Copa do Mundo
O sonho do TRI
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Minha primeira Copa do Mundo foi a de 1958. Tinha apenas 3 anos de idade, mas, como já tive oportunidade de falar a respeito, tenho algumas memórias bem nítidas daquele período. Evidentemente não entendia quase nada da agitação ao meu redor, nem tinha a menor ideia do significado daquele alvoroço, menos ainda o porquê de mexer daquela forma com a emoção e o humor de tanta gente.
Minhas recordações, na verdade, têm a ver com o barulho dentro da casa, vindo dos adultos e também das crianças, meus irmãos, estes um pouco mais velhos, mas, certamente, se entendiam alguma coisa a mais do que eu, não seria muito. Ao fundo o falatório do rádio, único meio a possibilitar ao povo brasileiro acompanhar, a cada jogo, o desempenho brilhante dos nossos heróis de chuteira. Aquela mistura de sons me encantava e a felicidade das pessoas me contagiava.
O ápice da experiência era ver tia Rita, com seu menos de metro e meio, nas pontas dos pés tentando colar o ouvido na grande rádio vitrola sobre a cristaleira para conseguir distinguir melhor o som em meio ao chiado trazido pelas ondas, através do ar, no sentido norte-sul do globo terrestre, cuja imagem não se descola da minha retina até os dias de hoje.
Com o passar dos dias a euforia ia se intensificando até que uma verdadeira explosão de alegria tomou conta de todos; agora o som, até então restrito ao ambiente delimitado pelas paredes da casa, extrapolava para a rua. Nós, crianças, acompanhávamos pelo lado de dentro do portão: Brasil campeão mundial!
Não fosse eu tão pequeno, minhas lembranças mais nostálgicas, ainda que pudesse recordar imagens e sons, certamente seriam dos jogos. Porém, transcorridos mais alguns poucos anos, já dono de uma certa compreensão sobre o futebol e o significado daquele torneio, tive condição de resgatar algumas informações sobre 1958 na Suécia, e a conquista do nosso primeiro título mundial, passando a conhecer e reverenciar muitos dos jogadores que atuaram naqueles jogos, principalmente Pelé, pois já compartilhava com a tia a paixão pelo escrete nacional e pelo Santos FC.
Em 1962, pudemos todos acompanhar a seleção no Chile pela mesma rádio vitrola, pois nosso nível de entendimento já estava bem mais avançado, à exceção da irmãzinha caçula que em 1958 tinha poucos meses de vida, e então, um pouco mais do que eu à época do nosso primeiro título mundial. Lembro-me perfeitamente da angústia e da insegurança que se abateu sobre toda a torcida quando, no primeiro tempo do segundo jogo da fase de grupos, contra a Checoslováquia, Pelé se contundiu e logo veio a informação de que não teria condição de jogar mais até o final do torneio.
O jogador indicado para substituir nosso maior craque pelos jogos restantes, Amarildo, atleta do Botafogo, rapidamente nos devolveu as esperanças, demonstrando desenvoltura e estar à altura do desfio, principalmente ao marcar um gol no jogo seguinte, vitória de 2 X 1contra a Espanha e na final, novamente contra Checoslováquia, fazer mais dois gols, e com o resultado de 3 X 1, o Brasil se sagrar bicampeão. Garrincha foi outro destaque daquela copa, marcando 4 gols e sendo eleito o melhor jogador do torneio, mas dele já se esperava um grande desempenho. O time titular era quase o mesmo da copa anterior. Mais uma vez festa nas ruas e nas casas.
