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Pé tudo encardido

O Velho Goiás

Publicado

Autor/Imagem:
Gil DePaula - Foto Francisco Filipino

No batente da porta da cozinha, com os pé tudo encardido de poeira vermeia e o beiço melado de manga cagaita, o menino ficava só espiando o mundo, quietim, igual cachorro que vê coisa pegando fogo e num sabe pronde correr. A fazendinha era piquititinha, mas pra ele valia por Goiás inteiro — um mundão aberto, sem cerca que prestasse pra segurar a imaginação dele.

A mãe vivia ralhando:

— Menino, cê é doido, é? Sai desse sol, sô! Vai torrá a cabeça igual rapadura esquecida na beira do fogão!

Mas ele fingia nem escutar. Ficar parado era coisa que o corpo dele num aceitava.

E como aceitá? O sol brilhava que Deus o livre, o cheiro de terra quente subia grosso, esparramado, parecendo fumaça invisível, e tudo à volta parecia chamá ele pelo nome.

No mei da manhã, quando os galo tava até rouco de tanto cantar, o menino já tinha rodado uns dez mundos dentro da cabeça: já tinha virado boiadeiro, pescador, montador de cavalo brabo, patrão de nada e dono de tudo. Catava uns pau torto no quintal e inventava história. Até tronco de mandioca virava boi de rodeio.

Quando dava meio-dia, o sol batia na terra e soltava aquele cheiro forte de chão fervendo. Os cachorro esfregava a barriga no pó pra refrescá, as galinha parecia tudo desmaiada e, até o vento, coitado, dava sinal de cansaço; até se via os ramos de Graciliano.

Mas o menino?

Ah, esse num tinha jeito: continuava correndo atrás dos patos, das galinhas, brigando com sombra, mexendo com marimbondo — só se lembrava de ter medo quando tomava a ferroada.

À tarde, ele levantava carreira pro rio. Só de imaginar a água já batia aquela coceira boa no corpo.

— Ocê num vai entrá nessa água fria não, menino! Vai pegá congestão! — gritava a mãe, que nunca acertava os presságios dela, mas tinha certeza que, se alguém acabasse de comer e mergulhasse no rio, ficava doente.

— Vou só molhá os pé! — respondia ele.

Mentira descarada!

Chegava lá, mergulhava até sumir a cabeça, saía bufando, tremendo, mas rindo igual quem recebeu um presente inesperado. E tinha mesmo coisa ali que mexia com ele. A avó jurava que o rio tinha “morador”, espírito sabido que só aparecia pra menino de coração bão.

— Se ocê vê uma luzinha correndo dentro d’água, cumprimê ela, senão dá azar! — dizia, fazendo o sinal da cruz.

O problema é que o menino via era coisa demais: sombra que passava, peixe que pulava sem motivo, redemoinho que não dava pra confiar. Às vezes parecia até que tinha alguém chamando ele de longe:

— MeniiinÔôôô…

Aí o coração dele descompassava igual sanfona com fole frouxo. Mas voltava sempre no outro dia. Curioso é bicho que não sara.

Quando a noite caía, o mundo mudava de pele. Os grilo começava a fazer serenata, o mato ficava cheio de segredo e o céu se enchia de estrela… mas muita estrela, um tanto que dava até agonia.

O pai dele, homem seco igual vara de angico, tanto que acabou apelidado de Talisca, ficava mais falante debaixo do luar:

— Olha aí, minino… Luuna cheia assim vê mentira a léguas. Quem engana debaixo dela acorda com a língua pareceno tora de buriti.

O menino acreditava sem nem piscar. Pra ele, tudo era possível.

O mundo ainda num tinha se tornado moinho.

Quando o vento soprava meio torto e batia nas teia, o menino achava que era alma penada.

Corria pra cama e puxava a coberta até a cabeça:

— Num me leva não, assombração! Amanhã ajudo mãe a capiná o quintal inteirim! Era medo bom, desses que parece que abraça a gente por trás e faz dormir melhor.

E assim foi crescendo: tortim, sem pressa, igual galho de pequi procurando sol no meio da mata.

Um dia, cheio de curiosidade boba, resolveu se embrenhá sozinho pra dentro da mata, querer descobrir o que tinha “pra banda de lá”, onde o pai falava que morava coisa “antiga demais pra mexê”.

Levou só um pedaço de pão, o canivete e a coragem — essa ele tinha de sobra. Entrou no mato.

O mato entrou nele.

E ali começou outro pedaço da vida.

A sombra ficava mais escura, o silêncio mais grosso, o cheiro mais vivo. Cada passo fazia zoada diferente, umas até inventada pela cabeça dele: rastro de bicho, asa de morcego, assobio de vento, quebrada de galho que parecia gente.

E, quando a luz do dia começou a sumir, o menino estancou. Escutou. Engoliu uma enxadada de ar.

Sentiu a mata inteira olhando pra ele… até a Mãe-do-Mato. E então…

E foi bem ali, no mei daquele mundão paradão, que o menino percebeu um trem danado: o mundo era grande que só a peste — grande de fazê o coração dele batê desembestado dentro do peito, igual zabumba de Folia de Reis. Grande demais pra um menino só.

A lua, redonda feito queijo frescado na hora, subiu mansim. A luz dela caiu no mato como leite derramado, clareando até pensamento torto. E o medo, que até então tava empacado num canto, ficou meio manso — igual bezerro recém-desmamado que ainda num sabe berrá direito.

Lá pras banda da mata fechada, um bicho deu um grito esquisito. Não era berro, não era choro, não era riso.

Chamado de coisa velha, coisa que mora lá antes da gente aprender a falá. O arrepio correu nas costas dele finim, igual rastro de pião no terreiro.

— Eu num tô com medo não… Pode vim o que for — murmurou, meio duvidando do que dizia.

Num tinha ninguém pra ouvi (ou tinha?). Mas a lua ouviu.

O vento ouviu.

O vento bateu no cangote dele macio, igual mão de avó benzedeira passando reza braba. Ele puxou o ar fundo, sentiu o cheiro de capim machucado, de terra quente esfriando, de noite carregada de assombro. Um tum-tum que vinha de dentro.

E ali, no escuro viscoso, misturado com a claridade pálida da lua, o menino entendeu um troço que ninguém tinha contado:

A vida é grande, medonha, bonita pra daná — e só cresce quem tem coragem de entrar dentro dela.

Naquela noite, ele deixou de ser só menino. Virou farejador de mistério.

Catador de mundo.

Escutador de silêncio.

Hoje, com ruga na testa, calo no coração e o mundo rodado dentro dos óio, ele ainda vorta praquele pedaço de Goiás sem precisar andá estrada. Basta fechá as pálpebra que tudo volta: o cheiro de capim pisado, o canto dos grilo, a Baleia latindo, o rio gelado que fazia o corpo pular, a manga cagaita lambuzando o beiço, o medo bom das assombração da mata.

“O menino continua aqui dentro, teimoso que só, espiando o mundo por trás de mim.”

E sente o coração bater naquele mesmo compasso antigo — compassado, ligeiro, cheio de susto e de encanto —, como se ainda estivesse parado no mei do mato, encarando o escuro, dizendo baixim:

— Eu num tô com medo não… Pode vim o que for!

Porque o mundo continua grande, medonho e bunito pra daná.

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