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Louca obsessão literária

O stalker do boné preto

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Samuel, como de costume, praticava a habitual caminhada diária pelos arredores da sua casa de campo. O entardecer sempre o deixava melancólico, no entanto, era desse sentimento que atualmente tirava as melhores inspirações para as suas obras desde o início do sofrido período de separação com Ana Paula.

— Já faz um ano, mas parece que a nossa última caminhada juntos por esse bosque foi ontem. Agora somos só nós dois, Mike, suspirou, afagando o seu querido mascote canino.

Repentinamente, um homem surgiu na sua frente. Ele usava um boné preto ao estilo dos carbonários italianos e parecia irritado. Não disfarçando a ansiedade, o desconhecido falou inopinadamente:

— Escritor Samuel P. James, não? Eu estava ansioso por esse encontro!

— Sim, sou eu! E quem é o senhor?

— Meu nome é Vincenzo, já fui seu fã e um dedicado leitor das suas obras.

Percebendo a animosidade do estranho leitor, Samuel, tentando descontrair, replicou:

— Muito prazer! Mas por que parece bravo comigo? Por acaso, minha última coletânea de contos o decepcionou?

— Acertou na mosca! Descobri que você não passa de um farsante.

— Como assim, farsante?

— Sempre admirei o seu estilo inspirado em Edgar Allan Poe. A sua verve demonstra magistralmente que o verdadeiro terror não vem de monstros sobrenaturais, mas sim do que os indivíduos comuns escondem dentro de si.

— Obrigado pelo elogio, mas então qual é o problema?

— Plágio, você me plagiou!

— Desculpe, mas com certeza isso é um lamentável equívoco! Que eu lembre, eu nunca sequer li nada da sua autoria.

— Não mesmo, escritor? Pois eu tenho aqui a prova, disse o homem de boné preto tirando um manuscrito do bolso.

— O que é isso?

— Isso é um conto de minha autoria, foi publicado na sessão literária do jornal da minha cidade vinte dias antes da publicação do seu último livro. Pode ler!

Surpreso, Samuel apanhou o papel e leu rapidamente.

— Meu amigo, realmente isso parece ser um conto do meu último livro, mas a questão é: quem plagiou quem?

— Não há dúvidas de que o plagiador é você, viu a data do jornal?

— Olhe, posso provar que o meu conto já estava escrito antes da publicação do seu.

— E como fará isso?

— Tenho o e-mail do envio dos contos que estão no livro para o meu editor. Isso ocorreu pelo menos quinze dias antes da publicação do seu conto.

— Então vai ter que me mostrar isso da próxima vez que nos encontrarmos, escritor!

— Como quiser, senhor Vincenzo, vou procurar o arquivo. Vamos trocar contatos para desfazer essa confusão, mal entendido ou seja lá o que for.

— Já tenho o seu contato, você tem vinte e quatro horas! Depois disso, eu lhe garanto que haverá consequências.

— Está me ameaçando?

— Eu não ameaço, escritor, eu faço!

Tão misteriosamente como havia aparecido, o homem desapareceu em meio à densa mata que circundava a casa de campo.

Enquanto retornava para o aconchego do lar, aflito, Samuel ruminou:

— Essa agora! Melhor convencer logo esse maluco que ele está delirando.

No entanto, após vasculhar o seu e-mail, ele teve dificuldades para achar o arquivo.

— Depois vejo isso com calma, agora tenho um telefonema para dar.

Durante a longa conversa com Ana Paula, ele retomou a serenidade habitual.

Continuavam amigos apesar da separação. Mesmo que a contragosto, entendia os motivos que a levaram a desistir dele. Ela estava namorando e ele tentava se acostumar com a ideia de vê-la com outro homem.

Agora, ela insistia em formalizar logo o fim do matrimônio pra assumir plenamente o novo relacionamento com Felipe.

— Certo, então espero vocês daqui a dois dias. Ah, deixa eu te falar, hoje apareceu um sujeito estranho por aqui afirmando que eu plagiei um conto de autoria dele. Ele me ameaçou, coisa de louco mesmo!

Após a conversa com a ex-esposa, Samuel achou conveniente avisar também o seu editor acerca do estranho incidente com o homem do boné preto.

— Se ele insistir nisso, melhor registrar queixa na polícia, afinal, ele ameaçou você.

— Creio que não será preciso, duvido que esse alucinado apareça de novo.

No dia seguinte, Samuel procurou novamente o arquivo da última publicação, sem sucesso.

— Ora, acho que vou deixar essa história para lá, preciso escrever.

Por volta de 17 horas, como sempre fazia, chamou Mike para acompanhá-lo na caminhada vespertina. Não tendo o chamado atendido, saiu da casa para procurar o fiel companheiro de todas as horas. Estarrecido, encontrou o animal caído na grama com a garganta cortada.

Em seguida, o telefone tocou e uma voz conhecida perguntou:

— Eu não disse que haveria consequências, escritor?

— Seu maluco, você é um psicopata! Vou te denunciar para a polícia!

— Faça o que quiser, mas enquanto não provar que não é um plagiador, a coisa só vai piorar para você. Vou te dar mais duas horas antes da próxima consequência.

Ato contínuo, Samuel entrou na sua Picape Fiat e dirigiu trinta quilômetros até a delegacia de polícia da pequena cidade.

