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Vozes da Literatura

O universo literário e jocoso de Edna Domenica

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Vozes da Literatura do Café Literário recebe nesta edição a escritora Edna Domenica para um mergulho profundo em sua multifacetada identidade artística. Com influências declaradas que passeiam pela fina ironia de Machado de Assis, pelo exagero caricatural de Mário de Andrade e pelo formato cênico de franceses como Molière e Ionesco, a autora detalha como seu repertório de leitura liberta e molda sua voz criativa. Conhecida por brincar com as fronteiras dos gêneros textuais por meio de seus “crontos” — uma inventiva fusão entre conto e crônica —, Edna revela como utiliza o absurdo e o humor jocoso para narrar e denunciar episódios complexos da história recente do país, guiando-se sempre pelos ensinamentos teatrais de Bertolt Brecht e pelos princípios da Constituição Federal de 1988.

Ao longo do diálogo, a escritora reflete sobre os desafios contemporâneos do fazer literário, abordando desde a perda do lirismo na crônica urbana tradicional até as barreiras enfrentadas pelas mulheres em seus lugares de fala na sociedade atual. Com uma bagagem profissional e acadêmica que passa pelas Letras, Pedagogia e Psicologia, Edna Domenica defende a importância das oficinas criativas, defende o acesso à literatura como um direito coletivo que deve ser garantido pelo Estado e exalta o papel de resistência de espaços democráticos de publicação, como o próprio Café Literário do Notibras. A entrevista revela uma autora que enxerga o ato de escrever não como uma fuga, mas como um diálogo visceral com a própria existência e com as agruras do mundo.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

A leitura de Machado de Assis propiciou que eu aceitasse minha tendência a usar a ironia. Já Mário de Andrade me legou o gosto pelo exagero caricatural dos viventes e das vivências brasileiras. Das leituras dos escritores franceses, em especial Molière e Ionesco, herdei o gosto pela escrita de textos formatados para teatro.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Minha “moralidade” é pertinente à leitura da Constituição Federal Brasileira de 1988. As lições do dramaturgo Brecht também calaram fundo em mim desde a adolescência.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

A crônica urbana, se ainda existe, não está mais nos jornais impressos e parece ter perdido seu lirismo. Mas leio ainda algumas lindas crônicas em determinadas redes sociais, sem esquecer, por óbvio, dos colegas do Café Literário Notibras, dos quais ressalto Gilberto Motta.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Costumo brincar com a junção das características do conto e da crônica. Nessas oportunidades chamo meus textos de “crontos”. Costumo narrar fatos históricos tomando seu lado absurdo e engraçado, a exemplo de O Setênio que abrange o período de janeiro de 2016 a janeiro de 2023. Não há nada mais triste do que o esmagamento do fazer democrático nos anos mencionados, no entanto, a narrativa de O Setênio é considerada de cunho jocoso.
Meus livros de prosa ficcional publicados são: A volta do Contador de Histórias (Nova Letra, 2011); No Ano do dragão (Postmix, 2012), As Marias de San Gennaro (Insular, 2019), O Setênio (Tão livros, 2024). Breve será o lançamento de Entre quatro paredes pela editora Insular.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

A literatura como ferramenta de denúncia tem sido chamada de não literária, por alguns, e de “mais do mesmo”, por outros. Longe desse impasse, alguns colegas optam pela ficção científica, pelo realismo fantástico e pela distopia. Penso que cada voz ficcional é ímpar, ou seja: uma história é linda porque traz, de maneira cristalina, a voz de fulano ou fulana.  Como leitora, eu parto para esse abraço com quem conta, para encontrar esse lado do ser escrevente que expira humanidade.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Para mim, o domínio de técnicas desbloqueia a criatividade. Por exemplo, o conhecimento formal do método de criação de personagem proposto por Stanilavsky possibilita a invenção de personagem narrador descolado da pessoa física do escritor. Isso faz o texto fluir como música, elevando a sua qualidade.

Ao longo dos anos desenvolvi pesquisas sobre Psicodrama e suas aplicações em oficinas de escrita criativa que foram  parcialmente publicadas em Aquecendo a produção na sala de aula (Nativa, 2001), De que são feitas as histórias (Postmix, 2014), Relógio de Memórias (Postmix, 2017).

Dedico-me a escritas conjuntas de natureza experimental algumas publicadas no Café Literário Notibras. Nosso grupo realizou a escrita coletiva de uma das histórias da coletânea Do Corpo ao Corpus (Rocha Soluções Gráficas, 2022) e o livro Rapsódia da Rua da Mooca (Tão Livros, 2026). Os cinco autores dessa empreita – Edna Domenica Merola, Eduardo Martínez, Gilberto Motta, Marlene Xavier Nobre, Rosilene Souza –  partiram de personagens de suas publicações anteriores: As Marias de San Gennaro, (MEROLA E. D., Insular,  2019); O Setênio (MEROLA E. D., Tão Livros, 2024); Raquel (MARTÍNEZ E., 2012); Miolo: Cânticos para ninar pirados e piradas, (MOTTA G., 2000); Lembranças e Esperanças de uma mulher, (NOBRE M. X., Insular, 2020); Devaneios de um instante (SOUZA R., in Do Corpo ao Corpus, Rocha Soluções Gráficas, 2022).

