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Chapada dos Veadeiros

O triste fim do preterido de Lindalva

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Tem gente que prefere a paz, o que é até esperado e, provavelmente, seja o seu pensamento, que está neste momento me lendo. No entanto, há uma classe de gente que discorda e, entre esses se encontrava Josenildo. Que Deus o tenha ou, o que é mais provável, que o Diabo faça bom proveito do que lhe restou.

Apaixonado por Lindalva desde que lhe pousou os olhos, Josenildo tinha como certo o enlace assim que a moçoila resolvesse a pendenga com o ex-marido. Por sorte, o divórcio caminhava, dentro do possível, para desenlace amigável. Isso apesar das traições de ambos os lados, conforme havia sido amplamente divulgado pela rádio comunitária, a implacável rede de fofocas.

Após cortejar Lindalva por praticamente todo o inverso, eis que, assim que a primavera apontou no horizonte, a mulher foi se enamorar por Rosinaldo, cuja profissão era de confeiteiro, mas que era afamado por tocar sanfona que nem Januário. E as sortudas que conheciam o gajo na intimidade faziam questão de alardear que o que ele fazia com um acordeon nem de longe se comparava aos atributos pessoais.

Josenildo, em vez de guardar a frustração para si, quis dar um fim no seu adversário, com quem era incapaz de disputar na arte do amor. Tratou de armar uma arapuca para Rosinaldo, que vivia entre bolos, a sanfona e, naqueles idos, as coxas roliças de Lindalva. Sem desconfiar do destino que lhe aguardava, o músico foi salvo pela perspicácia da amada, que sentiu algo estranho no ar.

— Não vá agora, meu amor. Fique mais um pouco, que lhe prometo o que você me pede há dias.

— Jura?

— Não juro porque jurar é pecado.

— E como vou acreditar?

— E eu sou lá mulher de mentir por coisa tão séria?

— Pois eu acredito, minha flor!

— Mas aguarde aqui um instante, que vou me preparar. Troquei o lençol hoje e não quero correr risco.

Enquanto o namorado espeerava a amada, ela fingiu que entrou no banheiro, saiu pela porta dos fundos, pegou um porrete, rodeou a casa e acertou a cabeça do Josenildo, que, faca na mão, estava de tocaia à espera do Rosinaldo. E a pancada foi tão certeira, que o arapuqueiro nem ouviu os gemidos que vieram do quarto enquanto a promessa era cumprida.

Já na manhã seguinte, assim que despertou, Lindalva foi conferir se Josenildo estava morto ou desmaiado. Mal abriu a porta quando se deparou com uma poça de sangue seca no cimento grosso da entrada. No entanto, nem sinal do homem ou, então, do que havia sobrado dele. Só dois dias depois que a dona da casa encontrou o tratante, uma montoeira de pontos no cocuruto, sentado no banco da praça. Foi só o gajo olhar para ela e já se encolheu igual minhoca.

Os dias se acumularam e viraram semanas, que foram se ajuntando até somarem uma carrada de meses e, não tardou, Lindalva e Rosinaldo completaram um ano de enlace. E partiu da mulher a ideia de fazerem uma viagem para comemorar aquele feito, que nem eles acreditavam que alcançariam.

— E pra onde, minha linda?

— Num sei ainda, mas quero ir pra um lugar bonito.

— E a nossa Luziânia não é o lugar mais lindo do planeta Goiás?

— Deixa de ser abestado, Rosinaldo. E desde quando Goiás é planeta?

— E eu não sei? Tô brincando.

— Então?

— Então o quê, minha flor?

— Vamos?

— Se tu vai, vou eu junto.

O casal, após quase dois dias de propostas inviáveis, entre as quais Paris, Roma e Manaus, optaram pela Chapada dos Veadeiros, onde alugaram um bangalô. E, na semana seguinte, os pombinhos colocaram o mínimo possível dentro do Fusca e pegaram a estrada.

Chegaram para o almoço e, após darem um passeio pelo povoado, retornaram para o aconchego, pois, segundo Lindalva gostava de falar, Rosinaldo precisava fazer uma apresentação de gala, com direito a bis, sob os lençóis.

Acordaram esfomeados e, após um breve repeteco para aumentar ainda mais o apetite, tomaram banho e foram tomar o delicioso café da manhã. Como pretendiam passar o dia em uma das belas cachoeiras do parque, capricharam na quantidade, mas sem se empanturrarem.

Mochilas nas costas, lá foram Lindalva e Rosinaldo, mãos dadas, descobrirem as maravilhas do local. E o tempo parecia estar a favor dos dois, pois não estava nem quente nem frio, e, ainda por cima, soprava uma agradável brisa que parecia acariciar aqueles rostos felizes. Mal sabiam eles que dois olhos traiçoeiros os espreitavam atrás dos arbustos e troncos retorcidos pelo caminho.

Josenildo, o próprio, cujo rancor ainda o consumia, havia seguido os enamorados. E se a aquilo teria iniciado por amor, já há algum tempo só restava o desejo pelo caos. E foi esse irresistível sentimento que impulsionou o gajo a ir atrás de vingança.

Os apaixonados, de vez em quando, paravam para se hidratar e, como no local só havia beleza e nem sinal de gente, aproveitavam para beijos ardentes. E foi justamente num desses momentos em que Josenildo, escondido atrás de uma enorme pedra, sentiu uma dor intensa em sua mão. Assustado, viu um escorpião ao seu lado, provável culpado. Quis gritar, mas mordeu o local da picada para aplacar a dor e conter o som que queria sair pela garganta.

Picadas de escorpião são realmente dolorosas e, apesar de perigosas, geralmente não são fatais, a não ser em crianças, animais pequenos e adultos que sejam alérgicos. Bem, parece que este era o caso do Josenildo, que, não tardou, caiu duro e, por dias, ficou ali servindo de alimento para a rica fauna do Cerrado: urubus, carcarás, larvas de moscas, besouros e até mesmo um simpático tatu.

Com os dias, Josenildo virou só esqueleto, cujos ossos foram espalhados por toda a região. E hoje, já se passados mais de 15 anos do ocorrido, não raro, algum trilheiro encontra uma costela ou fragmento, mas logo descarta, imaginando se tratar parte de restos de queixada ou caititu.

Bem, e é assim que as coisas aconteceram ou não, ao menos, é de como me lembro de ter ouvido em uma conversa ao redor de uma fogueira em São Jorge. Quanto à Lindalva e ao Rosinaldo, dizem que ainda vivem em Luziânia e, ao que tudo indica, muito apaixonados.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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