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Poesia argentina

Olhares poéticos Brasil – Argentina

Publicado

Autor/Imagem:
Oliverio Girondo e Daniel Marchi / Arte: Francisco Filippino

Oliverio Girondo (Buenos Aires, 17 de agosto de 1891 — 24 de janeiro de 1967) foi poeta, prosador, desenhista e uma das figuras centrais da vanguarda literária argentina. Formou-se em Direito em 1916, mas nunca exerceu a advocacia, dedicando-se à literatura, ao jornalismo cultural e a projetos editoriais. Viajou pelo Brasil entre 1920 e 1921 e, em 1943, após se casar com a poeta Norah Lange, permaneceu seis meses no país, período em que estreitou relações com o modernismo brasileiro e com escritores como Oswald de Andrade. Ligado à revista Martín Fierro, publicou obras fundamentais como Veinte poemas para ser leídos en el tranvía, Espantapájaros e En la masmédula. Sua poesia renovou profundamente a linguagem argentina, incorporando humor, imagens urbanas, experimentação visual e invenções verbais.

Apresento aos leitores do Café Literário a tradução de um poema de Oliverio Girondo, intitulado no original “No Soy Quien Escucha”:

NÃO SOU QUEM ESCUTA…

Não sou quem escuta
o trote da chuva cruzando minhas veias.

Não sou quem passa a língua entre os lábios,
sentindo a boca inteira encher de areia.

Não sou quem espera,
emaranhado em nervos,
que as horas me conduzam ao repouso do sono,
nem quem, com estas mãos de gesso enlouquecido,
contempla entre meus ossos as paredes áridas.

Não sou eu quem escreve estas palavras órfãs.

E, em diálogo poético, um poema meu cuja gestação teve início numa velha rua de Buenos Aires:

GEOMETRÍA DEL PLATA

Calles rectas cortan la llanura.
En el suelo sin fin no hay escondite.
En los parques, la vieja Europa es sombra,
y los edificios repiten París-Haussmann.

El sur respira un frío de navaja.
En los árboles, la noche se demora.
Un taxi corta la brea de la avenida.
Un bulto se borra al final de una calle.

Un tango llega herido desde una ventana.
En los bronces, duermen nombres extranjeros.
Apellidos del norte y de Italia.
Borges vigila la sombra de las ochavas.

En Puerto Madero, la tarde turis-sangra.
El río guarda un cielo sin testigos.
El vino entibia las manos contra la noche,
y las calles exactas me llevan al misterio.

……………….
Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho, (contos, 2026). No Instagram: @prof.danielmarchi.

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