Rapsódia da Rua da Mooca esboça um retrato social pelo viés de personagens: um sacerdote idoso e uma professora aposentada; uma vizinha que é encontrada desmaiada na rua e que precisa ser socorrida; uma pessoa que sofrera bullying e abandono, mas que consegue se integrar à comunidade; um homem sem teto e sem documento que vai ao cinema com uma mala de viagem; uma mulher “trans” que é  solidária com quem encontra em seu caminho.

Como você define o seu lugar de fala na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

O lugar de fala da mulher ainda é tido como subalterno. A mulher que se opõe ao machismo, ao racismo e ao “achismo” não ocupa um lugar tão confortável como deveria ser.

Por ocasião do lançamento de meu livro Cora, coração (Nova Letra, 2011), tive o desprazer de ser inquirida sobre as datas da escrita dos textos sobre a experiência amorosa sensual. Perguntaram se escrevi antes ou depois de me casar.

Então, concluo que meu lugar de fala é pelo direito das mulheres de escrever e publicar poesias sobre todos os temas, em especial o amor.

O escritor Daniel Marchi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em detrimento de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Considerando que somos seres de natureza gregária e que o fazer literário é de natureza plural, conclui- se que o papel do coletivo é o de fortalece a disposição individual. É imprescindível criar redes de apoio mútuo. O acesso à literatura é um direito coletivo e deveria ser garantido pelo Estado. Já que isso ainda não foi concretizado, cabe a nós escritores e escritoras nos unirmos em prol da literatura.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

A troca de experiências em grupo é mobilizadora. É super estimulante escrever para apresentar para colegas de diferentes formações e estilos.

Durante o período de 2016-2022, me dediquei à escrita de textos curtos e idealizei duas coletâneas temáticas. Junto a amigos, organizei Tudo poderia ser diferente – inclusive o título (MEROLA, 2022, e-book Amazon), que é sobre o autoritarismo e Do corpo ao Corpus (MEROLA, 2022, Rocha Soluções Gráficas), cujos temas são as marcas como vieses da escrita performática.

Dentre os autores que colaboraram nessas coletâneas temáticas, estão comigo: Antonio Gil Neto, Cassiano Silveira, Gilberto Motta, Marlene Xavier Nobre e Rosilene Souza.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

O Eduardo Cesario Martínez, além de um contista excelente, é um ser que parece já ter vivido no futuro. Traz na alma uma compaixão que não é dessa época tumultuada em que vivemos e escrevemos. Faço votos de que ele esteja carregado de razão.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Quem escreve por fuga vai ser pego e acabar no cárcere. Escrever é dialogar com sua própria existência e com os problemas do mundo.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

A vivência pregressa nos cursos de Letras, Pedagogia e Psicologia enriquece meu papel de escritora. Hoje, como internauta, colho, nas redes sociais, materiais úteis para a construção de personagens hilários, ainda que verossímeis.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Há casos bem-sucedidos. São raros. São pessoas autênticas, extremamente resilientes e exemplos de superação. Souberam amadurecer e trabalharam duro a partir do seu lugar de fala.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Devolvo uma parte da pergunta: ainda há grandes editoras?  Avalio as dificuldades que as editoras sobreviventes enfrentam para se manter num país em que políticos propagam o desprezo pela pesquisa, pelos professores, pela escola pública laica, civil e de qualidade. Políticos que menosprezam as cotas para os povos originários e a prova do ENEM como mecanismos de justa seleção para ingressar na universidade pública. Costumo dizer, de maneira jocosa, que sou militante do PRCDC – “Programa de Recuperação Cognitiva e Dessensibilização de Cromofobia”. No projeto, livros são usados como vacinas para a cromofobia – essa doença epidêmica que retorna com intensidade de quatro em quatro anos, ou seja, nas eleições para os poderes Legislativo e Executivo – federal e estadual.

O PRCDC é um projeto de resiliência em prol dos princípios democráticos. Consiste de leituras dos autores: Edna Domenica, Eduardo Martínez, Gilberto Motta, Marlene Xavier, Rosilene Souza. Assim como de Graciliano Ramos, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Chico Buarque de Holanda, Guimarães Rosa, Mia Couto, Conceição Evaristo e outros. Para sanar os casos mais graves de cromofobia, recomendo: Marx e Engels.

Frente a esse cenário político cultural, nós, os novos talentos, devemos focar no que é construído via espaços democráticos de publicação, como o Café Literário Notibras.

15) Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Escrever é uma empreitada existencial desafiadora, uma tarefa árdua, um afeto prazeroso, um ato de cidadania. O Café Literário é uma egrégora de paixão na divulgação da escrita criativa.

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