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Gêmeos incongruentes

O último biscoito e o taciturno

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Humberto, gêmeo idêntico do Henrique, diferentemente do irmão, nasceu com a carranca da seriedade. Não que precisasse fazer esforço para tal, era algo intrínseco ao seu ser.

Rabugento desde a tenra idade, Humberto não se enturmava. Já o Henrique, invariavelmente, comandava as brincadeiras. Tanto carisma, não havia quem resistisse àquelas bochechas fofas. Humberto, por sua vez, a tudo observava com o desdém que lhe era próprio.

— Henrique, meu lindo, os seus amiguinhos estão te chamando pra brincar na rua.

— Já tô indo, mamãe.

— E você, Humberto, por que não vai com o seu irmão?

O garoto nem se esforçava para dar uma desculpa. Era seco como canela de ema.

— Não.

Quando chegou a época dos namoros, todas as garotas cercavam o Henrique, o último biscoito do pacote. E até mesmo o Humberto, por mais cético que fosse, nunca duvidou dessa qualidade do irmão. Que ele namorasse todas, Humberto não se importava. Talvez um dia alguém se apaixonasse pelo macambúzio.

Na faculdade, conheceu Alice. Apaixonada por física quântica, a jovem sentiu atração quase instantânea pelo taciturno. Assim, Humberto se viu pela primeira vez na vida envolvido emocionalmente com alguém. E, por mais que pudesse parecer estranho aos olhos dos outros, aqueles dois se combinaram tão bem que, agora ambos formados e bem encaminhados profissionalmente, resolveram anunciar o noivado.

A mãe do Humberto estranhou o fato e fez questão de demonstrar sua insatisfação:

— Rubens, você ouviu o que o seu filho disse?

— Qual deles, Marisa?

— Ué, o Humberto!

— Sobre o noivado com a Alice?

— É!

— E o que tem isso?

— Rubens, o seu filho tem só 27 anos!

— Hum… Meu amor, nós tínhamos 21 quando nos casamos.

— Outros tempos, Rubens. Outros tempos!

Humberto e Alice viajaram e retornaram duas semanas depois. Pequena experiência para o casal ter certeza de que estavam prontos para o matrimônio. Dona Marisa foi buscar os pombinhos no aeroporto, quando constatou algo diferente no filho.

— Humberto, o que é isso no seu rosto?

— Ah, mãe, é um bigode. A Alice pediu e estou até gostando.

— Humberto, pois eu acho que esse seu bigode te deixa muito sério.

— Mãe, o nome que a senhora me deu me permite usá-lo sem cerimônias.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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