O bicampeonato igualava o feito brasileiro a apenas ao de dois outros países, Uruguai campeão da primeira, em 1930, no próprio Uruguai; e em 1950, realizada no Brasil, motivo de uma das maiores tristezas da nossa torcida, pois disputamos a final no estadio Jornalista Mario Filho, o popular Maracanã, no jogo que passou para a história como o “maracazo”, Brasil 1 X 2 Uruguai. Já a Itália havia sido campeã nas edições de 1934 e 1938, a primeira na própria Itália e a segunda na França. A curiosidade é que, em 1930, vários países europeus, entre eles justamente a Itália e a França, não disputaram, pois, segundo consta, a viagem para a América do Sul era muito dispendiosa. Em represália o Uruguai não participou em 1934 e 1938, afinal, as viagens em sentido contrário eram tão dispendiosas quanto.
A façanha fez com que nossa torcida, dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), antecessora da atual CBF, e os próprios jogadores ganhassem uma autoconfiança inabalável e a certeza da conquista do tricampeonato em 1966, na Inglaterra. Além do mais, embora a equipe tenha sofrido muitas alterações após 1962, pois grande parte dos jogadores já tinha atingido idade para pendurar as chuteiras, era um time com novas estrelas do mesmo quilate, tais como Gerson, Jairzinho e Tostão, entre outros, que somavam aos remanescentes Gilmar, Beline, Garrincha, Nilton Santos, Zito e Pelé.
Mas, lamentavelmente, a desorganização e a falta de planejamento, foram determinantes para um fracasso retumbante. E no último jogo da fase de grupos, o time de Pelé, que já não vinha bem, não conseguiu se classificar, tendo sido derrotado por 3 X 1 pela seleção portuguesa encabeçada por Eusébio, um dos maiores rivais, à época, do nosso rei, em um tipo de revanche do Mundial Interclubes de 1962, quando o Santos se sagrou campeão contra o Benfica, time do jogador português.
Tia Rita, meus irmãos e eu, agora acompanhados por alguns meninos da rua, ainda ouvíamos pela mesma velha rádio vitrola e a cada jogo era uma decepção; ainda mais porque, agora, mais velhos, nos considerávamos profundos conhecedores do “esporte bretão”, como se dizia.
A desilusão a nos causar, ao mesmo tempo, um sofrimento profundo – agora já não me refiro mais ao nosso pequeno universo familiar ampliado pelos amigos da turma, mas sim aos “90 milhões em ação” como referia o verso da música tema da copa seguinte – de vivenciarmos o luto pelo retorno precoce dos nossos canarinhos, já no dia seguinte ao da eliminação, nos imbuia de um sentimento de brio e esperança, como se comungássemos com toda a nação de um mesmo pensamento como num presságio coletivo: “- Na próxima haveremos de conquistar o tão sonhado TRI”.
Como de todo revés se pode extrair algo positivo, no meu caso pessoal, algo somente percebido muitos anos depois, é que em 1970 eu já teria completado 15 anos, tendo adquirido, como de fato adquiri, muito mais maturidade, independência e conhecimento para me permitir um envolvimento pleno, tanto na prática, como emocionalmente, com todo aquele acontecimento mágico pelo qual tanto ansiávamos. E isso não era um processo individual, ao contrário, partilhado com a turma da rua e adjacências.
E assim foi, a preparação espiritual e psicológica para aquela magnífica efeméride envolvia muitas coisas. Cada centavo economizado das nossas modestas mesadas, tinha destino certo: comprar o máximo possível de revistas sobre futebol que conseguíssemos, fogos para armazenar a fim de comemorarmos cada gol dos nossos ídolos, tintas para decorar as ruas, assistir e ouvir todos os programas sobre o tema “copa”, pois os jornalistas e convidados dos programas de TV e rádio estavam até mais confiantes e ufanistas do que a torcida em geral. E, lógico, não deixar de acompanhar cada jogo das eliminatórias; e nossa seleção não decepcionou, venceu todos os seis jogos contra Colômbia, Venezuela e Paraguai, marcando 23 gols, sofrendo apenas 2 e tendo Tostão como artilheiro, aumentando ainda mais nossa inquebrantável confiança.
