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Frustração masculina

O que os homens fazem quando estão chateados?

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Durante muito tempo, me perguntei o que os homens fazem quando estão chateados. A pergunta não nasce da curiosidade banal, mas da observação cotidiana. Entre mulheres, o sofrimento costuma ganhar contornos conhecidos: silêncio, choro, comida reconfortante, filmes tristes, conversas longas tentando entender onde tudo deu errado. A dor, ainda que mal acolhida socialmente, costuma ser vivida para dentro.

Com o tempo, porém, a resposta foi se impondo de forma incômoda. Muitos homens, quando frustrados, contrariados ou emocionalmente feridos, não se voltam para si. Voltam-se contra o outro. Mentem, traem, bloqueiam, humilham, agridem e, em casos extremos e recorrentes demais para serem tratados como exceção, matam.

Isso não é uma afirmação moralizante, mas sociológica. A forma como homens e mulheres aprendem a lidar com a dor não é natural: é construída. Desde cedo, mulheres são socializadas para suportar, compreender, justificar e internalizar conflitos. Homens, ao contrário, são ensinados a negar a vulnerabilidade e a converter frustração em poder, controle e violência. Como argumenta Pierre Bourdieu, a dominação masculina não se sustenta apenas por estruturas externas, mas por disposições incorporadas que moldam afetos, gestos e reações.

Quando um homem sofre, raramente lhe foi ensinado a nomear a dor. O que lhe foi permitido é reagir. E reação, numa cultura que associa masculinidade à força e à posse, frequentemente se traduz em agressividade. Não é por acaso que os índices de violência doméstica, feminicídio e agressão sexual crescem justamente em contextos de ruptura, rejeição ou perda de controle. A violência não nasce do amor, mas da frustração diante da autonomia do outro.

A sociedade insiste em chamar esses atos de “loucura”, como se fossem desvios individuais, surtos momentâneos, exceções trágicas. Ao fazer isso, transforma crime em patologia e absolve a estrutura que o produz. Michel Foucault já alertava para esse mecanismo: medicalizar a violência é uma forma eficiente de despolitizá-la. O agressor vira um caso isolado; a cultura que o formou permanece intacta.

Enquanto isso, mulheres seguem sendo ensinadas a elaborar a dor sem fazer barulho, a sofrer sem incomodar, a se reconstruir em silêncio. Quando adoecem, são frágeis. Quando denunciam, exageradas. Quando morrem, estatística. A assimetria não está apenas no ato final da violência, mas na forma como cada gênero é autorizado ou não a sentir.

Perguntar o que os homens fazem quando estão chateados é, no fundo, perguntar que tipo de sociedade estamos produzindo. Uma sociedade que permite que a dor masculina se transforme em ameaça coletiva e que exige que a dor feminina seja sempre contida, elegante e silenciosa.

Talvez o problema nunca tenha sido o brigadeiro com sorvete ou os filmes de sofrimento. Talvez o problema seja termos normalizado que alguns aprendam a sofrer para dentro, enquanto outros aprendem que a dor lhes dá direito de ferir.

E nenhuma sociedade sobrevive ilesa quando transforma frustração em violência e chama isso de normalidade.

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