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Terra vermelha

O menino de Taguatinga

Publicado

Autor/Imagem:
Gil DePaula - Foto Francisco Filipino

Ele cresceu junto com a cidade. Viu a nascer entre as árvores e a terra vermelha, e fincou ali raízes tão fundas quanto as que o cerrado tecia no chão. Taguatinga crescia devagar, tomando forma, e ele crescia junto — passo a passo, chão a chão.

As casas eram de madeira, levantadas à pressa, com tábuas que rangiam ao vento e frestas por onde a chuva entrava e deixava tudo úmido. As ruas eram de barro — quando chovia, virava uma lama que grudava nos pés até os tornozelos, e ele e os meninos corriam assim, descalços, sentindo a terra fria e macia entre os dedos. Mais tarde cobriram de cascalho, que doía nos pés, mas nem por isso paravam de correr. A cidade se fazia, e eles também.

Chovia muito. Às vezes parecia que o céu ia desabar de tanta água. E quando chegava maio, vinha o frio — um frio que penetrava os ossos, que fazia tremer debaixo dos cobertores finos. Não havia aquecedor, não havia parede grossa. Só o calor do corpo do irmão ao lado, e a certeza de que o sol voltava amanhã. A cidade ainda não tinha muros, e nem precisava. Só uma cerca baixa de madeira, que qualquer um podia saltar.

As árvores do cerrado estavam por toda parte — com seus galhos retorcidos e flores típicas. E o ar cheirava a terra molhada.

E nas ruas eram todos donos. Brincavam de roda, de boca de forno, de pique, de bete, de bola, bolas de gude, descalços sobre o cascalho que arranhavam os pés. Escondiam-se entre as árvores. Corriam até o córrego, aquela água gelada e límpida que descia do planalto, e mergulhavam nus, rindo à toa, sem medo, sem hora, sem ninguém mandando sair. A cidade crescia devagar, e o espaço parecia não acabar.

Estudavam na escola que também se erguera junto com tudo, salas simples, carteiras marcadas pela sede do saber.

À noite, quem tinha televisão deixava a porta aberta. Os meninos se amontoavam lá dentro, no chão, nas janelas, todos olhando para aquela tela pequena vendo filmes de bang-bang, e se emocionando com a novela “O Direito de Nascer”.

Diziam que no Plano Piloto era diferente — ruas simétricas, casas bonitas, tudo organizado. Ele nunca invejou. O mundo dele era pequeno, mas cabia todo nele, e era seu.

A maioria era pobre. Pobre de verdade. As roupas eram poucas, muitas vezes passadas de irmão para irmão.

Algumas vezes a comida não chegava para todos. Sentavam-se à mesa e dividiam o pouco que tinham — o pão partido em fatias finas, o feijão servido com cuidado. Ninguém comia sozinho.

As visitas chegavam sem avisar. Batiam palmas na porta e entravam. Sempre bem-vindas. A mãe arrumava um lugar na mesa, fazia um café que parecia brotar do nada, e a conversa se estendia noite adentro.

Os pais exigiam respeito. Se respondesse, se fizesse arte, levava uma correção — doía na hora, sim. Mas hoje ele sabe: doía mais no coração do pai e da mãe do que nele. Eles sabiam que a vida ia ser dura, e queriam prepará-lo.

Os anos passaram. Ele cresceu. A cidade também. E então ele partiu. Foi estudar, trabalhar, viver em lugares onde as ruas são de asfalto liso, os muros são altos e as portas ficam trancadas com chave. Onde ninguém sabe o nome do vizinho e visita só vai se avisar antes. Viveu assim por muito tempo, enquanto Taguatinga continuava crescendo sem ele. E então, um dia, resolveu voltar.

Chegou e quase não reconheceu. As ruas eram de asfalto. Os córregos onde mergulhara estavam cobertos, escondidos, esquecidos. As árvores do cerrado rareavam. As casas tinham muros altos, portões de ferro, janelas fechadas. Nenhuma cerca baixa de madeira. Nenhuma porta aberta. Não viu meninos correndo descalços, ninguém brincando na rua. Tudo parecia mais confortável, mais seguro, mais cheio de coisas. E mais vazio. A cidade havia crescido, mudado, se vestido de outro jeito. Mas o menino que ali crescera junto com ela não encontrava mais a sua cidade.

Um dia alguém conseguiu juntá-lo com outros velhos amigos. Cabelos brancos, passos lentos, mas os mesmos olhos. Conversaram. Falaram do que mudou, do que se perdeu. E então alguém sorriu e disse baixinho: — Sabe de uma coisa? Fomos tão felizes naquele tempo…

Naquele instante, tudo se iluminou dentro dele.

Compreendeu, de uma vez por todas, que riqueza não era fartura, paredes fortes, conforto, segurança. E ali, diante dos amigos, com o coração apertado e os olhos úmidos, descobriu que tinha sido imensamente rico muito antes de possuir qualquer bem.

Porque a verdadeira riqueza não está no que se guarda atrás de muros altos, mas no que se repartia quando não havia muros nenhuns. Não está em ter muito, mas em faltar a solidão. Não está em viver sem dificuldades, mas em descobrir, justamente quando tudo é escasso, que o amor e a partilha são suficientes para preencher qualquer vazio.

A cidade cresceu, enriqueceu de coisas, e perdeu na partilha. Ele, porém, crescera junto com ela, e carregava dentro de si aquilo que o tempo não consegue levar.

A terra vermelha já não aparecia sob o asfalto. Mas aquela terra, aquela infância, aquela verdade — tudo isso continuava vivo, pulsando dentro do peito, mais forte que o tempo, mais forte que a mudança, mais forte que tudo. E compreendeu, por fim, a grande lição que Taguatinga lhe ensinara sem palavras: as construções se erguem e se renovam, os caminhos se cobrem e se transformam, mas aquilo que se constrói no coração — o afeto, a gratidão, a união — isso cresce junto com a gente, permanece para sempre, e é a única riqueza que jamais se perde.

Levantou-se e foi embora, sorrindo com os olhos brilhantes. A cidade era outra, sim. Mas o menino que crescera junto com ela permanecia inteiro, intacto, feliz.

E entendeu: eles foram, sem nunca suspeitar, os meninos mais ricos das Cidades-Satélites, do Distrito Federal, do Brasil, do mundo. Donos de uma riqueza chamada FELICIDADE.

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