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Vozes da Literatura

O universo ficcional do autor Saulo Barreto Lima

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A literatura genuína se faz no equilíbrio exato entre o respeito à tradição universal e a coragem de investigar as angústias do tempo presente. Nesta edição da coluna Vozes da Literatura, conversamos com o escritor, sociólogo e historiador Saulo Barreto Lima, que compartilha como a maturidade intelectual e a adoção de critérios estéticos rígidos refinam sua recepção da arte literária. Defensor ardoroso da preservação dos grandes clássicos no ambiente cultural, o autor revela como guia sua escrita por caminhos que abraçam desde o existencialismo cristão de Søren Kierkegaard até o diálogo com a potente tradição de autores fundamentais da história mundial.

Ao longo desta entrevista profunda, o contista e cronista reflete sobre os desafios da criação literária em uma era dominada pela pressa e pelo esvaziamento das redes digitais. Transitando com naturalidade pelo jornalismo e pela pesquisa histórica, Saulo analisa o papel da literatura como um poderoso antídoto contra a desinformação em tempos de pós-verdade, recomendando o mergulho nas distopias como bússola para o futuro. Com um olhar técnico e despido de vaidades mercadológicas, o autor discute os mecanismos do bloqueio criativo, a importância da autolapidação diária e o impacto da tecnologia na formação das novas gerações de escritores, entregando um panorama indispensável sobre os bastidores da produção contemporânea.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa?

Os clássicos são essenciais. Fico muito preocupado com o movimento “decolonial”, sobretudo nas universidades, em menosprezar os clássicos pelo fato de terem sido escritos por “europeus”, “homens” e “brancos”, por exemplo como uma forma de dar maior visibilidade a literatura “indígena”, “feminina” ou “negra”. Acredito que as duas vertentes têm suas importâncias e devem ser valorizadas, lidas e pesquisadas. Ainda com relação a minha relação com os clássicos posso dizer que antigamente lia aleatoriamente, o que não deixa de ser enriquecedor. Contudo, agora estou adotando critério para melhor refinar a recepção de uma verdadeira arte literária com os mestres. Digo mestres ou mestras aqueles autores que são fundamentais na literatura universal. Tenho, também, buscado ler mais autoras como Lispector e “literatura negra” como Lima Barreto.

De que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

É preciso reconhecer que não somos máquinas. O organismo humano, o cérebro particularmente, se desenvolve com a contração e relaxamento, e um exercício contínuo e regular. É preciso reconhecer que é preciso parar ás vezes, mudar a rota e deixar as ideias fluírem de um dia para o outro. Isso nada tem a ver com a falta de talento. É comum a qualquer escritor ou artista. Dessa forma, ler enquanto escreve é fundamental para se quebrar qualquer espécie de crise criativa pois tudo está dentro do escritor. Acontece que muitas das vezes suas qualidades são entulhados por excesso de ansiedade, falta de paciência, tecnologia e/ou modernidade.

“Sou adepto do existencialismo tanto na filosofia como na literatura”

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

A filosofia está em tudo, não importa a forma que chegamos até ela. Dostoievsky foi um grande exemplo disso. Muitos o classificam até como filósofo. A literatura só foi a forma dele expressar as inquietações humanísticas do povo russo da sua época. Eu, particularmente, sou adepto do existencialismo tanto na filosofia como na literatura, inclusive do existencialismo cristão cujo maior expoente é Søren Kierkegaard.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

O antigo Twitter, agora X, não deixa de ser uma espécie de diário, com exceção que limita a quantidade de palavras que podem ser escritas. A escrita diarística também tem essa característica, os registros são breves de ficam sob a égide de uma data. Fico impressionado com tantas pessoas escrevendo tão bem em suas redes sociais mas que acabam por desperdiçar seus dons em plataformas e espaços que são efêmeros que depois se apagarão se comparáveis aos livros, por exemplo. Os metadados da postagem deixam não somente a hora que o post foi escrito como também os milésimos de segundos. As minhas crônicas, por exemplo, tem um caráter mais informativo onde falo, sobretudo, de política e literatura. Também com a diminuição dos impressos acabou fazendo que os atuais cronistas buscassem novas plataforma para escrever como blogs e sites. Eu, por exemplo, tenho veiculado meus artigos no substack.

Saulo Barreto Lima ao lado do poeta Carlos Nejar na Academia Maranhense de Letras

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como o jornalismo ajudou a difundir e divulgar a produção ficcional produção literária brasileira?

