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Turma da fuzarca

O Natal de um velho bobagento que sempre cumpria o que prometia

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Lula Marques

Antevéspera de Natal. Hoje é o dia em que os mais antigos, os do Natal raiz, começam a salgar a picanha, limpar a maminha, desenrolar o salame, cortar a salsicha e, mais à noite, descongelar o peru, cujo glu glu é a cereja da ceia. Data festiva, solidária, redentora e, principalmente, de boas lembranças. O tempo passa, o tempo voa, Jair já está soluçando numa boa e, soube por fonte fidedigna, que, finalmente, Eduardinho do Hambúrguer parou de tomar café brasileiro nos Estados Unidos no saquinho de pano. Parou porque descobriu que no cuador é mais forte.

Bem feito! Antes tivesse ficado por aqui, onde cachorro é chamado de pet, mas o que late na água é o mesmo que late em terra. No Brasil, pelo menos ele tinha quem passasse sua beca para o Natal. Xandão estava de cabelo em pé só esperando que Dudu levasse o ferro. Nos EUA, 03 se deu mal um mês e meio após chegar. Da forma mais carinhosa possível, Donald Trump o chamou num cantinho da White House e, tomara que me entendam, adiantou que lhe daria “dois paus e sessenta”.

Não sei se o deputado cassado aceitou. O que sei é que, com medo de ficar queimado na rodinha, ele pediu silêncio absoluto à família. Meu Deus, quanta besteira para a antevéspera de Natal. Tudo que pensei em escrever eu já esqueci. Como falei em boas lembranças, acho que a ideia era rememorar os antigos Natais com meu bobagento e inesquecível avô Aristarco Pederneira. Mesmo sem barba espessa, ele encarnava Santa Claus desde a noite do dia 23 de dezembro.

De porta em porta, vovô gritava para os vizinhos aquele célebre frase natalina: Hoje vai ter de comer lá em casa. O que eu prometi está de pé e vai ser cumprido. Às vezes, para quebrar o gelo, o velho brincava sobre a variedade da mesa: Vizinho, você gosta de verdura? Se não, fique tranquilo, pois encomendei uma pizza grande que dá para vinte comer. A piada noturna tinha sempre a bebida como mote. Esperando a turma da fuzarca na porta de casa, Aristarco recebia um a um com o mesmo bordão: “Tempo raro, né?”

Mais relaxado, vovô pegava para Cristo o primeiro que chegasse. Com cara de santo, informava ao incauto que dispunha de cinco garrafas de whisky. De imediato, acrescentava: “Sei que é muito, mas, caso seja do agrado do amigo, você vende quatro e eu te dou uma. Fechado?” Incorrigível e sem papas na língua, meu avô era daqueles que dividia tudo que tinha. Sob protestos da vovó Anastácia Pederneira, o véio chegou a oferecer a um vizinho desavisado cem camisas para que ele lhe desse cem calças.

Aos mais chegados, Aristarco se antecipava e dizia que a vestimenta era a mesma do ano anterior. Não precisava, mas o sujeitinho à toa não perdia a oportunidade para informar que, sem roupa nova, passou o ferro na velha. Obviamente que o ponto alto da noite tinha a ver com a chaminé. Depois de dar à luz às bolas, vovô subia no telhado com uma ruma de brinquedos para os netos e afins. Descia escorregando, mas nunca conseguia chegar na sala sem o saco ralado. Rindo feito menino que acabou de sangrar o prepúcio, Aristarco se desculpava da forma mais esfarrapada que conheci: “Perdão, meus caros, mas no escuro, sem óculos, lê como?” Foram muitos Natais, todos irremovíveis da memória.

O pior deles foi o último vovô com vida e na companhia de Eno, seu melhor amigo. Às três da madrugada, mamados feito bebês agarrados nos seios da parteira, um dos velhos sussurrou no ouvido do pai do meu pai e sapecou: “Aristarco, o Eno perdeu o anel. Você está com o anel do Eno?” Mesmo correndo o risco de tomar no traseiro, decidi lembrar a vovô que, quando a casa cai, é que a gente descobre quem são nossos parceiros. Tive vontade de dizer, mas engoli aquela máxima de que, em toca de cobra, tatu caminha dentro. Jair, Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem, Carla Zambelli e Sóstenes Cavalcante foram informados, mas esqueceram que touro mecânico não dá leite. Foram com muita sede ao pote e não perceberam que o povo está cansado de vê-los comendo carne e só levar linguiça.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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