Uma aventura em Évora
O professor e os alunos
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Eu ficaria com uma turma do 4º ano e outra do 5º, ensinando, respectivamente, Sociologia do Desenvolvimento e Sindicalismo. Para esta última não havia problema: eu escrevera, na pós-graduação brasileira, um paper em que abordava ideias de Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo e Gramsci, somando-as à organização sindical e aos movimentos sociais do proletariado europeu nas décadas de 1900 a 1930. O texto mereceu elogios e eu, todo pimpão, levei-o comigo para a Europa. Foi só xerocar o documento, distribuir cópias entre os alunos e encomendar seminários e discussões sobre os diversos tópicos. Este texto foi depositado na Biblioteca de Évora, bem perto da Escola do Caraça – era como meus alunos designavam a alma mater, por motivos óbvios.
Para Sociologia do Desenvolvimento, porém, o buraco era mais embaixo. Eu não tinha livros sobre o assunto, nem grana para comprá-los. Afinal, meu pouco dinheiro era para cigarros, muito álcool, comida barata, tomar o Metro (metrô) de Amadora, onde eu morava com um casal de amigos, até o centro de Lisboa, onde tudo acontecia. E também para jornais, obrigatórios, e um eventual hotel quando eu tinha companhia feminina. Sem outro recurso, entrei na Livraria Luso-Brasileira (acho que o nome era esse), peguei o livro Sociologia do Desenvolvimento, da Zahar, e saí na maior cara de pau. Ninguém me perseguiu, os deuses protegem professores iniciantes.
Veio então a preparação das aulas. Eu não tinha experiência e muito menos didática, então cronometrei minha exposição, os momentos de introduzir piadas para tornar mais leve a coisa e por aí foi. Tive a ideia de explorar uma fórmula de Lênin – socialismo = poder dos sovietes + eletricidade – e compará-la aos projetos desenvolvimentistas latino-americanos e portugueses, que enfatizam a eletrificação e outras políticas, mas se omitem na questão do poder de classe. Em outras palavras, não se encontram por aí fórmulas do tipo capitalismo = poder da burguesia + eletricidade. Daí ser possível criticar, pela esquerda, as políticas dos generais dos cravos, também omissos quanto a esse poder. Era assim que se pensava na época, e olhem que meu côté trotskista me tornava mais sofisticado e flexível que os comunistas casca grossa.
Na véspera de meu début professoral, saí com uma turma para festejar. No final, quando eu, bebaço, me dirigia ao Metro, tropecei e senti uma dor lancinante no pé esquerdo. Aparentemente, ele estava quebrado, o que me imobilizaria em Lisboa. Mas desistir de Évora, nem pensar. Repeti para mim mesmo que era apenas uma entorse – e por sorte era mesmo, senão meu pé teria gangrenado –, manquitolei até o Metro e fui para Amadora, gemendo que nem alma penada. No dia seguinte, eu estava na Escola do Caraça, com o pé super inchado, pronto a enfrentar minha primeira turma.
Foi um sucesso, na minha enviesada opinião. Escrevi na lousa a fórmula leninista, os alunos copiaram, quebrei a tensão com observações divertidas nos momentos previstos, os alunos riram, discuti a questão do poder de classe, os alunos, sérios, pareceram concordar. Cumpri o cronograma até o último segundo. Meses depois, soube que, devido ao meu sotaque brazuca, eles não entenderam pissirongas, mas eram educados demais para me pedir que repetisse algum ponto ou que falasse mais devagar.
Alguns momentos dessa primeira aula são inesquecíveis. Uma aluna do 4º ano se encantou comigo, invadiu minha aula pro 5º ano e me encarou o tempo todo, embevecida. Chamava-se Antónia e era uma alentejana típica, meio feia, mais forte do que gorda. Meses depois, minha futura ex-mulher foi comigo até Évora e assistiu às minhas aulas. Antónia bufava de ódio. Se olhar matasse, haveria uma filósofa brasileira a menos no mundo.
E, finalmente, veio a confraternização com os alunos, todos sentados nas pedras gastas do templo romano. Os alentejanos eram maioria, mas havia rapazes e moças de todo o país, de Trás-os-Montes ao Algarve. Convenci-os a não me chamar de Sr. Professor Dr., apenas de professor, ou de Carlos, ou de Eduardo, ou de Carlos Eduardo ou de Cadu. E instiguei-os a entoar os lindos cantares alentejanos. Muitos deles achavam cafona, preferiam MPB ou rock, mas eu recebia uma Antónia rápida e ficava embevecido, ouvindo-os.
Entre uma toada e outra, paqueras e discussões políticas não cessavam. Os primeiros a se aproximar foram dois transmontanos que se diziam anarquistas, o Rato e o Bica (não lembro seus primeiros nomes). Vinham de aldeias conservadoras do Norte, e o anarquismo deles, a meu ver, era um recurso para continuarem a se opor a comunistas e socialistas. Mas havia um professor libertário, de ideias enraizadas e fino senso de humor, com quem tive divertidas discussões políticas. Claro que não lembro seu nome.
Simpatizante trosco, eu até tentei catequisar a moçada, no melhor estilo Escola com Partido – algo prejudicado por eu não ser militante de um partido nem em Portugal nem no Brasil –, mas não converti ninguém. Nem Antónia, que dava mostras ostensivas de querer abraçar as ideias de Lev Davidovitch, desde que pudesse também abraçar meu frágil corpinho. Pobre Antónia! O máximo de intimidade que tivemos foi um jantar no Fialho, um restaurante chique de Évora. Depois alguns alunos me felicitaram por ter comido apenas o jantar, não Antónia, mas outra coisa seria abuso, e dos grandes.
Minhas tentativas de proselitismo não tinham muita convicção. Em Lisboa eu participava de intermináveis discussões, escrevia artigos políticos às vezes publicados na imprensa próxima ao trotskismo, bebia porradas de imperiais no Rossio e tentava transar adoidado. Eu me sentia livre, leve e solto; meu casamento, de papel passado, tinha subido no telhado e se inclinava perigosamente na beirada, balançando as perninhas. Já em Évora, bastavam-me o templo romano e os cantares.