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Claridade e escuridão

O “nosso” solstício de inverno Sul-americano

Publicado

Autor/Imagem:
Marco Mammoli - Texto e Imagem

Para o ocultismo, o solstício de inverno é visto menos como um simples marco astronômico e mais como um portal simbólico de forças ligado ao momento de morte e renascimento da luz. É associado ao ponto mais profundo da escuridão, onde a força da natureza parece “recolhida”, a vitalidade está mínima. Exatamente por isso, marca o renascimento da luz pois, a partir dele, os dias começam a crescer. Simbolicamente, o final do outono e início do inverno representam a “morte” do ciclo antigo e a gestação de um novo ciclo na escuridão e a promessa de renovação espiritual. Os dias vão ficando mais curtos no outono até atingirem seu ápice nas noites longas do inverno.

Tal qual os humanos, Gaia também passa por esses processos internos de morrer para velhos padrões e iniciar, em silêncio, sua transformação. Esse portal de poder ligado à noite mais longa e ao renascimento da luz é usado para trabalhos de introspecção, proteção, cura, fechamento de ciclos e preparação espiritual para um novo ciclo que começa silenciosamente, ainda dentro da escuridão. Existem dois momentos, o nascer e o por do Sol, que instigam nossas esperanças e nossos medos. É o momento do “lusco-fusco”, onde nada é definido e a falta da luz não permite que enxerguemos com clareza o que está a nossa volta. O amanhecer traz as definições e o anoitecer abre as portas do desconhecido e dos nossos medos. À medida que a escuridão da noite avança, e se amplia, tudo começa a ganhar os contornos do desconhecido.

Com a “noite mais longa”, a humanidade começou a buscar rituais de proteção do lar e da família, consagrar amuletos protetores e trabalhar formas de banimentos de “sombras internas” (medos e crenças limitantes). É interessante a perspectiva da noite como o “útero da escuridão” , como espaço de cura de nossas sombras justamente no momento em que a falta de luz impede a nossa visão. Essas longas noites tornam-se tempo de introspecção, de autoanálise, de meditação sobre o ano que passou, revisando culpas e padrões que deveríamos abandonar.

No hemisfério sul, praticantes neopagãos costumam celebrar o solstício de inverno entre 16 e 21 de junho. Mantendo o simbolismo de acender velas e fogueiras para “ajudar o Sol a renascer” ou enfeitar a casa com plantas perenes ( pinhos, louros), símbolos de vida que persiste na escuridão. Também são praticados rituais de gratidão e pedidos para o novo ciclo. Em várias correntes, associa-se o solstício de inverno ao nascimento ou retorno de um “Deus Solar” ou de uma “Luz Crística” interior, independentemente de religião específica. Alguns magistas trabalham com arquétipos como “ o Rei que retorna (a luz que volta)” e a “Mãe escura (útero da noite que gera a nova luz)”.

Algumas correntes ocultistas elegem esse momento como propício às iniciações, aos rituais de passagem, oráculos e contato com o invisível. Pois é a época em que as fronteiras entre consciente e inconsciente ficam mais permeáveis, pois o foco do recolhimento facilita a leitura de oráculos (tarô, runas, búzios etc.) para o novo ciclo. Também as práticas de sonhos lúcidos, trabalhos oníricos e meditações de contato com ancestrais ou guias espirituais. Quase todas as correntes concordam que é um tempo propício para rituais de fechamento de ciclo e cerimônias de compromisso interno. Os sistemas e as interpretações ocultistas nasceram no hemisfério norte. Como cultura são válidas as cerimônias em honra ao fenômeno. Porém, ao celebrar o solstício de inverno (junho), faz mais sentido buscar correspondências simbólicas (mitos, plantas, animais) que fazem sentido com a realidade local.

O solstício de inverno no hemisfério sul foi visto por muitas culturas antigas como um ponto de virada cósmico: o fim da escuridão crescente e o início do “renascimento” da luz, marcando ciclos de tempo, agricultura, rituais religiosos e renovação espiritual. Essas tradições, embora hoje sejam muito associadas ao hemisfério norte, nasceram dessa mesma lógica de “noite mais longa” e retorno da luz. A ideia central é idêntica: renascimento, recomeço e vitória da luz. Tal qual os povos e as culturas nortenhas. No hemisfério sul, um dos exemplos mais claros é o dos Incas, que celebrava o Inti Raymi, festa em honra ao deus Sol (Inti) no solstício de inverno de junho. A celebração acontecia no período em que o Sol estava mais distante e “mais fraco” para o hemisfério sul. Ela marcava o agradecimento pelas colheitas passadas, pedido de proteção e fertilidade para o novo ciclo agrícola e a renovação da aliança entre o povo e o deus Sol. Esse festival era um marco político, religioso e agrícola, mostrando como o solstício organizava a vida coletiva dos andinos.

Diversos povos indígenas (América do Sul, Oceania e outras regiões do sul) atribuíram ao solstício de inverno um forte significado espiritual. Onde era o momento de honrar deidades solares e de contar histórias, mitos e ensinamentos ligados ao ciclo da natureza. As comunidades mantinham um “calendário vivo”, observando o ponto onde o Sol nascia ou se punha, e associando isso a épocas de plantio, caça e rituais. Muitos detalhes variam de povo para povo, porém a lógica comum prevalece, menos luz = tempo de recolhimento e reflexão; volta gradual da luz = tempo de renovação e reorganização da vida comunitária. Então, nesse nosso solstício de inverno te convido a reinterpretar mitos, em vez de copiar apenas símbolos nórdicos/europeus, resgate mitologias locais (andinas, indígenas, africanas) que também falam de ciclos de luz e escuridão, morte e renascimento. Permita que as forças e os insights ancestrais locais te reconectem com sua terra e sua cultura coletiva.

Sumaq Inti Raymi (lindo ou excelente Inti Raymi), em Quéchua, prá você!

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Marco Mammoli, Mestre Conselheiro e membro do conselho do Colégio de Magos e Sacerdotisas. Você pode entrar em contato com o Colégio dos Magos e Sacerdotisas através da Bio, Direct e o Whatsapp: 81 997302139

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