— Não tirou uma foto dele?

— Infelizmente, eu estava sem o celular quando ele me abordou, delegado.

— Nesse caso, precisamos fazer um retrato falado. Então ele diz chamar-se Vincenzo, era muito alto, magro e usava um boné preto, não?

Após a formalização da queixa e a promessa do delegado em fazer buscas para encontrar o agressor, Samuel retornou para a casa de campo. Ao chegar, outra surpresa desagradável o esperava: seu celeiro estava em chamas.

Novamente o seu telefone tocou:

— Eu não avisei, escritor? Para mim, plágio é um crime imprescritível!

— Seu desgraçado, vai pagar por tudo isso!

—Tem até amanhã ao meio-dia para provar que não é um criminoso, reverberou o homem chamado Vincenzo.

Após debelar o incêndio como podia e contemplar o pouco que restou do celeiro, Samuel foi tomar um banho. Lembrou que Ana Paula e Felipe deveriam chegar à cidade naquela noite.

— Ela disse que eles ficariam hospedados no hotel Glória. Bem, assim que chegarem, ela vai me ligar.

Após o banho, Samuel deitou na imensa cama onde tantas vezes foi feliz com Ana Paula. Sua mente viajava por estradas onde a ficção das suas obras e a realidade que vivenciava se cruzavam em misteriosas intersecções, ligando-se em pontes que balançavam freneticamente.

O telefone chamou outra vez, era Ana Paula.

— Samuel, já chegamos no hotel. Como combinado, amanhã pela manhã vamos para a sua casa.

— Ana, acho que ainda não estou preparado para assinar o divórcio, melhor deixarmos isso para outra ocasião.

— Mas, Samuel, tínhamos combinado que resolveríamos tudo amanhã. O que está havendo com você?

— É que aquele maluco do boné preto ainda está na região. Não estou com cabeça para isso agora e, além do mais, é perigoso vocês virem para cá. Já denunciei o sujeito para a polícia, mas ele não desiste de me ameaçar.

Felipe ouviu a conversação e, impacientemente, tomou o telefone da mão de Ana Paula:

— Olha, Samuel, já estamos cansados da sua enrolação, eu vou pessoalmente levar os papéis da separação para você assinar. Às nove horas estarei aí, até amanhã!

— Você que sabe, Felipe, mas não prometo nada!

Preocupada, Ana Paula ponderou com o namorado:

— Felipe, talvez seja mesmo melhor deixarmos isso para outro dia. O Samuel não parece bem com essa história do louco que o está perseguindo, e pode ser perigoso para você ir lá amanhã.

— Bobagem, Ana, isso é só mais uma desculpa dele para não assinar o divórcio. Não vamos perder a viagem, você fica aqui e deixa que eu resolvo tudo.

Samuel, após esse contato, ligou para o delegado. Comunicou o incêndio do celeiro e a nova ameaça do homem do boné preto.

— Ele disse que vai estar por aqui novamente amanhã ao meio-dia. Acho melhor vocês não chegarem muito cedo para não espantarem o sujeito.

Felipe cumpriu pontualmente a promessa e, nove horas em ponto, estava estacionando o seu carro em frente à casa de campo que, outrora, já havia sido o refúgio de verão da namorada.

Decidido, o advogado e novo par de Ana Paula desceu do veículo e, depois, virou-se para apanhar a pasta com os documentos da separação no banco de trás. Foi o seu último ato. Repentinamente, uma faca afiada e implacável rasgou a sua garganta.

Preocupada com a demora do namorado e com as ligações não atendidas, Ana Paula chegou em um táxi quase ao mesmo tempo que a polícia.

Ao deparar-se com Felipe caído no chão, sangrando, teve um torpor e perdeu as forças. Imediatamente, Samuel correu para ampará-la.

— Não olhe, Ana! Eu sinto muito!

Balançando a cabeça, o delegado lamentou:

— Infelizmente, chegamos tarde, moça! Agora, só posso prometer que vamos pegar esse psicopata.

— Era para ter sido eu, murmurou Samuel em tom de culpa.

Recompondo-se da terrível tragédia e fraternalmente confortada por Samuel, Ana Paula permaneceu na casa de campo por vários dias.

Durante esse período, ela redescobriu o Samuel carinhoso, solidário, filosófico e cem por cento companheiro do primeiro ano de casamento.

O homem do boné preto sumiu como fumaça no ar, deixando a polícia da cidade andando em círculos até finalmente concluir que o assassino havia fugido da região. Entrementes, no décimo dia após o crime, sem conseguir vencer a insônia, Samuel levantou de madrugada para ir ao banheiro e deparou-se com o homem no escritório.

— Eu sabia que você voltaria, Vincenzo. E então, vai me matar também?

— Sabe que não posso fazer isso, escritor, o seu castigo será outro.

— É mesmo? E qual será?

— De agora em diante, iremos escrever a quatro mãos para você nunca mais me plagiar.

— Falando sozinho de novo, Samuel? Indagou a sonolenta Ana Paula ao entrar no escritório.

Ao lado do computador, um boné preto repousava sobre a estante.

…………………………..

J. Emiliano Cruz [Instagram @Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”, disponível no link da Estante Virtual:
.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

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