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O Lado B da Literatura

O mistério sob a rosa seca

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi / Acervo pessoal / Internet

Em dezembro de 2017, numa tarde modorrenta e abafada, a poucos dias do início do inclemente verão carioca, eu já havia aplicado as provas finais e entrado de férias da universidade. Sem compromissos e com algumas horas livres pela frente, resolvi entrar em meu carro, ligar o ar-condicionado no máximo e partir para a Zona Sul, a fim de fazer uma exploração pelo Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

Não era um passeio inteiramente sem propósito. Queria encontrar a sepultura de Augusto Frederico Schmidt, meu poeta preferido, morto em 1965. Eu sabia que deveria procurar o jazigo 1929 da quadra 29, mas, como costuma acontecer nos cemitérios antigos, a simplicidade da informação não correspondia à dificuldade da busca.

Depois de caminhar algum tempo entre mausoléus, cruzes e lápides, finalmente encontrei o túmulo. Ficava próximo ao jazigo do cantor Cazuza.

Sobre a pedra havia uma rosa seca.

A princípio, aquilo não teria nada de extraordinário. Flores são deixadas diariamente nos cemitérios, embora poucas resistam por muito tempo ao sol, à chuva e ao abandono. Mas havia um papel dobrado sob a rosa. Percebi-o quando me aproximei da lápide.

Hesitei antes de tocá-lo. Abrir uma mensagem deixada sobre uma sepultura me pareceu, durante alguns segundos, uma indiscrição imperdoável. Talvez eu estivesse invadindo uma intimidade que nem a morte havia revogado. A curiosidade, porém, acabou vencendo.

Afastei a rosa e abri cuidadosamente o papel.

A mensagem já estava castigada pelas intempéries, pela poeira e pela decomposição da própria flor. Algumas palavras haviam desaparecido; outras podiam apenas ser adivinhadas. Não sei dizer hoje se li o bilhete ou se o reconstituí. Nas fotografias que fiz naquele momento, ainda é possível distinguir a palavra “saudades”, uma referência ao “amigo” e, ao final, três iniciais:

W.R.V.

Quem seria aquela pessoa que, cinquenta e dois anos depois da morte do poeta, ainda lhe levava uma rosa e deixava sobre sua sepultura uma mensagem manuscrita?

Naquele momento, eu não fazia ideia.

Voltei para casa com as fotografias e as três letras na memória. Procurei informações na internet, mas encontrei pouca coisa. Aos poucos, porém, a pesquisa me conduziu a um nome: Waldir Ribeiro do Val.

Foi assim, sob uma rosa seca, que conheci a existência do homem que acompanhara Augusto Frederico Schmidt durante os últimos anos de sua vida.

Em 2007, num discurso pronunciado na Academia Luso-Brasileira de Letras, Waldir contou como se dera o primeiro encontro entre os dois. Até então, conhecia Schmidt apenas por seus poemas, artigos e aparições públicas. Já havia publicado um estudo sobre Raimundo Correia e circulava nos ambientes literários do Rio de Janeiro, mas nunca estivera pessoalmente com o poeta.

Em meados de 1958, Waldir estava em seu apartamento, na Praia de Botafogo, quando recebeu um telefonema inesperado. Do outro lado da linha estava o próprio Schmidt, que conhecia seus trabalhos sobre Raimundo Correia e queria conversar com ele.

Waldir chegou a suspeitar de um trote.

O encontro foi marcado para a noite seguinte, no apartamento da Rua Paula Freitas, número 20, em Copacabana. Antes de desligar, Schmidt perguntou a idade do jovem pesquisador. Waldir tinha trinta anos. A resposta pareceu agradá-lo.

Às sete e meia da noite do dia seguinte, Waldir subiu ao oitavo andar do Edifício Jabaquara. Depois de alguma espera, foi recebido pelo próprio poeta, que caminhava lentamente. Temendo ter chegado cedo demais, perguntou se Schmidt estaria jantando.

— Ai de mim! Eu não posso jantar, sou diabético.

A resposta, ao mesmo tempo teatral e lamentosa, surpreendeu Waldir. Diante dele estava uma das figuras mais influentes do país: empresário, poeta, articulista, diplomata informal e interlocutor frequente do poder. Entretanto, aquele homem conhecido pela veemência, pelas gargalhadas e pelo apelido de “gordinho sinistro” aparecia agora fragilizado diante de um jovem que nunca havia visto.

No escritório-biblioteca, cercado por estantes de madeira e livros encadernados, Schmidt explicou que ele próprio escolhera Waldir. Queria que trabalhasse como seu colaborador — na prática, como seu secretário literário.

As atribuições foram definidas naquela mesma noite. Waldir deveria rever os artigos escritos para O Globo, levá-los à redação, reunir os textos dispersos, preparar novos livros e colaborar nos trabalhos relacionados à Operação Pan-Americana, então em formação.

Começou na manhã seguinte.

Durante quase oito anos, de 1958 ao início de 1965, conviveu diariamente com Schmidt. Organizou livros, preparou antologias, revisou textos, acompanhou discussões políticas e presenciou a movimentação quase diplomática do apartamento da Rua Paula Freitas. Ali circulavam ministros, parlamentares, militares, jornalistas, escritores e funcionários do Itamaraty. Waldir trabalhava nos bastidores daquela combinação pouco comum de literatura, poder e política externa.

