Cinzas
‘Oh!, quarta-feira ingrata, chega tão depressa só para contrariar…’
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O Carnaval é muito mais do que uma simples festa popular. Ele constitui um “segundo mundo” temporário, que arrasta multidões, no qual a ordem oficial é suspensa e substituída por uma lógica de inversão de valores e riso coletivo. Nas antigas Saturnais romanas, escravos e senhores trocavam simbolicamente de posição, instaurando uma pedagogia social da relativização do poder. Mas tudo para provocar o riso e inibir a tristeza.
No contexto cristão medieval, o Carnaval tornou-se o limiar da Quaresma, período de quarenta dias que antecede a Páscoa. A etimologia latina carnis levare — retirar a carne — aponta para o contraste entre abundância e abstinência. Assim, o excesso carnavalesco não é mero hedonismo, mas uma explosão ritual que prepara o retorno à disciplina espiritual.
Politicamente, o Carnaval opera como espaço simbólico de crítica. No Brasil, escolas de samba frequentemente tematizam injustiças históricas, reescrevendo narrativas oficiais. E promovendo lideranças políticas, principalmente em anos eleitorais. Os festejos de Momo revelam a tensão estrutural entre “casa” e “rua”, entre a ordem institucional e a liberdade momentânea da multidão. Nesses contexto impera a política do “Pão e Circo” da Pax Romana. Não tem pão, então tome circo. A euforia generalizada é mantida sob o controle da política e dos políticos, estes seguramente blindados nos palanques e camarotes. Assim, acompanham lá do alto, onde o povo está. Lá embaixo.
A máscara carnavalesca, símbolo ambíguo, oculta a identidade individual para revelar uma verdade coletiva: todos são transitórios, e a identidade individual é passageira. Sob o riso mascarado, esconde-se a consciência de que a ordem social é construção efêmera.
A Quarta-feira de Cinzas inaugura a Quaresma no calendário da Igreja Católica. O rito central consiste na imposição das cinzas na fronte dos fiéis, acompanhada da fórmula: “Lembra-te de que és pó e ao pó retornarás” (Gn 3,19). A sentença ecoa a narrativa da criação e queda do homem no livro do Gênesis.
Na tradição bíblica, cobrir-se de cinzas era gesto de penitência e reconhecimento da própria fragilidade (cf. Jó 42,6; Dn 9,3). A cinza, produto final da combustão, representa aquilo que permanece após o fogo purificador. Teologicamente, o rito estabelece uma antropologia da humildade. Na sua essência o homem é pó, e quarta-feira “ingrata” dissipa a embriaguez festiva e confronta a consciência com a finitude e a totalidade.
No horizonte esotérico, a cinza assume significado iniciático. Na tradição alquímica europeia, sistematizada simbolicamente em textos atribuídos a Hermes Trismegisto, o Mago Egípcio “Três Vezes Grande”, a primeira fase do Opus Dei, a “Grande Obra”, é a nigredo, a negrura ou putrefação da matéria. A matéria deve ser reduzida ao estado caótico para que possa ser regenerada.
A cinza, nesse contexto, é símbolo da morte das formas antigas. O fogo destrói, mas também purifica. O que resta é essência. A imagem da Fênix, que renasce das próprias cinzas, traduz o arquétipo universal do renascimento.
Sob perspectiva política, a metáfora é igualmente potente: impérios tornam-se pó, regimes desmoronam, monumentos convertem-se em ruínas. A cinza recorda que nenhuma estrutura de poder é absoluta. Tudo que é sólido se desmancha no ar…
O Carnaval representa o ápice do riso coletivo; a Quarta-feira de Cinzas é um sinal de penitência, o retorno à interioridade. É o cair em si mesmo no ano que começa efetivamente. Um celebra a vitalidade do corpo; a outra recorda sua transitoriedade. O fim. Ambos, contudo, participam de uma mesma dialética ritual: excesso e limite, expansão e recolhimento, fluxo e refluxo, coagulação e solvência, vida e morte.
A “quarta-feira ingrata”, não por crueldade, mas por lucidez, retira as máscaras e devolve ao homem sua condição primordial. Nas cinzas, aparentemente sem cor, encontram-se misturadas todas as cores queimadas. Assim também a humanidade: múltipla nos festejos, una em sua fragilidade.
A verdadeira iniciação começa quando se aceita o pó não como derrota, mas como possibilidade de renascimento.
Assim é!
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Hussein Sabra el-Awar
Membro Conselheiro do Colégio dos Magos e Sacerdotisas
@colegiodosmagosesacerdotisas
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