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FUTEBOL E PAÍS

O PAÍS QUE PRECISAVA VENCER

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Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Entramos em campo para matar ou morrer. Perdendo, acabaria o sonho. Vencendo, ele seguiria vivo e mais folgas poderiam ser vistas num horizonte próximo. A habilidade com a bola estava mais do nosso lado. Vencemos o Japão por 2 a 1, com gol aos 95 minutos, o que é muito apropriado para um país em que até o remédio costuma chegar atrasado. O Japão abriu o placar, o Brasil empatou, e Martinelli, quando a partida já começava a apontar a prorrogação e aflição dos pênaltis, resolveu nos entregar o que de fato sabemos administrar: não a excelência, mas o sobressalto.

E foi muito justo. Não justo no sentido moral, evidentemente. Justo no nosso sentido de cultura nacional, que é muito mais útil e muito menos nobre. O Japão já tem uma porção de hábitos ofensivamente civilizados: ensina matemática de verdade, lê melhor, vive mais, mata menos, saneia quase tudo, organiza-se com uma competência que, vista do Brasil, chega a parecer falta de imaginação. Em comparação, nós ainda somos um país com vocação para os commodities, corrupção e improviso. Portanto, era razoável que o pão e o circo ficassem conosco.

Além do mais, o Japão já coleciona mais de trinta laureados do Nobel, conforme o critério adotado. Nós, no uso corrente da expressão, seguimos sem um Nobel brasileiro para chamar de nosso, embora sempre apareça a nota de rodapé de Peter Medawar, nascido aqui e laureado como britânico. Em todo caso, convenhamos: quem já acumulou esse tipo de glória intelectual podia perfeitamente nos ceder a glória muscular de uma bola desviada, uma cabeçada de Casemiro e um chute salvador de Martinelli nos acréscimos. Há uma certa política social distributiva nisso.

Porque o Nobel exige uma coisa muito difícil para nós: continuidade. Exige planejamento, trabalho de base. A escola que funcione, laboratório, disciplina, orçamento, contenção, paciência histórica, uma espécie de teimosia produtiva que não cabe no nosso calendário de feriados emendados. A Copa, não. A Copa admite um país desorganizado desde que ele saiba, por noventa e tantos minutos, organizar um contra-ataque. O Nobel pede décadas, enquanto a Copa, às vezes, aceita cinco minutos de desespero bem orquestrado. Para uma nação fatigada, é um modelo muito mais acessível de realização e transcendência.

Não se trata, claro, de dizer que o Japão não tenha seus próprios percalços. Tem vários e sérios. Envelhece, encolhe a população, carrega uma dívida monumental e procura recuperar o fôlego de crescimento. Mas justamente por isso a questão fica mais interessante: até um país sério e eficiente precisa lidar com problemas reais. A diferença é que, lá, a crise não costuma vir acompanhada de vala aberta, homicídio em escala epidêmica e a eterna sensação de que o básico ainda é um projeto em execução, promessa de um futuro que nunca chega.

Por isso comemoramos sem grande inocência. Não porque uma vitória substitua escola, hospital, segurança, saneamento ou ciência. Seria ridículo acreditar nisso. Mas, sendo honestos, também seria ridículo fingir que não entendemos o consolo. Um país que falha tanto no atacado se apega ferozmente ao varejo da alegria. O gol no fim não resolve nada, nem muda a vida de ninguém para melhor, a não ser os envolvidos diretamente no futebol da seleção, e talvez seja exatamente por isso que comove tanto: ele nos permite, pelo intervalo breve de uma tarde, chamar de destino aquilo que amanhã voltará a ser carência.

No fundo, a vitória sobre o Japão não prova que somos melhores em coisa alguma. Prova apenas que, em matéria de necessidade simbólica, somos imbatíveis. Eles talvez precisassem menos. Nós, ao contrário, precisávamos desesperadamente de mais esse analgésico patriótico, dessa euforia de aluguel, desse pequeno feriado moral. E como o Brasil, quase sempre, não ganha o que merece, precisamos nos contentar com celebrar quando ao menos ganha o que distrai.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário, de Notibras, é fundador da Editora Fava e autor dos livros A Verdade nos Seres e Território do Sonho. Prepara Jardim Secreto. @prof.danielmarchi

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