Preparou, entre outros trabalhos, o volume As florestas, uma Antologia poética, o livro de sonetos Babilônia e uma Antologia de prosa. Em 1965, Prelúdio à revolução, reunião de artigos políticos de Schmidt, tornou-se a primeira obra das Edições do Val, editora criada por Waldir.

Schmidt tinha consciência de que aquele jovem não era apenas um revisor. Confiava-lhe seus textos, permitia que recolhesse originais destinados à cesta de lixo e chegou a dizer que, depois de sua morte, Waldir seria o guardião de sua obra.

A frase ganharia uma duração que talvez nem Schmidt pudesse imaginar.

O poeta morreu em fevereiro de 1965. Waldir continuou vivendo por quase seis décadas. Escreveu, lecionou, trabalhou no jornalismo, publicou livros, editou poetas e preservou documentos. Foi professor de Literatura Brasileira na UFRJ, jornalista de O Globo, editor-chefe da revista Diálogo, membro do PEN Club do Brasil e da Academia Carioca de Letras.

Mas a relação com Schmidt não permaneceu apenas nos livros, artigos e arquivos.

Em dezembro de 2017, mais de meio século depois do enterro, Waldir ainda levava flores ao túmulo do antigo amigo e chefe.

A rosa seca que encontrei no São João Batista era a comprovação silenciosa de que ele jamais abandonara completamente a missão recebida. Continuava guardando Schmidt, não apenas como objeto de pesquisa ou personagem da história literária, mas como alguém de quem sentia saudades.

Depois de descobrir quem era W.R.V., procurei saber mais sobre sua trajetória. Algum tempo depois, por volta de 2018, consegui falar com Waldir.

Ele havia criado o Museu do Val de Literatura em seu sítio, na localidade de Andrade Costa, município de Vassouras. Inaugurado em 2011, o espaço reunia livros, fotografias, manuscritos, autógrafos e documentos relacionados a dezenas de escritores brasileiros. Era o resultado material de uma vida dedicada a recolher aquilo que o tempo  normalmente dispersa.

Waldir Ribeiro do Val

Conversei com ele sobre a possibilidade de visitar o museu. Minha ideia era reunir alguns poetas e escritores amigos e organizar uma pequena excursão literária. Iríamos até Andrade Costa, conhecer o acervo e ouvir do próprio Waldir as histórias que carregava.

A visita ficou para ser combinada.

Pouco depois, minha esposa morreu. O projeto, como tantos outros, perdeu lugar diante do luto. Em seguida, veio a pandemia, com seus isolamentos, adiamentos e rupturas. O tempo passou. Troquei de telefone, perdi contatos e já não sabia como encontrar Waldir.

A excursão nunca aconteceu.

Recentemente, durante uma passagem pela região, procurei novamente a propriedade. O Museu do Val estava fechado. O sítio apresentava sinais de abandono. Perguntei a pessoas da vizinhança o que havia acontecido com o escritor que vivia ali.

Disseram-me que Waldir havia morrido.

Recebi a notícia com alguma dúvida, pois não encontrei imediatamente uma confirmação pública. A Academia Carioca de Letras ainda o apresentava como ocupante de sua cadeira. Pesquisas posteriores, no entanto, confirmaram a informação: Waldir Ribeiro do Val morreu em 1º de dezembro de 2024. Meses depois, duas salas da escola de Andrade Costa onde estudara quando menino receberam seu nome. Sua irmã compareceu à cerimônia em representação da família.

Não sei ainda qual foi o destino do acervo do museu. Não sei se os livros, cartas, fotografias e manuscritos continuam na propriedade, se foram transferidos ou se estão sob a responsabilidade de familiares. Também não seria correto atribuir negligência a alguém antes de conhecer as circunstâncias concretas.

Sei apenas o que vi: o museu fechado e uma propriedade que parecia perder lentamente a luta contra o tempo.

A situação contém uma ironia difícil de ignorar. Waldir dedicou grande parte da vida à preservação da memória de outros escritores. Salvou papéis que Schmidt jogaria fora, preparou seus livros, organizou antologias, estudou Raimundo Correia, publicou poetas e criou um museu para conservar documentos literários. Agora é a memória de Waldir que precisa ser localizada, organizada e protegida.

Schmidt, que tantas vezes escreveu sobre o desaparecimento e a morte, chegou a perguntar a Waldir se alguém ainda se lembraria dele dez anos depois de sua partida. Waldir respondeu a essa inquietação com quase sessenta anos de fidelidade.

A pergunta agora se desloca:

Quem guardará o guardião?

Volto às fotografias daquela tarde de 2017. Numa delas aparece o jazigo inteiro. Em outra, a rosa seca repousa sobre o papel manchado. Na imagem mais próxima, mal se distinguem algumas palavras e as três iniciais que me fizeram iniciar a pesquisa.

Naquele dia, pensei estar lendo uma mensagem particular destinada a um morto. Hoje compreendo que o bilhete também se dirigia, sem saber, a quem viesse depois.

Talvez este artigo seja, enfim, a visita que nunca conseguimos realizar.

Chego tarde. Waldir já não está lá para abrir o museu, mostrar os livros e contar suas histórias. Mas talvez ainda haja tempo de afastar cuidadosamente a rosa seca e devolver à luz o nome escrito sob ela.

Waldir Ribeiro do Val.

……………….
Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava. Autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi.

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