Curta nossa página


Sobrenatural

O passarinho bêbado

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Vou sair pra passear ao Sol / Vou pisar no capim / … E no meu caminho encontrar um passarinho / Para conversar sobre os assuntos sobrenaturais / Quando estou sozinha sigo o meu instinto / Até consigo sem saber / Falar a língua dos animais”
(MARISA MONTE, cantora e compositor deusa brasileira)

No meio da estrada do Cumbatá, Alzira estacou, respirou e viu o pássaro da madrugada.

Estático, cantando e… falando:

— Oiiiê! Caminhando logo pelo final da madrugada?

Alzira primeiro gelou; depois relaxou e sentiu os sinais.

— Sim, é a melhor hora do dia…

— A Hora do Lusco-fusco, né?

— É… não é mais noite e ainda não chegou o novo dia.

— Também amo esse momento. Você fala sempre com a gente?… quer dizer, com os bichinhos?

— Não. Apenas quando um de vocês puxam conversa.

Alzira se esparramou na grama em frente a uma casa grande feita de pedras naturais, uma das muitas pousadas da pequena vila litorânea. E prosseguiu.

— Nossa… mas você fala bem, hein? Bom português e tal. Você não é daqui, não, né?

— Não. Feito você: estrangeira que veio passear e aqui ficou. Eu também.

— Como você sabe sobre mim?

— Sei… sei sim. Por aqui a gente sabe de tudo.

— Então, as coisas são mesmo assim: encontros inesperados, revelações e aquele sentimento de sobrenatural.

— “Se tu diz…Tá dizido!”, como falam os nativos daqui.

— Conta pra mim um pouco de tua história…

— Já esqueci. Não lembro de nada que volte além de um ano atrás. Meu cérebro está meio atarantado e ficando esquecido. E você?

— Ah, eu andei aí pelo mundo e bati aqui e aqui resolvi ficar. Coisas de “estradão”, sabe… a gente vive em movimento e às vezes precisa parar mais tempo em um só lugar.

— Verdade!… dar um tempo pra prestar atenção nas coisas.

— É isso aí! Você também canta, Alzira?

— Caraca, você sabe até o meu nome! Canto um tiquinho…

Alzira tirou o violão que trazia pendurado nas costas e junto com o passarinho cantaram durante horas.

Alzira cantava e a pequena ave fazia a primeira voz em dueto. Canções clássicas, toadas sertanejas, folclóricas, sons há muito esquecidos na praga da internet.

Alzira percebeu que o passarinho havia tirado da pequena mochilinha que trazia com ele uma garrafinha de metal e bebia e bebia com prazer; e cantava e cantava…

“É pau / É pedra / É o fim do caminho / Um resto de toco / Um pouco sozinho.”…. “Minha vida era um palco iluminado / Eu vivia vestido de dourado / Palhaço das perdidas ilusões…”

O diálogo musical sobrenatural foi bruscamente interrompido pelo ronco do caminhão do lixo. Dois homens desceram da rabeira do auto, pegaram o material, encheram tudo e partiram sem nada dizer. Alzira retomou a conversa com o pequeno pássaro que, a essas alturas já estava meio bebinho, zonzo, lelé.

— Você sempre bebeu assim?

— Só quando estou triste ou quando encontro um ser humano que vale a pena beber.

— Ok, recebo isto como um elogio cheio de delicadeza. Grata.

¬— Nada, é a realidade, Alzira. Muito bem, mas o Sol está saindo por detrás do Morro da Pedra do Urubu. Preciso ir, meio tempo deu por agora.

— Sim, eu também tenho que continuar pela estrada e completar a Trilha do Vale da Utopia; hoje eu sei que irei conseguir.

— Claro que conseguirá! Vai cantando e pensando no nosso papo. Obrigado, minha amiga… posso te chamar de “minha amiga”, não?

— Sim, claro que sim, “meu amigo de penas, asas e alma de passarinho bêbado”.

Passaram-se os anos e Alzira retornava sempre pela Estrada do Cumbatá, mas jamais encontrou novamente o pequeno pássaro. Na vida, os encontros sobrenaturais são raros e iluminados.

Alzira jamais esqueceu a voz grave dele, em primeiro tom, segurando o dueto nas canções e até deu um nome especial ao amigo eterno: AMOR!

……………………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista, músico e pesquisador de passarinhos, Alziras e estradões. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.