Arrebatamento
O pastor Damasceno era um conservador dos mais cascudos
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O pastor Damasceno, neopentecostal de carteirinha, era um conservador dos mais cascudos. Ferrenho defensor da ordem estabelecida, vociferava contra o novededos e o governo do PT, recusava-se a ouvir intérpretes como Chico Buarque e Caetano, “comunas de quatro costados”, e morria de saudades do Bozo. Quer dizer, nada de muito diferente dos malafaias da vida – os pastores e bispos milionários que frequentam as manchetes dos jornais.
Um ponto, porém, singularizava Damasceno: ele acreditava sinceramente que o Apocalipse estava próximo. Se houvesse um abalo sísmico chinfrim no Japão, meros 2.2 na escala Richter dos terremotos (o maior registrado, no Chile, em 1960, alcançou 9,5), no dia seguinte ele berrava aos fiéis:
– Viram? Não falei? É o Senhor abalando a Terra! Logo vão soar as trombetas! O fim dos tempos está próximo, aleluia!
Mas antes viria o evento sobrenatural de sua predileção: o Arrebatamento (com A maiúsculo). Sabia de cor os versículos da Bíblia que mencionavam a coisa; um de seus prediletos era Hebreus 11:5:
Pela fé, Enoque foi levado, de modo que não experimentou a morte (…). Pois, antes de ser levado, recebeu testemunho de que tinha agradado a Deus.
Ele, Damasceno, não tinha a menor dúvida, havia agradado a Deus; com certeza, ele e os demais cidadãos de bem seriam levados para o céu em vida, sendo poupados das atribulações que recairiam sobre os pecadores – o restante da tigrada. Fanático por futebol, Damasceno pensava na coisa como uma espécie de minutagem divina: o técnico (Deus) tira do campo os mais valiosos jogadores para preservá-los para embates futuros. Ele estava na lista, tinha convicção disso, e não dava a mínima se, depois, o time dos pernas de pau – a espécie humana, sem os melhores atletas – iria perder de goleada. Também cagava e andava para o impacto imediato da saída de campo: automóveis, ônibus e trens desgovernados de um momento para o outro, chocando-se com outros veículos, e por aí vai. “Bem feito”, pensava. “Se os acidentados, no Brasil, fossem homens e mulheres de bem e não um bando de petistas ou coisa pior, também tinham subido”.
Certo dia, ele estava no escritório do templo, contando os dízimos que haviam entrado na semana anterior, quando o obreiro Ariovaldo se aproximou, gaguejando de nervoso:
– Pas..pastor, o arre…arrebatamento…
– Que foi, Ariovaldo?
– O arrebatamento. Acon… aconteceu mesmo!
– Conta tudo!
Nesse momento, o pastor experimentou uma sucessão de sentimentos contraditórios. Primeiro, ultraje: como arrebatamento dos justos, se ele continuava aqui? Depois, alegria reverente por ser quase testemunha de um milagre e ter uma missão a cumprir: o técnico com certeza o deixara em campo para não desfalcar demasiado o time. Mais calmo, perguntou:
– Quantos foram arrebatados, Ariovaldo? No máximo, algumas centenas de milhões, mais provável dezenas de milhões. Sobraram muitos pecadores para salvarmos – e deu um risinho.
– Um.
– Um o quê, Ariovaldo?
– Um só. Apenas um foi arrebatado. O papa.
– O papa? Da igreja católica? Leão XIV, aquele comunistinha, sucessor do papa Francisco, o comunistão?
– Esse mesmo. Está em todos os noticiários da TV e do rádio.
– Papa-asno, burro, porco, mentiroso, blasfemo, anticristo, chefe de uma igreja de prostitutas e hermafroditas; os atos pontifícios são escritos com a merda do diabo e selados com os peidos do papa!
Ariovaldo ouvia, consternado, os xingamentos dirigidos a Leão XIV. Diatribes imerecidas, pois ele, afinal, agradava ao senhor – tanto que fora arrebatado e iria, agora, trocar figurinhas com seu parça Enoque no paraíso. Mas, na verdade, o pastor estava xingando o papa indiretamente, por interposta pessoa: limitava-se a citar as ofensas dirigidas a outro Leão, o décimo, por Martinho Lutero, impulsionador da Reforma protestante e, com isso, ancestral enviesado das denominações neopentecostais, entre elas a de Damasceno. Só que o obreiro não sabia nada disso, o único Martinho que conhecia era o da Vila – e sem intimidade, que a igreja achava que samba era criação do demo.
O pastor acompanhou, pela TV, o vídeo da ascensão do papa; e também, fazendo caretas de ódio impotente, a zoeira dos católicos com os evangélicos. Gozações que partiam basicamente dos segmentos conservadores do catolicismo, pois católicos e evangélicos progressistas se uniam na luta em defesa dos pobres contra azelites e uzmercadus. Para eles, arrebatamento, nem pensar: o campo de batalha era este mundo, aqui e agora.
Diga-se que a alegria do catolicismo conservador durou pouco: gravações da subida de Leão XIV ao céu mostravam-no rosnando – em inglês, sua língua natal, não em espanhol, sua segunda língua, ou italiano e muito menos em latim – as seguintes palavras:
– Stop this fucking rapture! I want to stay here!
Uma tradução selvagem, para o português, poderia ser:
– Parem com essa porra de arrebatamento! Quero ficar aqui!
O que mostra que o bispo de Roma não conhecia a Bahia e, muito menos, Quero voltar pra Bahia, obra-prima do cancioneiro brazuca, de autoria de Paulo Diniz. Se conhecesse, subiria batucando em uma caixa de fósforos e citaria o último verso do refrão – nada difícil pra ele, pois na canção o verso está em inglês e, por essa razão, não será traduzido aqui – com um pequeno acréscimo, só a palavrinha and (e):
– Stop this fucking rapture! I want to stay here. And I want to go back to Bahia!