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Latinos

O santo e o guerrilheiro

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Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

NOTA DO AUTOR/2026: Pois então, a vida cotidiana é mais complexa do que aquilo a que chamamos de realidade. A coisa é mesmo super-hiper-realismo fantástica. Basta estarmos atentos e antenados e as muitas camadas dos fatos e comportamentos dos viventes (e também dos já inanimados) podem surgir assim “do nada” entre um “rabo-de-galo” e outro, alguns bofetes e palavrões e alguma reza. Neste caso, a imaginação e o balcão do Botequim do Maneca aqui entre a Guarda do Embaú e a Pinheira SC, serviram de “laboratório-confessionário” privilegiado turbinado pelo “encantamento” de dois ícones contemporâneos da cultura latino-americana e do planeta. Era maio de 2025 e fiquei entre a cruz e a espada.                                                                                        “O Santo e o Guerrilheiro”
(Gilberto Motta)

“A História é um carro alegre / cheio de gente contente / que atropela indiferente / todo aquele que a negue…”
(Pablo Milanez/Chico Buarque)

1.
Cheguei no Botequim do Maneca e a “raça” estava agitada. “Morreu o guerrilheiro lá do Uruguai!”, era o assunto do dia.

Discutiam sobre a morte de Pepe Mojica, ex-presidente do Uruguai e guerrilheiro líder dos temidos Tupamaros.

“O cara era foda, meu! Metralha e trabuco contra a ditadura”, gritava Geninho, pescador líder da Colônia local de pesca.

Fiquei na paz do canto do balcão para não misturar “alhos com bugalhos”, pois há muito aprendi que por aqui, se você não concorda com o “um ” é porque está do lado do “outro”; e vice-versa.

Passados alguns bate-bocas, alguém lembrou que há algumas semanas havia morrido outro figurão: o Papa Francisco.

“Olha, visse só, o Santo morreu outro dia…e era também daqui… da Argentina. Morre um Santo e os caras aí só sente e a morte de um terrorista safado… Loko, né?”, cravou o Gersinho, bolsonarista fanático.

Olhei fundo para o pequeno botequim em frente ao mar e percebi melhor a imensa dimensão da nossa América Latina: dois ícones de duas pátrias, dois povos diferentes e tão próximos embora divididos apenas pelo Estuário da Prata.

Permaneci calado – e não poderia mesmo falar -, pois tanto Pepe Mojica quanto Francisco, o Chico, enfrentaram ditaduras violentas em seus países. Eles lá, na Argentina e Uruguai e nós aqui no Brasil.

E seguiu a discussão… Santo… Terrorista… Papa Comunista… Velho Pistoleiro …

Pedi ao Maneca um “rabo-de-galo”, para confortar o peito e esquentar as ideias no inverno que já chegava. E fiquei pensando:

“A Cruz e a Espada…o Santo e o Guerrilheiro … o Bem e o Mal…”

2.
E então, estoura uma briga de tapas e sopapos e voadoras: peixes e garrafas voando num grande pandemônio.

A turma do “deixa disso” acudiu e tudo terminou em tragos.

Permaneci estático na ponta do balcão pensando na América Latina.

Após mais dois “rabo-de-galo”, sintonizei o trem da História. Percebi que as questões da geopolítica e do poder passam mesmo pelo cotidiano das pessoas.

Pensei em falar com os “rapazi” sobre diferenças de pontos de vistas, ideologias, teologia e coisas do tipo. Permaneci estático. Afinal, não estou na minha “praia” (nem sei se tive ou tenho ou terei alguma praia!).

O fato é que a briga em torno da morte de Pepe Mojica e do Papa Francisco mobilizou o boteco até altas horas.

Pedi o derradeiro “rabo-de-galo”, respirei fundo e segui caminhando rumo a pousadinha que habito.

3.
Na cabana, liguei a TV e ainda pude ver o final do Jornal da Globo com reportagem sobre a festa em Montevideo em homenagem ao Pepe. A multidão na praça, cantando Mercedes “Gracias a la vida”, de Violeta Parra me encheu os olhos d’agua enquanto eu, ainda emocionado, lembrei-me das últimas atitudes do Papa Chico. Palavras de Paz.

Deitei-me e dormi pensando em meus dois amigos: o Santo/Cruz e o Guerrilheiro/carabina., latino-americanos dessa América Latina de fato, mas ainda Latrina de tanta submissão.

“… CORAÇÃO AMERICANO / ACORDEI DE UM SONHO ESTRANHO…”
(Milton Nascimento/Fernando Brant)

………………………

Gilberto Motta é escritor, jornalista e observador de lutas, bofetes e peixes voadores nesses dias de tamanhos conflitos. Vive na Guarda do Embaú, vila de pescadores no Sul de SC.

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