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Um dia fresco de setembro

O resgate do meu eu, na montanha

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

Um dia fresco de setembro, um belo grupo de mulheres, livros, café, quitutes, bolos e uma infinidade de receitas diferentes. A conversa gostosa, a troca de experiências, aqueles momentos de choro, gargalhadas, emocionantes, repletos de aprendizados e trocas … muito comuns quando mulheres se reúnem.

Eu e a proprietária do local conduzíamos o encontro com carinho e com a alegria de estar promovendo um debate literário, além do empreendedorismo e apoio feminino. Após quatro horas de encontro, chegamos ao encerramento e, com abraços, nos preparávamos para a despedida.

Uma conhecida, que não era tão próxima, disse:

— Ela é tão calma, tem uma voz tão meiga e uma paciência… Dá vontade de ficar aqui ouvindo ela o dia inteiro, ela transmite paz.

Ao meu lado, uma amiga íntima sorriu e disse:

— É porque ela não te conhece, não sabe o quanto inquieta você é, as montanhas que você sobe, a sua agitação.

Sorri de volta:

— É por isso que sou calma. Minha energia é externa, gasto tudo e por dentro fico em paz.

Rimos.

Foi uma resposta real, mas eu não tinha pensado na profundidade e na verdade que aquela conversa continha. Por uns três anos, esse diálogo me acompanhou; vez ou outra me peguei pensando sobre aquele momento de descontração, sobre realmente estar em paz por dentro.

A vida toma seus rumos e temos que lidar com problemas com frequência. Resolvemos um e outro surge; vamos nos modificando, readaptando, mudando, mas nossa essência está lá.

Me vejo em um desses momentos em que a paz interna está sendo testada. Acostumada a resolver tudo e não deixar nada para depois, a fazer acontecer, a vida me desafia a aprender a permitir que as coisas sigam seu tempo e ritmo; me obriga a enxergar que nem tudo é do meu jeito. Após meses sem aprender a permitir; entendendo que certas coisas têm a minha parte, mas também têm seu próprio tempo… fico ansiosa. Começo a perder para a vida e me lembro daquela conversa. Paro, reflito por dias e percebo: não estou sendo quem sou.

Retorno. Decido subir uma bela montanha. Preocupada, pois não vai nenhum conhecido e eu não estou bem fisicamente. Me engano: ao entrar no ônibus que nos leva até o local, há muitos conhecidos. No entanto, quem se apega a mim e se torna minha parceira de subida é uma desconhecida.

Quinhentos metros de subida, o cansaço e a fadiga se instalam e sinto: cometi um erro. São três quilômetros e meio, não vou conseguir. Minha parceira está muito à frente. Quando finalmente consigo alcançá-la, sentada com um grupo para o descanso, ela me olha e pergunta:

— Você está bem?

—Cansada, mas estou. Não sei se vou conseguir.

— Segue no seu ritmo. Se precisar parar, me avise, paro com você.

Acho que era tudo o que eu precisava ouvir.

A cada passo, eu me sentia mais próxima de mim. E quando finalmente nos sentamos no topo e eu olhei do alto a cidade, o litoral, as outras montanhas, e senti a paz que a montanha traz, eu me resgatei.

Cheguei em casa cheia de dores, é uma verdade, e me lembrei daquela conversa. A agitação de subir uma montanha, caminhar, ver o sol… É a vida gritando em mim, é o meu viver. Por isso a paz.

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Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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