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Escolhas

O silêncio do não-acontecido

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Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Tasso Scherer

“Se assim cêsse que bom foría, mas não ésse!”
(Nair/Nhá Fia, minha mãe no “troca letras”)

Há, no tecido do tempo, fios que se entrelaçam em harmonia, formando o inevitável; e há outros, rebeldes, que se desfazem antes mesmo de tocarem a trama.

Assim como a flor desabrocha na primavera porque a seiva a impulsiona, há sementes que dormem no ventre da terra, recusando-se ao destino da luz.

Tudo, mesmo o que não acontece, carrega um propósito invisível, uma razão que se oculta no véu do silêncio.

O que não ocorre é um suspiro contido, uma nota que o músico omite para que a melodia respire.

É o espaço vazio entre as estrelas, tão essencial quanto o brilho que nos guia.

Não é o erro, nem o acaso: é a pausa deliberada, a hesitação cósmica que preserva o equilíbrio. Pois se tudo fosse, o excesso nos cegaria; e se nada fosse, o vazio nos consumiria.

Pense nas escolhas que não fizemos, nas portas que não cruzamos.

Elas não são vácuos, mas portais de um universo paralelo, onde o eco da nossa ausência ressoa.

Cada não-acontecimento é uma sombra que acompanha o real, dando-lhe forma e contraste.

São os amores que não vivemos; os caminhos que não trilhamos e os sonhos que abandonamos antes de sonhá-los.

Não são falhas, mas mapas invertidos, mostrando-nos que o infinito não se esgota em uma única trajetória.

E talvez seja esse o mistério maior: o entendimento de que tanto o ser quanto o não-ser carregam em si a mesma gravidade.

Cada momento que se manifesta carrega consigo um cortejo invisível de momentos que permaneceram adormecidos.

E, ainda assim, é nessa coexistência entre o que acontece e o que não acontece que encontramos a plenitude da existência.

Assim, o universo, em sua dança silenciosa, nos ensina que o sentido não está apenas no fruto que colhemos, mas também na árvore que não plantamos, no vento que não sentimos, na história que não contamos.

O que não acontece não é ausência.

É a sombra que nos define, o espaço onde o possível repousa, esperando o tempo adequado — ou nenhum tempo — para nascer.

Quem sabe, renascer.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador de tempos paralelos e escolhas que não fizemos. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.
*Foto Tasso Scherer.

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