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Eleitor desavisado

Oito décadas de vida ensinam que mitos sem raciocínio morrem pagãos

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Autor/Imagem:
Misael Igreja - Foto de Arquivo

Iniciar mais um ano da vida é muito mais do que celebrar uma data, uma época ou o início de uma nova fase da existência. Acima de tudo, é reconhecer vitórias, superar desafios e renovar esperanças. Agradecer por esse ciclo é uma forma poderosa de valorizar a jornada, de inspirar o coração e de preparar a alma para tudo que está por vir. Gratidão pelo ano que passou. Para o que acabou de chegar, muita expectativa. Neste novo ano, ano de São Jorge, o santo guerreiro, mais importante que tudo é a certeza de que, após oito décadas e meia diferentes, cheguei um pouco mais sábio a 2026.

Sábio não apenas de saber, mas para reconhecer que o que sei é uma gota comparada ao oceano que ignoro. Sou sábio, pois desde cedo aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo. A partir desse conceito interna corporis, percebi que o silêncio é o começo da sabedoria. Não à toa, são dois séculos e dois milênios diferentes. Entre ontem, hoje e amanhã, normalmente escolho o hoje. E a razão é simples: o ontem não me pertence mais, o hoje é todinho meu e o amanhã, quem sabe? Entretanto, como esquecer que, em tão pouco tempo, deixei de ser menino e filho para me tornar um senhor, do tipo feliz pai e avô.

Assim como boa parte dos dias foi um Rio (ou um rio) que passou em minha vida, minhas noites foram para tentar entender uma razão capaz de explicar a necessidade de os poetas optarem por dizer que o adulto não existe. Segundo os artistas do pensamento, o homem “é um menino perene”. Sem pudor algum, sou daqueles que desconfiam absurdamente das veemências. Por exemplo, como admitir como mito um sujeito que nasceu, envelheceu, se elegeu, está preso e deverá morrer sem jamais ter ousado um raciocínio próprio.

Embora seja dos anos 40, só descobri o mundo nos anos 70, 80 e 90. Estabilizei minha consciência nos anos 2000, me desesperancei em 2018 e voltei a ser feliz em 2022. Nesse período, passei do telefone com operadora para chamadas de longa distância às videochamadas para qualquer canto do mundo. Esqueci os slides e me aventurei no YouTube. Complicado foi abandonar a coleção de discos de vinil para claudicar na música online. O pior dos cenários ainda estava por vir. Das ensaiadas e românticas cartas manuscritas, adentrei, sob protestos, ao mundo do e-mail e do WhatsApp.

Maldição do mundo moderno, foram as redes sociais que permitiram ao Brasil eleger aquele que, graças aos mesmos deuses da internet, foi sem nunca ter sido. E, ao que parece, nunca mais será. Só para ilustrar, mesmo sem TV HD, Netflix e nenhum gigabyte, megabyte, IPad ou IPod, os governantes de outrora conseguiram evitar a paralisia infantil, a meningite, todos os tipos de gripes, inclusive a H1N1, e certamente evitariam a Covid-19, aquele vírus que, tratado como uma “gripezinha”, matou quase 800 mil brasileiros. Se acham pouco, elejam novamente o moço ou alguém que ele indicar.

É verdade que usei shorts durante toda a infância e depois bermudas, calças compridas e ternos e gravatas. Andei de patins, bicicletas, triciclos, ciclomotores, carros a gasolina ou a diesel, mas ainda não consegui me abundar em híbridos ou 100% elétricos. Os “patriotas” talvez me descrevam como um menino analógico e um adulto quase digital. Depende do ponto de vista, principalmente se considerarem que, libidinosamente, usei as mãos quase diariamente. Resumindo a evolução, me adaptei às mudanças exigidas pela modernidade. Com a sabedoria que Deus me deu, passo ao largo da Inteligência Artificial, mas não me curvo aos oportunistas. Em outras palavras, sabedoria é entender que entre o mito, o fanático e o psiquiatra, o mais perigoso é o eleitor desavisado.

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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

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