Curta nossa página


Yatasto

O nome dele era uma homenagem a um cavalo campeão das pistas

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Muitos cavalos recebem nomes de pessoas, mas o nome dele homenageava um campeão das pistas. Nascera em 1953, em Buenos Aires, e seu pai, fissurado em corridas de cavalos, dera-lhe o nome de Yatasto, o imortal vencedor do Gran Premio Municipal daquele ano.

Yatasto, o cavalo tantas vezes vencedor, inspirou o tango Yatasto, puñado de viento e uma milonga, além de receber o cognome de “Gardel de los pingos”. Yatasto, o homem sempre perdedor, não receberia homenagem alguma ao morrer e ninguém o compararia a Gardel – nem sequer ao tanguero mais chinfrim da Argentina. Quando muito, em uma rima maldosa, mencionariam na mesma frase “Yatasto, puñado de viento” e “Yatasto, bebum sem alento”.

O aposto em português tem justificativa: incapaz de conservar-se em um emprego na Argentina, Yatasto viera, aos 30 anos, sem armas e quase sem bagagens para o Brasil. Quando possível, dava aulas de espanhol e de tango; se esses bicos escasseavam – e, com quase 50 anos, era difícil tanguear, o corpo não obedecia, as mulheres sequer fingiam se envolver no jogo de sedução bailado –, fazia qualquer coisa que lhe permitisse emborcar suas doses de cachaça de cada dia. De todo santo dia. Assim, deixava-se levar, sobrevivia apenas, sem alento, sem esperar nada da existência, sem pedir coisa alguma aos anjos e santos (era de família católica). A Deus, não ousava suplicar.

Essa era a sua rotina de bêbado, onze meses por ano. Em fevereiro, porém, reduzia o consumo de cachaça ao mínimo, apenas o necessário para não entrar em coma alcoólica. Em 1º de março – seu aniversário, e o dia da vitória de seu homônimo no Gran Premio Municipal – comparecia, com os bolsos relativamente cheios de grana, a alguma casa de tangos. Virava todas, pagava doses para os músicos, conversava em espanhol e lunfardo com os compatriotas, em portunhol com os músicos brasileiros e, lá pelas tantas, exigia/implorava:

– Toquem Yatasto, puñado de viento!

Cantava junto, em voz baixa. Contudo, no trecho em que o tango menciona “Yatasto! Pingazo!” (grande cavalo), ele mudava a letra e berrava a plenos pulmões:

– Yatasto! Pinguço!!!

E depois ria como um louco. Logo em seguida, desandava a chorar. E ia embora, soluçando, sem ouvir o final da canção, para voltar no ano seguinte. A menos que os anjos, os santos ou outras entidades se apiedassem – ou ficassem com gastura, tanto faz, o resultado é o mesmo – do xará perdedor do equino vencedor, e, como diz o tango, em outro sentido, o fizessem embarcar antes do dia 1º de março em um “trem infernal”.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.