Vikings
O solo sagrado onde os deuses falam mais alto
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Há um silêncio antigo que repousa sobre o Norte, como se o próprio tempo tivesse aprendido a caminhar devagar entre pedras cobertas de musgo e mares que respiram névoa. Nesse silêncio, dizem, não se escuta apenas o vento — escutam-se vozes. Vozes que não pertencem aos homens, mas aos deuses que um dia caminharam sobre o solo frio dos vikings.
Ali, onde o mar encontra a rocha em choque eterno, cada onda parece repetir um juramento antigo. Os antigos navegadores sabiam: não se partia para o oceano sem antes ouvir a terra. A terra fala em estalos de gelo, em sussurros de pinheiros, no bater distante de um tambor que talvez nunca tenha parado de soar desde as primeiras fogueiras.
Os deuses do Norte não eram feitos de doçura. Eram feitos de trovão, de guerra, de sabedoria arrancada com dor. Ainda assim, havia beleza em sua presença — uma beleza áspera, como lâmina recém-forjada. Quando o céu se abre em luz verde e dançante, muitos juram que não é apenas a aurora que se move, mas as próprias passagens entre mundos. Pontes invisíveis onde guerreiros caídos seguem caminhando, guiados por olhos que nunca dormem.
Caminhar por esse solo é sentir o peso de histórias que não cabem em livros. Cada pedra pode ter sido altar. Cada colina, um túmulo. Cada fiorde, um espelho onde o céu aprendeu a se lembrar de si mesmo. E quem chega em silêncio — sem pressa, sem descrença — às vezes percebe algo raro: não é o visitante que observa o lugar, mas o lugar que observa o visitante.
Porque o sagrado do Norte não está nas ruínas nem nos símbolos. Está na sensação de que o mundo ainda guarda mistérios intactos. De que existem territórios onde o invisível respira perto demais. Onde a coragem não era virtude, mas necessidade. Onde viver significava aceitar que os deuses podiam falar… e que o verdadeiro desafio era ter coragem de escutar.
E quando se parte, deixando para trás o frio, o mar e a luz que dança no céu, algo permanece. Um eco antigo, como se a própria alma tivesse tocado, por um instante, a borda de um mito que nunca terminou.
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Anabelle Santa’cruz é Editora de Oráculos