Ecce Homo
O que há por trás da obra ‘Homem Vitruviano’, de Leonardo da Vinci
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Eis um homem! O “Homem Vitruviano”, de Leonardo da Vinci, é uma obra que fascina, repleta de simbolismos e camadas de significados. Não se trata apenas de uma representação anatômica, mas pode ser lido como um mapa alquímico-cósmico e um manual de transmutação para aqueles que possuem olhos para ver. À primeira vista, é uma ilustração magistral da proporção humana e da busca pela perfeição estética. Para o olhar profano é um triunfo da arte e da ciência renascentista.
Contudo, para o ocultista, esta imagem transcende em muito sua superfície. É um Grimório visual, uma mandala de poder e um mapa astrológico/alquímico que revela os segredos da criação, da divindade imanente no homem e do caminho da transmutação espiritual. Manterei o ser humano como a base da interpretação ocultista do Vitruviano dentro da máxima hermética: “Assim como é em cima, é embaixo; assim como é dentro, é fora.”
O homem, com seus braços e pernas estendidos no círculo e no quadrado, não é apenas um corpo físico, mas um microcosmo, um universo em miniatura que reflete as leis e as forças do macrocosmo. O Círculo (Céu/Espírito), representa o divino, o ilimitado, o infinito, o espiritual e o etéreo. No ocultismo, o círculo simboliza a totalidade, a perfeição, a unidade primordial. O homem inserido no círculo é um lembrete de sua origem divina, sua centelha espiritual, e sua conexão com o cosmos. Ele é um ser de luz e consciência. O Quadrado (Terra/Matéria), representa o mundo material, o físico, o finito, os quatro elementos (terra, água, ar, fogo), as quatro direções e a manifestação tangível. O homem no quadrado é o ser encarnado, sujeito às leis do mundo físico, com suas limitações e desafios.
A coexistência do humano nesses dois estados, no círculo e no quadrado, não é uma contradição. É a síntese alquímica, a união dos opostos. O Vitruviano nos mostra que o ser humano é a ponte entre o céu e a terra, o espírito e a matéria. Ele é o ponto de encontro onde o divino se manifesta no material e o material pode ser elevado ao divino. A Proporção Áurea e a Geometria Sagrada são as linguagens da Criação, cujo alfabeto é a matemática. Provavelmente, Leonardo não escolheu as proporções ao acaso. O Vitruviano é um estudo da Proporção Áurea (séc. III a.C.) e da Sequência de Fibonacci (séc. XIII), princípios que a geometria sagrada utiliza e considera como a linguagem fundamental da criação. São, no mínimo, 16 séculos entre elas. Essas proporções são encontradas em toda a natureza.
Para o ocultista, a Proporção Áurea não é apenas esteticamente agradável; é a assinatura da divindade representando a harmonia, o equilíbrio e a beleza intrínseca do universo. Ao estudar e meditar sobre essas proporções no Vitruviano, o praticante busca sintonizar-se com essa harmonia cósmica, alinhando seu próprio ser com a ordem divina. A centralidade do umbigo como o ponto de origem tanto para o círculo quanto para o quadrado é crucial. O umbigo é o nosso primeiro ponto de conexão com a vida, o cordão umbilical que nos liga à fonte. No ocultismo, ele pode ser interpretado como o centro energético do ser, o ponto de onde a vida irradia e onde a energia vital se concentra antes de ser distribuída.
O Vitruviano é, em essência, um diagrama da arquitetura do ser humano. Vitrúvio, arquiteto romano, acreditava que as proporções do corpo humano deveriam orientar a construção de templos. Leonardo, e por extensão o ocultismo, inverte essa perspectiva e o corpo humano passa a ser “o templo”. Cada parte, cada proporção do Vitruviano, é um componente desse templo sagrado. O ocultista vê o corpo não como uma mera carcaça, mas como um veículo sagrado e receptáculo para a consciência divina. Suas proporções ideais sugerem um corpo em estado de equilíbrio e harmonia metafísicos, o que é essencial para a prática de rituais, meditação e para a elevação da consciência.
A busca pela “perfeição” vitruviana não é uma vaidade física, mas uma aspiração do espírito. Significa alinhar os chakras, equilibrar os fluxos energéticos e purificar os corpos físico, etérico, astral e mental, para que o templo interno possa refletir a glória do divino. Provavelmente, o cerne da importância ocultista do Vitruviano talvez resida na representação da “Quadratura do Círculo”, um dos símbolos mais profundos da alquimia e da busca esotérica. Ela representa o desafio místico de reconciliar o espírito (círculo) com a matéria (quadrado), o infinito com o finito, o transcendental com o imanente. Não se trata de uma impossibilidade geométrica, mas de um processo alquímico de transmutação. Leonardo, ao sobrepor figuras geométricas, demonstra que essa quadratura não é apenas possível, mas inerente à condição humana. O homem é o agente dessa reconciliação. Ele é o “Mercúrio” alquímico, o catalisador que une os opostos. Na jornada alquímica (a Grande Obra), a transformação do chumbo (o ego inferior, a matéria bruta) em ouro (a consciência divina, o espírito purificado) é um dos objetivos.
O Vitruviano é um mapa deixado por Da Vinci, onde reside o lembrete “o homem deve primeiro se estabelecer firmemente no quadrado ao dominar o mundo material e suas paixões, para então expandir-se para o círculo e acessar sua natureza espiritual superior”. A mudança das posições dos braços e pernas entre o quadrado e o círculo não é arbitrária. Ela sugere movimento e transformação. O homem não está estático, mas, em um processo contínuo de evolução, expandindo sua consciência e transcendendo suas limitações. A postura no quadrado pode ser vista como a “Terra” ou “Malkuth”, enquanto a postura no círculo, com os braços estendidos, evoca uma conexão com esferas superiores, como “Kether” ou a “Coroa” na Cabala. Em última análise, é uma poderosa declaração sobre a divindade inerente à humanidade. Não é apenas um homem, mas a totalidade da criação. Para o ocultista, esta imagem é um lembrete vívido de que cada ser humano possui uma centelha divina, um potencial para a iluminação e para a união com o Absoluto.
O objetivo do estudo do oculto é despertar e manifestar essa divindade interior. Leonardo, através do Vitruviano, nos convida a olhar para nós mesmos não como seres separados e fragmentados, mas como partes integrais de um todo cósmico, uma egrégora terena que transcende a matéria, capaz de cocriar e de manifestar a vontade divina na Terra. Ele é um convite à autorrealização, à descoberta do Deus interior. “Ecce homo”, em seu estado potencial de divindade, o ponto de convergência do espírito e da matéria, o mapa para a transmutação interior. Ele nos ensina que a perfeição não é um ideal inatingível fora de nós, mas uma realidade a ser despertada e manifestada de dentro. Ao contemplar o Vitruviano, o ocultista não apenas admira uma obra de arte, mas se vê refletido em um espelho cósmico, um guia para a sua própria ascensão e para a realização da sua verdadeira vontade. Assim é.
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Marco Mammoli, Mestre Conselheiro e membro do conselho do Colégio de Magos e Sacerdotisas. Você pode entrar em contato com o Colégio dos Magos e Sacerdotisas através da Bio, Direct e o Whatsapp: 81 997302139.