que do outro lado também existe uma vida.

Ele não respondeu. Guardou aquilo.

No Rio, começou a entender cedo que a cidade tinha muitos lados. Havia o lado da favela e o lado do asfalto. O medo e a alegria. A beleza e a violência. A pobreza e a riqueza.

E, muitas vezes, tudo isso ficava separado apenas por uma rua.

Também havia a polícia. Quando uma operação começava, ninguém sabia direito o que iria acontecer.

O menino já tinha visto trabalhador deitado no chão esperando a confusão passar. Já tinha visto porta sendo arrombada. Já tinha visto policial entrar com o rosto fechado e arma na mão.

Mas também lembrava-se do policial que, certa vez, ajudara sua mãe quando ela passou mal na rua. Por isso não aprendeu a odiar pessoas. Aprendeu a desconfiar da violência.

Um dia perguntou à avó:

— Vó, quem tá certo nessa história?

Ela olhou para ele.

— Meu filho, quando a violência começa, não sobra espaço pra alguém estar certo.

A frase ficou dentro dele. Mas o Rio não era só aquilo. Nos domingos, quando sobrava algum dinheiro, a mãe levava o menino para conhecer a cidade. Desciam o morro. Pegavam ônibus. E o Rio ia se abrindo diante dos seus olhos. Copacabana parecia outro mundo. O mar batia no calçadão e os prédios pareciam vigiar a praia. O menino tirava os chinelos e corria para a água.

— Cuidado, Duda!

Ele não ouvia. Queria sentir o mar inteiro.

Em Ipanema, descobriu que o Rio também sabia ser elegante. Mas foi na Lapa que seu coração encontrou outra coisa. Ali, o Rio tinha música. Tinha gente. Tinha história. Tinha samba.

As vozes se misturavam ao som dos instrumentos, e o menino ficava parado, olhando os adultos dançarem como se a vida tivesse esquecido, por algumas horas, seus problemas.

Foi também ali que aprendeu que o samba não era apenas música. Era resistência. Era memória. Era um povo dizendo: “Eu ainda estou aqui.”

Quando chegou o Carnaval, o menino enlouqueceu. Queria acompanhar tudo. As cores. As fantasias. Os tambores. Os blocos. As pessoas cantando pelas ruas.

Naquele momento, ninguém perguntava de onde ele vinha.

O Rio inteiro parecia caber numa só avenida.

E ele percebeu que aquela cidade tinha uma maneira estranha de transformar sofrimento em festa. Mas seu lugar preferido continuava sendo o futebol.

Anos depois, conseguiu entrar num time de várzea. Treinava com vontade. Corria até as pernas doerem.

A mãe dizia:

— Tu ainda vai me matar de tanto orgulho, garoto.

Ele ria.

— Ainda vou te levar pra ver eu jogar no Maracanã.

O tempo passou. Ele não virou jogador famoso. A vida tomou outros caminhos.

Mas, certa tarde, já homem, voltou ao morro onde crescera. Parou diante da velha casa.

A bola de sua infância já não existia. O campo improvisado havia desaparecido. Muitas casas tinham mudado. Algumas pessoas tinham partido. Outras tinham morrido. A cidade também parecia outra. Mas o Cristo continuava lá. De braços abertos. O homem ficou olhando para ele. Lembrou-se do menino que acreditava que aqueles braços protegiam todo mundo. E sorriu. Talvez não protegessem. Talvez nunca tivessem protegido. Mas ensinavam uma coisa importante: olhar para cima.

Então desceu o morro. Passou pela Lapa. Ouviu um samba vindo de algum bar. Seguiu até Copacabana. O sol começava a desaparecer atrás dos prédios.

Depois caminhou até Ipanema. Sentou-se diante do mar. Ficou em silêncio. Pensou no menino que fora.

Na bola.

Na favela.

Nos tiros.

Na polícia.

Na mãe.

Na avó.

No Carnaval.

Na Lapa.

No Cristo.

Naqueles braços enormes abraçando uma cidade cheia de contradições.

Foi então que entendeu por que nunca conseguira deixar o Rio de verdade. Não amava a cidade porque ela fosse perfeita. Amava porque ela era sua. Com suas feridas. Suas belezas. Seus morros. Seus barracos. Seus palácios. Seus becos. Suas praias. Seu samba. Seu futebol. Seus medos e suas esperanças.

O Rio havia lhe ensinado que amar um lugar não significa fechar os olhos para aquilo que precisa mudar. Significa querer que ele seja melhor.

O menino levantou-se, olhou para o horizonte e respirou fundo. Lá longe, o Cristo continuava de braços abertos.

E ele pensou que talvez aquele fosse o maior ensinamento que o Rio lhe dera: Uma cidade pode carregar suas dores sem deixar de celebrar sua vida. Pode conhecer a violência sem abandonar a esperança.

Pode ser desigual e, ainda assim, ensinar solidariedade. Pode ferir. Pode acolher. Pode expulsar. Pode chamar de volta. E, mesmo depois de tudo, continuar sendo a nossa casa.

O menino carioca sorriu. Porque, no fundo, sabia que nunca havia deixado o Rio.

O Rio é que havia crescido dentro dele.

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