A literatura e os escritores brasileiros dos séculos passados devem muito aos jornais impressos por seus espaços dedicados a folhetins, suplementos e jornais literários. Era uma forma de divulgar e perpetuar seus escritos em um tempo onde a edição e impressão de livros era muito precário e caro. Chegava-se a ponto de autores brasileiros terem de editar seus livros em Portugal. Sem falar que muitos jornalistas se tornaram grandes escritores.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Nesse caso a literatura pode figurar como o antídoto de toda essa desinformação cumprindo o papel que sempre teve que é libertar a mente do povo mostrando-lhe a verdade. Não à toa a literatura e os livros são um dos maiores alvos dos governos totalitários. Recomendo todos a lerem distopias, pois eles tem o poder de nos alertar o que pode acontecer no futuro de formos ser governados por figuras autoritárias. Para começar leiam Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. George Orwell também foi um grande baluarte nisso.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Eu sempre achei que ler e escrever em vários gêneros diferentes têm mais pontos positivos do que negativos. Agora, é quase impossível para um escritor alcançar a perfeição em todos os gêneros. Machado de Assis escreveu bastante poesia, mas é conhecido pelos seus romances e contos. Contudo, isso nada impede que um autor possa se escrever em um gênero que não é muito versado.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Em tese, eu não possuo “lugar de fala” nenhum.

“Em nosso meio há uma espécie de Seleção Natural da Literatura”

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em detrimento de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Sim. A competição está em todo lugar. Em nosso meio há uma espécie de Seleção Natural da Literatura, parafraseando Darwin. Mas, para o escritor maduro, esse embate é inócuo e não vale a pena entrar nele. Nada disso importa, o importante para mim é ser um melhor escritor amanhã do que fui ontem e que estou diariamente agindo nesse sentido seja lendo, pesquisando ou escrevendo.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Sim. Estou sempre assistido aulas de professores de literatura, sobretudo, no Youtube. Rodrigo Gurgel, Melk Ferreira, Matheus Araújo, Tatiana Feltrin são alguns dos que acompanho. Em suas aulas eles acabam esclarecendo pontos que, por algum motivo, ainda não tinha me atentado na minha escrita.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Concordo plenamente. O acesso é bem maior e a possibilidade de se especializar também aumenta. Contudo, a vida moderna de lutar pela sobrevivência e o excesso de abstrações que os aparelhos tecnológicos proporcionam acabam desviando o foco do que realmente tem valor artístico e que tem a capacidade de formar um autor. A observação de Martínez é pertinente no sentido que os autores atuais têm muito mais acesso a bens culturais e uma chance maior de se lapidarem como artistas da palavra.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Escrever é, de certa forma, expelir demônios. Uma autoanálise necessidade de forma a registrar aquilo que mais nos afeta. Uma denúncia, uma resistência daquilo que somos obrigados a participar mas que recusamos peremptoriamente.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Opa, essa pergunta foi feita para mim. Tenho uma formação sui generis. Para muitos posso ser entendido como um “aventureiro”, mas não me importo. Sou formado em Direito, Ciências Sociais e História, pois sempre achei que minha formação profissional seguiria no campo da crítica social; mas, desde a conclusão do meu mestrado, as Letras me arrebataram. Hoje sou doutorando e graduando em Letras e acho que tudo isso moldará minha forma de escrever daqui pra frente.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Nesse quesito era um tanto desleixado por achar que redes sociais era coisa de “desocupado” e “cabeça de vento” por conta de alguns conteúdos nada proveitosos. Mas agora vi que preciso crescer mais nesse campo sem falar que sua existência depende unicamente do autor sendo essencial criar bons conteúdos que atraiam aqueles que te seguem. No caso do escritor pode ser um meio poderoso para melhor difundir suas ideias e livros.

“Novos escritores e de outras regiões podem ser esmagados pela elite intelectual e pelos algoritmos que insistem em valorizar somente o que vem do eixo Rio-São Paulo”

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Essencial. É preciso furar a bolha… novos escritores e de outras regiões podem ser esmagados pela elite intelectual e pelos algoritmos que insistem em valorizar somente o que vem do eixo Rio-São Paulo. Isso tanto é verdade que muitos escritores migram para a capital carioca como forma a ganhar maior notoriedade.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Tomando emprestado a famosa frase de Kafka, eu diria: “eu sou minhas histórias!”

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Saiba mais sobre o escrito Saulo Barreto:
https://linkme.bio/saulo.barreto
Link do livro físico Prolegômenos: contos reunidos na Amazon:
https://a.co/d/gTqBNjk

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