Finalmente o momento tão aguardado chegou. Pela primeira vez os jogos foram transmitidos via satélite pela televisão desde o México, país sede. O Brasil venceu todos os jogos. Na fase de grupos, contra a Checoslováquia por 4 X 1, gols de Rivellino, Pelé e 2 de Jairzinho; 1 X 0 Inglaterra, o jogo mais difícil, com gol de Jairzinho; 3 X 2 Romenia, 2 de Pelé e 1 de Jairzinho. Depois vieram as eliminatórias: 4 X 2 Peru, Rivelino fez o primeiro, Tostão, o segundo e o terceiro e Jairzinho completou o placar; 3 X 1 Uruguai, nos vingamos do “maracanazo” vinte anos depois, Clodoaldo, Jairzinho e Rivelino; e chegamos à grande final contra a Itália, a Azzurra, 4 X 1, Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto. O último gol resultado de uma jogada coletiva maravilhosa, começando com uma troca de bolas na defesa e, finalmente, Gerson dando um passe curto para
Clodoaldo que cruza o campo em direção ao ataque numa diagonal da direita para a esquerda, driblando quatro italianos e entregando para Rivelino na risca do meio campo, ele dá um toque para Jairzinho mais adiantado na ponta esquerda, que se livra do marcador e passa para Pelé, centralizado na entrada da área adversária, que, sem olhar, quase de forma “displicente”, dá um passe à direita, no “ponto futuro” para Carlos Alberto que, vindo em alta velocidade dá um chute cruzado potente, num leve quique da bola, impossível de ser defendido pelo goleiro Albertosi. Tostão participa da jogada sem tocar na bola, posicionado dentro da grande área, de costas para o gol, sinaliza com a mão para Pelé que Carlos Alberto está se aproximando pela direita e, ao atrair a marcação de dois defensores, deixa nosso lateral direito livre para chutar como quis. O gol da consagração. Daí para a frente, só festa!
A seleção titular era formada por: Félix (Fluminense), Carlos Alberto (Santos) Brito (Flamengo), Piazza (Cruzeiro) e Everaldo (Grêmio); Clodoaldo (Santos), Gerson (São Paulo) e Pelé (Santos); Jairzinho (Botafogo), Rivelino (Corinthians) e Tostão (Cruzeiro). Jairzinho marcou em todos os jogos, sendo o artilheiro do Brasil com 7 gols. Além desses jogadores alguns reservas entraram em substituição a titulares no decorrer de diversos jogos, são eles: Paulo Cézar Caju (Botafogo), Edu (Santos), Roberto Miranda (Botafogo), Marco Antônio (Fluminense), Joel Camargo (Santos) e Zé Maria (Portuguesa). A curiosidade aqui é que pela primeira vez as substituições de jogadores durante as partidas da copa foram permitidas pela FIFA.
Relembrar me faz viver novamente aquela emoção. Acompanhávamos os jogos com os olhos vidrados na TV sem perder nenhum lance e a cada gol era uma explosão de alegria, corríamos para a parte externa da casa para soltar fogos. Após cada partida ficávamos recordando as jogadas e os gols, enquanto esperávamos ansiosos pela próxima.
Em 1972, Pelé fez seu último jogo pela seleção e chegamos a 1974, na Alemanha Ocidental, com vários remanescentes da copa anterior, reforçada por novos craques, mas talvez a ausência do maior deles tenha produzido alguma insegurança no time. Porém, a equipe sensação daquela edição foi a holandesa, apelidada de “Laranja Mecânica” ou “Carrocel” comandada pelo, certamente, maior jogador de todos os tempos daquele país, Johan Cruyff.
