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O lado B da Literatura

O poeta esquecido em Santo Antônio da Encruzilhada

Publicado

Sepultura de Joaquim Dias da Rocha Filho em cemitério de Vila Salutáris, com cruz de pedra, livro aberto e símbolos poéticos.
Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Foto de Arquivo

Quem se distancia do núcleo urbano inicial da cidade de Paraíba do Sul, no centro-sul do Estado do Rio de Janeiro, e vai a caminho da localidade de SantAna de Sebolas, hoje Inconfidência, antigo arraial no qual o alferes Tiradentes pregara suas ideias anticolonialistas e, por isso, escolhido pela coroa portuguesa para a exibição de um de seus quartos após o ignominioso episódio da forca, passa, ao meio do caminho, por Santo Antônio da Encruzilhada dos Pobres, hoje chamada de Vila Salutáris. A quase uma légua da igreja imperial, encontra-se o pequeno cemitério onde repousa Joaquim Dias da Rocha Filho.

Curitibano, nascido em 18 de agosto de 1862, Dias da Rocha Filho passou parte decisiva da vida no Rio de Janeiro e em Paraíba do Sul. Seu pai, o médico Joaquim Dias da Rocha, teve presença na vida política e administrativa do Paraná. O filho, porém, cresceu entre a cidade fluminense e a capital do país.

Estudou no Colégio Abílio, no Rio, ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha e abandonou a carreira das armas. Seguiu então para São Paulo, onde se bacharelou em Direito, em 1886. Nos círculos acadêmicos, aproximou-se das ideias abolicionistas e republicanas, ao mesmo tempo em que publicou versos e textos em jornais paulistas e fluminenses.

Sua trajetória profissional não foi exclusivamente literária. Foi promotor público em Paraíba do Sul, exerceu a advocacia e atuou como delegado de polícia na Capital Federal e em Niterói. A imprensa de seu tempo registrou uma produção intensa, dispersa entre artigos, poemas, traduções e estudos históricos. Traduziu Byron, publicou o romance O Vestido Carmesim e deixou inéditos trabalhos jurídicos e históricos.

Casado com Isabel Bezerra desde 1887, Dias da Rocha viveu os últimos anos entre Juiz de Fora e Paraíba do Sul. Em janeiro de 1895, já muito debilitado, anunciou que voltaria à cidade fluminense para convalescer no sítio de seus sogros. Morreu poucos dias depois, em 1º de fevereiro, sem chegar a reunir em livro parte importante de sua produção poética.

Uma notícia publicada após sua morte informou que ele deixara pronto um volume de versos com o título Musgos e Lichens. No cemitério de Santo Antônio, a lápide conserva a memória dessa vocação. Ao pé da cruz decorada com ramos de flores, há uma lira, uma pena e um livro aberto. Nele se lê o quarteto de um soneto:

Da minha infância os descuidados dias
Aqui passei contente e sossegado
Quero dormir quando tombar gelado
Ao pé daquelas árvores sombrias

É uma sepultura modesta, mas não banal. Ela marca o ponto final de uma vida que passou pela poesia, pelo direito, pela imprensa, pela polícia e pela história. Dias da Rocha Filho dá nome a uma rua em Curitiba e a outra em Copacabana. Mas é em Paraíba do Sul, longe das placas urbanas e dos roteiros literários, que permanece seu vestígio mais direto: um poeta quase esquecido, enterrado sob a inscrição de seus próprios versos.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário, de Notibras, é fundador da Editora Fava e autor de A Verdade nos Seres, Território do Sonho e Jardim Secreto, no prelo. @prof.danielmarchi

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