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O garçom

O terceiro elemento

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Entretida com a leitura de um possível clássico da poesia do futuro, a mulher fingia desinteresse por um sujeito loiro de terno que acabara de entrar no boteco, quase pé-sujo. Deu um gole na cerveja, virou a página. Voltou a ler, mas logo foi interrompida pelo garçom, que depositou outra cerveja sobre a mesa.

— O que é isso? Não pedi.

— Aquele senhor mandou trazer.

— Aquele senhor?

— Sim.

— O de terno?

— Sim.

— E o que você acha disso?

— Como assim?

— Você aceitaria?

— Bem, é de graça. Então, acho que sim.

— Hum… Qual é o seu nome?

— Jorge.

— Pois bem, Jorge, diga àquele senhor que prefiro algo mais quente. O que você acha de uma caipirinha, Jorge?

— Precisa ter disposição.

— E tu acha que eu tenho, Jorge?

O garçom olhou a mulher e, sem dizer palavras, foi até o homem bem-vestido. Não tardou, retornou com uma caipirinha e a depositou sobre a mesa.

— Hum… O que você acha disso, Jorge?

— Acho nada não, senhora.

— Você acha que aquele homem está querendo algo comigo?

— Bem… Talvez.

— Talvez?

— Acho que sim.

— Hum… E você acha que eu devo fazer o quê?

— Não sei, não, senhora.

— Não sabe ou não quer dizer?

— Acho que os dois.

— Hum… Pois diga àquele cara pra lhe dar uma boa gorjeta.

— O quê?

— Gorjeta, Jorge. Ou tu não gosta de dinheiro?

— Gosto sim, senhora.

— Então vá lá e faça o que eu te falei.

— Mas…

— Jorge, por favor, faça o que te pedi, que quero ver se essa caipirinha está boa mesmo.

Jorge, mesmo sem jeito, foi até a mesa do cliente de terno e disse o que a mulher havia lhe pedido. Para sua surpresa, o homem abriu a carteira e retirou uma nota de cem e a depositou no bolso da camisa do garçom.

Trocas de olhares e breves sorrisos acenderam a coragem do homem de terno. Ele se levantou e, quase confiante, caminhou até ficar ao lado da mulher. Ele tocou a cadeira desocupada e perguntou:

— Posso?

— O Jorge deve ter adorado.

— Jorge?

— O garçom.

O sujeito sorriu. Insistiu:

— Posso?

— Se estiver disposto a me pagar mais uma caipirinha.

— Todas que você quiser.

O loiro se sentou.

— Bem, eu me chamo…

— Não!

— Não?

— Não quero saber o seu nome. Não gosto de saber o nome dos homens com quem me deito.

— E são muitos?

— Hum… Papai ficaria decepcionado com a sua filha favorita.

O homem sorriu, apesar do olhar um tanto surpreso. Estaria ele entrando em um campo minado?

A conversa prosseguiu até que a mulher decidiu ir embora.

— Mas já?

— Não quer?

— E posso?

— Se eu tomar mais um gole, não aguento terminar a noite do jeito que quero.

O homem, sem alternativa, pagou a conta e o casal de última hora saiu de mãos dadas. Os dois entraram no automóvel e rumaram para o motel mais próximo.

Na manhã seguinte, despidos de papéis, acordaram. A mulher, com forte enxaqueca, olhou para o homem ao seu lado e tentou sorrir. Ele envolveu o rosto da amante com as mãos e os lábios se tocaram mais uma vez.

— Gostou, meu amor?

— Adorei, mas já estou ficando velha pra essas coisas. Será que as crianças já acordaram? Sua mãe disse que ia à missa bem cedo.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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