Longe de mim
O retorno não é atalho
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Eu fui para muito longe de mim. Não foi uma fuga súbita, foi um afastamento lento, quase imperceptível, desses que a gente só percebe quando já não se reconhece mais. O caminho de volta é longo e estou indo a pé.
Ir a pé significa sentir o peso do corpo, o cansaço real, as pausas necessárias. Significa não pular etapas, não romantizar o processo, não fingir que dá para voltar inteira do mesmo jeito que se partiu. Há retornos que exigem lentidão porque o que foi perdido não cabe em atalhos.
Walter Benjamin dizia que a experiência verdadeira não se transmite com pressa; ela se acumula no tempo, no caminhar, no que atravessa o corpo. Voltar para si é exatamente isso: uma travessia feita de pequenas decisões diárias, muitas delas silenciosas, quase invisíveis para quem olha de fora. Não há espetáculo na reconstrução, há persistência.
A cultura contemporânea vende a ideia de superação rápida, de cura eficiente, de “dar a volta por cima” como quem vira uma página. Mas a subjetividade não funciona assim. Freud já apontava que aquilo que não é elaborado retorna e retorna com força. Por isso, o retorno a si não pode ser apressado: ele exige elaboração, escuta, tempo.
Estar indo a pé também é um gesto ético. É reconhecer os próprios limites, aceitar a fadiga, respeitar a história que me trouxe até aqui. Byung-Chul Han alerta que vivemos numa sociedade que odeia a demora, o intervalo, o silêncio. Recuperar-se, então, torna-se um ato de desobediência contra essa lógica da produtividade até da dor.
Eu estou voltando. Não inteira ainda, não rápida, não leve. Mas consciente. Cada passo reafirma que me perdi, sim, mas não definitivamente. E talvez seja isso que importe dizer a quem também anda devagar: não há fracasso em ir a pé. Há coragem.
Porque algumas distâncias só podem ser atravessadas assim.