Nossa seleção foi vencida por ela na semifinal pelo placar de 2 X 0, com um dos gols marcados justamente por Cruyff. Na disputa do 3º lugar, fomos batidos novamente pela, também fortíssima, Polônia, por 1 X 0. Já a Holanda disputou a final com a anfitriã, Alemanha Ocidental, que não jogava um futebol tão vistoso, porém suas virtudes eram a disciplina tática e maturidade, combinadas com o talento de alguns dos maiores jogadores do mundo. Franz Beckenbauer, era o líder do time, que, curiosamente, não era um atacante, mas sim um líbero, cuja habilidade em avançar do meio campo defensivo distribuindo para os jogadores de frente, como um meia-armador, combinando uma defesa sólida com um ataque criativo, fazia dele o cérebro da equipe. Assim a Alemanha Ocidental sagrou-se bicampeã, superando a Holanda por 2 X 1. O primeiro título da seleção alemã foi o de 1954, disputado na Suíça. Ganhando de 3 X 2 da Hungria, grande favorita e time sensação do torneio que havia ganhado todos os jogos até então, no qual jogava o maior jogador do mundo à época Ferenc Puskás, artilheiro do troneio com 11 gols em 5 jogos. Por essa razão, a conquista ficou conhecida como “o milagre de Berna.
Não sei dizer exatamente por quê. Possivelmente, em razão do nosso maior craque não estar mais presente, acrescido do fato de termos vivido um momento catártico na copa anterior, mas a verdade é que, pelo menos para mim, o entusiasmo pela seleção, nunca mais foi o mesmo. Posso dizer até que chego próximo ao desinteresse durante o intervalo entre dois mundiais, inclusive em relação à fase de classificação sul-americana, recuperando um pouco do ânimo durante os jogos da copa propriamente dita. A exceção foi a de 1982, na Espanha. O Brasil tinha um time comparável aos dos três títulos conquistados até então, mas infelizmente foi eliminado por Paolo Rossi e seus 10 companheiros italianos, ainda na fase de grupos. A desclassificação ficou conhecida como a “tragédia de Sarriá”, estádio onde aconteceu a partida. Mas, assim mesmo, acredito que, se tivéssemos ido à final e vencido o torneio, meu envolvimento não chegaria à metade do que foi a conquista do TRI.
Bem, o desinteresse que se abateu sobre mim nas copas seguintes, acentuado ainda pelo fato de que antes víamos os jogadores convocados disputando os campeonatos regionais e nacionais por aqui e hoje em dia, cada vez mais, grande parte chegam a ser ilustres desconhecidos, pois são levados pelos times europeus logo ao despontarem em seus clubes de origem, não raro das próprias categorias de base, sem nos dar tempo de transformá-los em nossos ídolos, talvez explique o fato de terminar o texto por aqui. Não que não tivesse observações a fazer nas edições seguintes, mas o mesmo desinteresse relativamente à seleção, acaba contagiando a vontade de continuar a escrever. Mas talvez, futuramente retome o tema e faça a continuação dessa crônica.
Faltou apenas dizer, enquanto vivíamos aquela sublime emoção, do ponto de vista político, embora não tivéssemos total compreensão, o país atravessava um dos momentos mais obscuros, sob o recrudescimento da ditadura sob o mais truculento general de todo o período militar, Garrastazu Médice, em cujo mandato foi cometido o maior número de prisões, torturas, assassinatos e desaparecimentos dos inimigos do regime. Não fosse a perpetração de crimes tão horrendos, seria cômico registrar a tentativa do tirano interferir nos assuntos futebolísticos, quando mandou recado para o jornalista João Saldanha, técnico da seleção durante a fase classificatória da América do Sul, de que era para ele convocar Dadá Maravilha, de quem era fã. Mas Saldanha respondeu: – Diga a ele que eu não dou palpite na escolha de seus ministros, então ele não venha querer interferir na convocação dos meus jogadores. Não se sabe exatamente se em razão dessa resposta, Saldanha, que era comunista, acabou sendo demitido antes do início da copa e substituído por Zagallo, tendo ele cedido à pressão do presidente e convocado o centroavante do Atletico Mineiro. Bem verdade que este permaneceu na reserva e não chegou a entrar em nenhum dos jogos sequer como substituto.