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Panela de pressão

O preço do arrependimento

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Valdir complementava a aposentadoria com o que raramente pintava. Desencapava fios e mais fios atrás do cobre, que era vendido aos quilos; capinava um lote ou outro; trabalhava de garçom em festas de crianças, casamentos e confraternizações. A despeito dessas atividades, o senhor tinha apreço por panelas de pressão.

— Vai mesmo jogar fora, dona Anísia?

— Comprei uma elétrica. Muito mais prática.

O homem deixou de lado qualquer resquício de orgulho e tratou de pegar a panela rejeitada. Era nítido que a pobrezinha já havia se envolvido com muito feijão, canjica, milho e aipim. Gasta além da conta, não importava, Valdir a acolheu em seus braços e a levou para o seu pequeno apartamento.

— Aurora. Hum… Não! Genoveva parece combinar melhor com você. Vou colocar essa borrachinha aqui e você vai poder cozinhar muito ainda. Vai ser disputada a tapas.

A panela de pressão, talvez encabulada, não quis responder ao idoso. Seria louco? Mais provável que aquilo fosse apenas solidão.

— Coitadinha, está tristinha? Logo, logo você faz amizade com a Flora, a Felícia, a Marta e a Jurema. Se você tivesse chegado há duas semanas… Mas deixa estar, minha querida, que aqui é tudo gente boa. Então, sinta-se à vontade.

Nova ausência de fala, a Genoveva talvez fosse muda de nascença.

Como previsto, bastou um banho de loja para que a Genoveva fosse mote de disputas ferrenhas. E lá estavam a Mirtes, a Honorata e a Lourdes dando os lances.

— Trinta reais, seu Valdir.

— Pois eu dou cinquenta agora mesmo. Não peço fiado, isso é coisa da Lourdes.

— Coisa minha? Eu pago é com Pix, minha filha!

— Pois quero ver! Tu deve o Zé da feira há mais de mês que eu tô sabendo.

Enquanto as três mulheres não entravam em acordo, apareceu a dona Anísia, que há pouco mais de mês havia jogado aquela panela de pressão no lixo. Ela chegou de mansinho e depositou uma nota de cem no bolso da camisa do Valdir. O sujeito sorriu e devolveu a Genoveva à senhora.

Não se sabe exatamente o motivo que fez a dona Anísia se arrepender de ter jogado fora a sua antiga panela de pressão. Há boatos, e talvez nenhum seja totalmente verdadeiro. Dizem que a panela elétrica queimou e, também, há a versão de que a comida ficou sem gosto. O certo mesmo é que o Valdir tem sido visto na casa da mulher nos finais de tarde, quando o cheiro inconfundível de milho cozido toma todo o bairro. Milho cozido e amor.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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