Longe dos olhos
O Que Se Diz Quando Nós Não Estamos
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Se nós soubéssemos o que é dito na nossa ausência, talvez não sorríssemos para tanta gente. Não por amargura, mas por lucidez. Existe uma ingenuidade social que nos ensinaram a cultivar: a de acreditar que cordialidade é sinônimo de lealdade, que convivência é o mesmo que respeito, que presença garante verdade.
Mas nós aprendemos quase sempre tarde que a ausência revela mais do que qualquer proximidade. É quando saímos da sala que os discursos se reorganizam, que as máscaras caem, que a ética se mostra frágil. Hannah Arendt já nos alertava que o mal nem sempre é barulhento; muitas vezes ele se manifesta em conversas banais, em comentários ditos “sem intenção”, em risos cúmplices que só existem quando o outro não está.
Nós crescemos acreditando que o afeto se prova no olhar direto, mas esquecemos de observar o que se constrói nos bastidores. O que se diz quando não estamos ali diz muito menos sobre nós e muito mais sobre quem fala. Ainda assim, dói. Porque ninguém atravessa ileso o momento em que percebe que foi assunto, julgamento ou chacota enquanto oferecia presença sincera.
Há uma pedagogia da convivência que ninguém nos ensinou: nem todo sorriso é pacto, nem toda mesa é abrigo. Zygmunt Bauman já dizia que as relações líquidas permitem vínculos frouxos, fáceis de descartar, fáceis de trair. Nesse cenário, falar pelas costas se torna quase um hábito social um exercício de poder pequeno, mas constante.
Nós não deixamos de sorrir porque nos tornamos frias. Deixamos de sorrir porque aprendemos a selecionar. Porque entendemos que preservar-se também é um gesto político. Audre Lorde nos lembra que não somos obrigadas a oferecer nossa energia a quem nos corrói em silêncio. Gentileza não exige submissão, e maturidade não exige cegueira.
Saber que falam de nós não nos torna menores. Pelo contrário: nos torna mais atentas. Começamos a perceber quem muda de tom quando chegamos, quem silencia quando estamos presentes, quem se incomoda com nossa existência sem nunca nos enfrentar diretamente. E isso ensina. Ensina a colocar limites, a reduzir acessos, a escolher melhor quem merece proximidade.
Nós seguimos sorrindo, sim, mas com consciência. Não porque ignoramos o mundo, mas porque aprendemos a lê-lo. E talvez essa seja uma das maiores viradas da vida adulta: entender que não precisamos ser queridas por todos, apenas íntegras conosco mesmas.
Se este texto alcançar alguém que anda desconfiando demais, sentindo demais, percebendo demais, deixamos um lembrete coletivo: não é paranoia, é amadurecimento. Nem todo afastamento é perda. Às vezes, é apenas clareza.
E clareza também é cuidado.