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Maturidade

O “não” que elas engolem

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Quantas mulheres escutam um “não”, aceitam o fim, engolem o choro, às vezes seco, às vezes silencioso, e seguem vivendo? Quantas reorganizam a rotina, devolvem as chaves, arquivam as fotos, recalculam o trajeto emocional e continuam? Sem escândalo. Sem ameaça. Sem transformar frustração em violência.

A resposta não aparece nas manchetes porque maturidade não vira estatística. O que vira dado é o contrário: quando o “não” não é aceito, quando o término vira perseguição, quando a recusa é interpretada como afronta. A assimetria não está apenas no ato extremo; está na forma como homens e mulheres são socializados para lidar com a rejeição.

Desde cedo, mulheres aprendem a administrar perdas. A pedagogia feminina ensina contenção, autocontrole, elaboração. Simone de Beauvoir já observava que a formação das mulheres inclui uma ética da adaptação: ajustar-se, compreender, suportar. Homens, por sua vez, muitas vezes são educados para associar desejo a direito, afeto a posse. Quando o “não” surge, ele não é vivido apenas como decepção, mas como ameaça à própria identidade.

Nas Ciências Sociais, isso não é acaso. Pierre Bourdieu chamou de dominação masculina o conjunto de disposições incorporadas que naturalizam hierarquias afetivas. O problema não é o término em si; é o que ele desorganiza simbolicamente. Aceitar o fim exige reconhecer a autonomia do outro e isso pressupõe igualdade.

Há uma força silenciosa nas mulheres que seguem. Elas não deixam de sofrer. Não deixam de sentir. Apenas não transformam dor em direito de ferir. Essa capacidade não é genética; é cultural. E também tem custo. Engolir o choro não significa ausência de abalo, mas elaboração privada de algo que poderia ser público.

Talvez a pergunta mais incômoda não seja quantas mulheres aceitam o “não”. Talvez seja por que ainda nos surpreendemos quando alguém o respeita. Respeitar a decisão do outro deveria ser o mínimo civilizatório, não virtude extraordinária.

No Nordeste se aprende cedo: quem não quer, não quer. E insistência que ultrapassa o limite vira desrespeito. Simples assim.

Aceitar o fim é reconhecer que o outro é sujeito, não propriedade. É compreender que amor não é contrato vitalício. E que dignidade não se negocia na prorrogação de um relacionamento.

Quantas mulheres fazem isso todos os dias? Muitas.

Sem aplauso.

Sem palco.

Apenas com maturidade e a coragem discreta de seguir.

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