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Maria e Orlando

O velório do acaso

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Maria e Orlando se conheceram num velório. O falecido era Antônio, parente distante da mulher e colega de trabalho do sujeito. Trocaram algumas palavras, o suficiente para que os dois percebessem que o desejo de esticar a conversa havia se instalado. Trocaram telefones.

Orlando, então saído de um relacionamento conturbado, muito por sua culpa, refugou por alguns dias até que enviou uma mensagem pelo WhatsApp:

“Bom dia!”

O homem, logo em seguida, foi tomado de arrependimento. Quem manda mensagem a uma praticamente desconhecida àquela hora da manhã? Orlando conferiu o horário: 8h37.

“Bom dia, Orlando! Pensei que você tivesse perdido o meu número. Ou algo pior…”

Não era tão cedo assim, pensou Orlando.

“Pior?”

Minutos de espera carregados de certa angústia. O que seria pior?

“É, Orlando. Pensei que você tivesse me esquecido.”

Aquele foi o empurrão necessário para que Orlando arrancasse o resquício de coragem escondida no fundo da gaveta.

“Posso te ligar?”

“Pode sim.”

Combinaram um café no sábado. Muitas expectativas que acabaram em promessas de se encontrarem novamente. Mera formalidade.

Quase cinco anos depois, Maria e Orlando se reencontraram em um churrasco na casa de Paulo, amigo em comum. Desconhecendo que aqueles dois já possuíam um princípio de história, o anfitrião os apresentou. Como se tivesse sido combinado, eles fingiram ser estranhos.

— Bem, meus queridos, vou deixá-los a sós. Preciso dar um abraço no Álvaro. Sintam-se à vontade e, qualquer coisa, me chamem.

Assim que Paulo deu as costas, Maria e Orlando sorriram, como se fossem crianças que acabaram de fazer traquinagens.

— Quando você se tornou um mentiroso? E você me viu? Orlando, e se o Paulo descobre?

— Pois é, Maria, somos dois mentirosos de carteirinha. Tudo bem com você? Já faz tanto tempo, né?

O bate-papo fluiu. Saíram de mãos dadas e hoje, passados dez anos, entre idas e vindas, decidiram ter uma lua de mel em João Pessoa. E, caso gostem da experiência, é provável que juntem os panos quando retornarem. Talvez comprem até um aquário.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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