Curta nossa página


Limites

Os adjetivos que surgem quando perdem o controle

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Ingrata: aquela que colocou limites na palhaçada.

Difícil: porque não aceitou ser desrespeitada.

Fria: porque aprendeu a se proteger depois de muito ferida.

Egoísta: porque aprendeu a se escolher.

Instável: a que parou de se calar.

Curioso como o vocabulário muda quando a mulher deixa de ser conveniente.

A linguagem nunca é neutra. Pierre Bourdieu já alertava que o poder simbólico opera por meio das palavras. Nomear é classificar; classificar é enquadrar. Quando uma mulher altera seu comportamento estabelece fronteiras, recusa abusos, abandona a docilidade compulsória ela não apenas muda atitudes, ela desorganiza expectativas.

E expectativas sociais são estruturas.

Durante muito tempo, a socialização feminina ensinou que virtude era sinônimo de acomodação. Simone de Beauvoir mostrou como a mulher foi historicamente educada para ser o “outro” disponível, compreensiva, moldável. Quando ela deixa de ocupar esse lugar, a reação não é neutra. Vem o rótulo.

“Ingrata” é o nome dado à autonomia.

“Difícil” é a reação ao limite.

“Fria” é a resposta à autopreservação.

“Egoísta” é o incômodo diante da autoescolha.

Não é instabilidade. É reconfiguração.

Anthony Giddens fala da reflexividade da modernidade: indivíduos reavaliam continuamente suas trajetórias. Quando uma mulher decide interromper padrões que a ferem, ela está exercendo agência. Mas agência feminina ainda causa desconforto em contextos onde submissão era pressuposto.

Há algo quase didático nisso tudo. O adjetivo revela mais sobre quem acusa do que sobre quem é acusada. Porque quem se incomoda com o limite, provavelmente se beneficiava da ausência dele.

No Nordeste a gente diz, com certa sabedoria prática: quem nunca ouviu um “não” estranha quando escuta o primeiro. Mas estranhar não transforma limite em erro.

Colocar fronteira não é hostilidade.

É maturidade.

Se para preservar sua dignidade você precisou mudar, que mudasse. Se para sobreviver emocionalmente precisou se escolher, que se escolhesse.

Às vezes, o preço da autonomia é ser mal interpretada.

Mas o preço da complacência é ser apagada.

E entre ser chamada de “difícil” e viver desrespeitada, a escolha já está feita.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.