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Sonho

O sábio e a luz

Publicado

Autor/Imagem:
Castro Oliveira - Foto Francisco Filipino

Eram três da manhã quando acordei.

Suava.

Lá fora a chuva caía.

Desesperadamente…

Com a minha mão direita alcancei uma caneta bic azul.

Depois, peguei no meu livro negro.

E comecei a anotar o meu sonho…

… Era um sítio diferente, interior.

Havia montanhas e um eco a paraíso distante ao longe.

As nuvens passavam lentas como quando vemos cisnes passando vagarosos num lago de cristal.

Deixei cair uma lágrima pelo mundo.

Vi toda a gente a sofrer na busca dos seus desejos de perfeição.

Olhei os peixes no lago.

Corriam e moviam-se em círculos procurando comida e satisfação.

O vento passava pela minha cara, calmo e triste.

Como uma música de embalar suave, ouvi uma voz.

Era uma voz que vinha de um jardim.

Dirigi-me ao jardim, calmo e contente como o canto dos pássaros nas árvores em redor.

Na entrada do jardim estavam duas colunas de mármore branco.

Passei por entre elas.

Entrei no jardim embalado por um estranho perfume de loucura.

Quis descobrir de onde vinha aquela voz amigável que me soava aos ouvidos como um fogo brando.

Olhei para uma clareira do jardim.

Havia um sereno tapete verde que se alongava e ia até ao fundo do meu olhar.

Cheirava a Primavera intensa.

Um rio corria como mel lento ali perto.

Olhei atentamente para o centro da clareira do jardim.

E vi um velho de barbas brancas lendo um livro.

Uma fonte jorrava água incandescente feita de cristal líquido.

No céu azul, havia um sol e uma lua grande.

Um casal saía de uma sauna lá ao longe.

Estavam nus e riam-se por entre as árvores esguias.

Desapareceram depois para longe levados por um som de flauta.

Aproximei-me do velho de barbas brancas.

Reparei então que estava a caminhar por cima de livros.

A cada passo que eu dava os meus pés pisavam livros.

Um após o outro.

Livros.

Depois reparei que quanto mais me aproximava da fonte, onde estava o velho de barbas lendo, vi que o caminho era feito de livros e que estava dentro de um labirinto sem fim feito de dias, noites, luz, escuridão, livros e vozes errantes de crianças.

Caminhei como que por dentro de um recreio numa via que serpenteava junto ao rio de mel feita somente de livros.

E nada, nada, à medida que caminhava, nada era como dantes…

Após longos dias e noites, e claros e escuros, cheguei bem perto da fonte no centro da clareira do jardim.

Lá estava o velho de barbas brancas, lendo um livro, junto à fonte que brotava águas de cristal líquido.

“Como estás?” – disse o velho, enquanto uma brisa morna me passava pela face.

“Estou bem!” – disse eu.

“Está na altura de te contar um segredo!” – exclamou o velho pousando o livro junto à fonte das águas de cristal líquido.

As águas brotavam maravilhas feitas de espelhos falantes enquanto estranhas ondinas me segredavam os segredos das coisas saindo de cornucópias.

“Olha… – disse o velho,

És feito de luz!

És feito de luz.

Como aquele sol lá ao longe.” – e apontou para o sol no céu distante azul.

“Sabes,

Quando fazes atos egoístas, quando só pensas em ti,

É como se cobrisses o sol que és com cobertores.

A cada ato onde te gratificas a ti mesmo, é como se te cobrisses com cobertores.

Acabas por encobrir a tua luz…

Quando te fomos encontrar, estavas escuro como uma sombra triste.

Eras egoísta como os cães danados que rondam os bosques em busca de alimento.

Os livros que pisaste para chegar até mim, ao longo do labirinto dos dias, foram os livros que te foram lentamente tirando do teu egoísmo, da tua ignorância.

Foram esses os livros que te ensinaram os três nobres caminhos necessários para chegares até este jardim:

O caminho da busca do conhecimento e da sabedoria frutificada na rosa da experiência…

O caminho do aperfeiçoamento das tuas virtudes…

O caminho da compaixão por todos os seres vivos que te rodeiam…

Com o tempo, com o rodar do sol e das luas, foste caminhando pelo labirinto da tua vida até chegares junto a esta fonte.

Aqui está a água da vida que te vou dar.

É uma água que nunca acaba de jorrar.

Jorra e jorra e nunca mais acaba de te dar juventude.

Encontras nela, ao beberes avidamente pelos três caminhos, a tua criança interior

A criança interior que está dentro de ti…

Ela está dentro de ti num cristal de luz, no teu olhar, no teu coração, e jorra para aqueles que buscam a perfeição que vem da junção dos três nobres caminhos.

Vem.

Vou-te dizer o segredo da luz…

A luz está dentro de ti.

Para retirares os cobertores que te cobrem só há uma maneira.

Deves pegar na tua colher e dar de comer aos outros.

A colher é o teu desejo.

Quando usas a colher só para te satisfazer ficas carregado de cobertores.

Quando usas a colher para alimentares os outros encontras o paraíso na terra.

Se o fizeres constantemente os cobertores são-te retirados um a um.

Até seres luz, pura luz no jardim do sol.

Então podes beber desta água que jorra ininterruptamente da fonte de cristal…”

O velho pegou no livro e lentamente caminhou para fora do jardim.

Fiquei só, junto à fonte, ouvindo um rouxinol que cantava esta canção num árvore lânguida:

“Somos feitos de pó e de sombra

Para ires até ao reino da luz

Olha sempre as tuas intenções.

Elas são sempre boas e puras?”

E depois houve um silêncio como quem atravessa um vale chorando.

Olhei numa pedra três frases escritas em aramaico.

As letras estavam a arder nos meus olhos:

Lei da evolução.

Lei do renascimento.

Lei da causa e efeito.

Fiquei tonto com tamanha luz…

Fiquei ali, dentro de uma torre feita de nuvens.

E comi uma maçã junto à árvore do som.

Vi o sol a nascer ao longe no Oriente e também eu nasci ali.

E de novo tudo era novo.

Uma lágrima de alegria escorreu-me dos olhos e caiu na fonte das águas de cristal.

Ela jorrava e jorrava água viva sem fim.

Quando acordei, suava na cama como se viesse de outro mundo…

Seis da manhã e eu aqui, no meio do Universo.

Infinito, perguntei:

Quem sou eu?

O que é que eu sei?

E lá fora a uma diferente chuva caía.

Era o orvalho de ouro das novas manhãs sem fim.

E em mim uma gota caía num charco.

Caía.

E caía.

Das pétalas de uma rosa branca.

Vertiginosamente…

Pousei a caneta bic azul.

E ali deitado fiquei a sonhar.

Por entre a terra, as nuvens e o sheol.

Oh, Luz…

Tudo já está escrito no livro da Natureza…

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