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Anos 1940

O relógio que não trabalhava

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Era nos anos 1940, nas serras de Minas, onde as estradas de terra vermelha cortavam fazendas esquecidas. Seu Manuel, um viúvo de cinquenta anos, recebeu uma carta de um tabelião: herdara a casa do tio-avô, o coronel Ramiro, morto havia três meses sem deixar herdeiros diretos. “Vá logo”, dizia o advogado. “A casa está caindo aos pedaços, mas ainda tem valor.”

Manuel chegou ao fim da tarde, com uma mala velha e o coração pesado. A casa grande, de taipa e telhado de sapé, ficava no alto de um morro, cercada por um pomar de laranjeiras secas. O caseiro, um homem calado chamado Juvenal, entregou-lhe as chaves e avisou com voz baixa:

— O quarto do coronel fica no fim do corredor. Não mexa no relógio de parede. Ele… gosta de funcionar sozinho.

Manuel riu. Achou que era superstição de gente do interior. Acendeu o lampião, preparou um café no fogão a lenha e foi se instalar no quarto principal. Na parede oposta à cama de jacarandá, pendia um relógio antigo de carrilhão, com números romanos e um pêndulo de bronze. Parado.

Os ponteiros marcavam exatamente 3h17.

Na primeira noite, dormiu mal. Sonhou com passos no corredor. Acordou suado e ouviu, nítido no silêncio: tic-tac… tic-tac… O relógio estava funcionando. Consultou o próprio relógio de bolso: eram 3h17 da madrugada.

No dia seguinte, perguntou a Juvenal. O caseiro apenas deu de ombros:

— O coronel morreu às 3h17. Desde então, o relógio só bate nessa hora. Às vezes mostra coisas.

Manuel não acreditou. Era relojoeiro de profissão; desmontou o mecanismo com cuidado. Tudo normal. Engrenagens limpas, sem sinal de que funcionasse sozinho. Tornou a montar e deixou parado.

Na segunda noite, o tic-tac voltou. Mais alto. Manuel acendeu o lampião e viu o pêndulo balançando. Levantou-se devagar, o coração acelerado. Ao se aproximar, notou algo estranho: o reflexo do vidro do relógio não mostrava o quarto vazio. Mostrava uma figura de costas, vestindo a mesma camisa que Manuel usava naquele momento. Mas a figura estava parada no meio do quarto… enquanto ele próprio estava diante do relógio.

Ele se virou rapidamente. Nada. O quarto continuava vazio.

Na terceira noite, o suspense apertou. Manuel decidiu ficar acordado. Sentou-se na cadeira de balanço com a espingarda no colo. Às 3h10 o ar ficou gelado, como se alguém tivesse aberto uma porta invisível. O relógio começou a funcionar sozinho. Tic-tac. Tic-tac. Cada batida ecoava como um passo.

Às 3h17 em ponto, o carrilhão tocou sete vezes — número que não correspondia à hora. E então, do fundo do espelho do relógio, surgiu o rosto do coronel Ramiro. Olhos fundos, barba branca, expressão de quem carrega um peso antigo. Os lábios se moveram, e Manuel ouviu a voz dentro da própria cabeça:

— Eles me mataram aqui. Meu filho e a mulher dele. Veneno no café. Enterraram meu corpo no pomar, debaixo da laranjeira torta. O relógio foi minha última testemunha.

Manuel sentiu o suor frio escorrer. Tentou se levantar, mas o corpo não obedecia. O rosto no relógio sorriu com tristeza:

— Você é do meu sangue. Só você pode me tirar daqui. Cave debaixo da árvore. E não confie em Juvenal.

O relógio parou. O silêncio voltou, pesado como terra molhada.

Na manhã seguinte, Manuel, pálido e decidido, pegou uma enxada e foi ao pomar. Juvenal apareceu de repente, com um sorriso estranho:

— Procurando alguma coisa, seu Manuel?

— Só dando uma olhada respondeu, tentando disfarçar o tremor na voz.

Cavou durante horas.

Ao entardecer, a enxada bateu em algo duro. Ossos. Um crânio com um buraco na nuca. Ao lado, restos de uma corrente de ouro com as iniciais R.S. Ramiro Silva.

Quando Manuel se virou, Juvenal estava atrás dele, segurando uma faca de cozinha.

— O velho te contou, não foi? — disse o caseiro, olhos apertados.

Eu ajudei o filho dele. A casa era pra ser minha.

O vento soprou forte. Nesse exato momento, da casa, veio o som claro do carrilhão tocando 3h17 mesmo sendo seis da tarde. Juvenal olhou para a casa, distraído por um segundo. Manuel aproveitou e acertou-lhe a enxada na mão. A luta foi curta. O caseiro caiu, ferido.

A polícia, chamada da vila mais próxima, confirmou tudo dias depois.

O filho do coronel, que morrera anos antes em circunstâncias estranhas, tinha sido o mandante. Juvenal era cúmplice.

Manuel nunca mais dormiu no quarto do relógio.

Mas toda noite, às 3h17, o carrilhão ainda toca sete vezes — agora como um agradecimento. E no vidro, às vezes, aparece o reflexo do coronel sorrindo, antes de desaparecer para sempre.

Algumas heranças não vêm só em dinheiro.

Vêm em mistérios que só o sangue pode resolver.

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